Escolhas, oportunidades e imposições

Em uma oficina de tradução do espanhol da qual participo, o professor pediu que os alunos escolhessem um autor, e um conto do respectivo autor, para traduzir. Para ajudar na tarefa, passou uma lista de nomes, mas quem quisesse teria ainda a opção de escolher alguém de fora da lista (contanto que estivesse em domínio público ou prestes a entrar). Diante de tantas possibilidades, comecei a ler vários contos de cada autor e a selecionar os que mais me agradavam.

Isso mesmo, meu critério de escolha, inconscientemente, foi meu gosto pessoal. Não pensei se seria fácil ou difícil de traduzir, se apresentaria ou não algum desafio tradutório de qualquer natureza, se era curto ou longo. Simplesmente fui separando coisas mais próximas do que eu gostaria de ler.

Só depois parei para pensar: chegando aos sessenta livros traduzidos, posso contar nos dedos aqueles com que me identifico como leitora. Lamentei por alguns segundos e voltei a pensar: e daí?

Eu sei, pelas conversas com colegas e pelas mensagens que recebemos aqui no Ponte de Letras e também pelo e-mail pessoal, que quase todo mundo que deseja ser tradutor literário já pensa que vai começar traduzindo alta literatura para uma editora grande e famosa. Salvo raríssimas exceções, isso não vai acontecer.

Traduzir é um trabalho como outro qualquer e todo mundo tem que começar por algum lugar. É claro que eu amaria traduzir alguns de meus ídolos da literatura (quem sabe um dia!), mas acredito que ninguém está preparado para começar logo pelos grandes. Além disso, o fato de traduzir autores de menos prestígio, ou de certo prestígio em seu segmento, mas que não têm nada a ver com minhas preferências pessoais (sou chata assumida) não é sinônimo de traduzir algo sem valor ou de pouca dificuldade.

Tirando o livrão que estou traduzindo atualmente, um dos livros mais difíceis que já traduzi foi um infantil – quem diria! Aquele típico texto bobinho que de bobinho não tem nada, sabe? Ao meu ver, traduzir bem é conseguir “ouvir” a voz do autor e encontrar algo similar na língua de chegada, um efeito equivalente (já que o equivalente perfeito não existe), portanto, encontrar essa voz em autores com que não nos identificamos plenamente é um exercício e tanto.

Todo livro é um desafio. E o melhor é encarar os trabalhos que chegam até nós como oportunidades, e não como imposições. Assim pavimentamos uma trajetória sólida e nos preparamos para o dia (a esperança é a última que morre, gente!) em que poderemos escolher o que traduzir.

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5 comentários sobre “Escolhas, oportunidades e imposições

  1. Me identifiquei pra caramba, Flávia. Falou com clareza sobre uma sensação que muitos de nós (se não todos) conhecemos na profissão. E TUDO BEM. 🙂 É legal quando tradutores bem estabelecidos dividem essas experiências com os principiantes. Percebemos que não somos estranhos no ninho. Obrigada.

    • Olá, Camila.
      Obrigada pelo comentário. Um dos nosso objetivos aqui no Ponte é justamente falar da vida real e desmistificar um pouco essa coisa do tradutor literário como um ser místico e especial que só traduz SÓ coisas lindas e maravilhosas. Tem muita coisa legal no nosso caminho também, mas temos que saber dar um passo de cada vez, não é?

      Um beijo e volte sempre. 🙂

  2. Republicou isso em Camila Fernandese comentado:

    “Ao meu ver, traduzir bem é conseguir ‘ouvir’ a voz do autor e encontrar algo similar na língua de chegada, um efeito equivalente (já que o equivalente perfeito não existe), portanto, encontrar essa voz em autores com que não nos identificamos plenamente é um exercício e tanto.” Flávia Souto Maior no blog Ponte de Letras.

  3. Ótimo post!
    Encontrar uma palavra/expressão equivalente e que mantenha o sentido que o autor impôs ao texto original é realmente um dos maiores desafios da arte de traduzir.
    Abraços!

    • Olá, Joyce.
      Fico feliz por ter gostado do post.
      Os (muitos) desafios que encontramos pela frente ao traduzir acabam sendo a parte mais interessante do trabalho, não é mesmo?

      Obrigada pela visita e volte sempre.
      Abraços.

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