Lexicografia: uma vida entre muitas palavras

Responda rápido: na área de estudo de idiomas, quais são os livros mais vendidos de todos os tempos? Embora a pergunta seja um pouco genérica, é possível arriscar uma resposta sem medo de errar: com certeza há dicionários na lista!

Desde muito novo eu me interesso pelo mundo da lexicografia, ou seja, o trabalho de elaboração de dicionários, glossários e afins. Eu já gostava de folhear dicionários de língua portuguesa desde novo, achava maravilhosas aquelas listas infindáveis de palavras novas. Com aproximadamente 15 anos, conheci a edição do Cambridge International Dictionary of English, o volume que mudou minha percepção sobre a lexicografia: de repente, o dicionário já não era uma lista de palavras estática e sisuda, mas uma ferramenta muito útil para o aprendizado de novas palavras. Estava tudo ali: a organização por campos semânticos, informações sobre o uso de verbetes, a utilização de imagens (que, afinal, valem mais que mil palavras)… Naquele momento, foi despertado em mim um enorme desejo de conhecer o processo de criação dos dicionários.

Quem diria que, após alguns anos, eu viria a trabalhar como tradutor e editor freelancer para editoras estrangeiras, justamente em projetos lexicográficos! Ao longo da minha carreira, atuei como tradutor e revisor em vários dicionários, desde edições para crianças até volumes de bolso para estudantes. Além disso, fiz parte do corpo de colaboradores do Dicionário Oxford de Português como tradutor e editor. Essa experiência foi um divisor de águas tão representativo para mim que decidi contar um pouco a respeito dela no Congresso da Abrates deste ano, que ocorreu no Rio de Janeiro há algumas semanas. Neste artigo, terei o prazer de compartilhar algumas curiosidades sobre o mundo da lexicografia.

Como se cria um dicionário novo? Hoje em dia, não é mais necessário compilar todos os verbetes do ponto de partida de um projeto lexicográfico – isso seria mais ou menos como reinventar a roda! As editoras utilizam edições anteriores para estruturar os novos dicionários; na maioria dos casos, essas edições são do próprio acervo da editora, mas em alguns casos elas adquirem direitos de outras obras. No caso do Dicionário Oxford de Português, a compilação dos verbetes do lado inglês-português partiu do extenso banco de dados da Oxford University Press, editora com grande tradição e know-how em projetos lexicográficos. Já o lado português-inglês foi inicialmente estruturado com base em um dicionário português-holandês. Em seguida, a editora utilizou o recém-criado Corpus Oxford de Língua Portuguesa (criado exclusivamente para o dicionário) para expandir a seleção dos verbetes, o que resultou nos mais de 30 mil vocábulos. Talvez esse seja o aspecto mais importante desse dicionário em particular: como ele é baseado em corpus (um banco de dados linguístico com palavras e frases usadas em contextos genuinamente reais), os verbetes e exemplos usados refletem o uso atual da língua. O uso do corpus levou em conta a mais recente reforma ortográfica (Novo Acordo Ortográfico).

Com os verbetes dos dois lados organizados, começou a etapa mais trabalhosa: a tradução e edição dos vocábulos. Havia duas equipes com a mesma estrutura, uma para cada lado do dicionário, e as tarefas eram organizadas da seguinte maneira: aproximadamente oito tradutores/redatores faziam a tradução dos verbetes. Os dois editores (que também atuavam como tradutores) faziam as primeiras edições dessas traduções. Como o volume de verbetes traduzidos era muito grande, essa primeira edição se revelou um verdadeiro desafio! Cada lado contava com uma editora-chefe que, além de supervisionar o processo da equipe, também editou e revisou todo o texto pessoalmente. Havia ainda a diretora editorial, que coordenava as duas equipes com suas planilhas de distribuição de verbetes, prazos a serem cumpridos e estatísticas gerais. Resumindo: uma equipe de mais de 25 pessoas espalhadas pelo mundo afora (Brasil, Portugal, Reino Unido, Espanha, etc.) e trabalhando harmoniosamente, a despeito dos diferentes fusos horários!

O processo de tradução, edição, preparação e revisão do dicionário durou cerca de dois anos e meio.  Ao longo desse tempo, foram vários os desafios com que eu me deparei, principalmente como tradutor. É moleza quando temos pela frente o verbete “basil” (carinho especial por ele, um dos primeiros que traduzi, ainda na fase de treinamento): manjericão, masculino. Perfeito! Manda mais! Logo, algo mais espinhoso se apresentaria – o substantivo “splash”, por exemplo. Puxa, eu nunca tinha pensado nisso. E agora: como se diz “splash” em português? Respingo? Borrifo? Jato? Poxa, não tem um contextinho para ajudar? Isso sem falar nas preposições, que são usadas como tais ou como advérbios, além da partícula que compõe os phrasal verbs. O tradutor também precisa se virar com relação a conceitos que existem na cultura anglo-saxã, mas que não têm exatamente uma tradução exata em português. É o caso de frontbencher, por exemplo, figura do Parlamento Britânico. Enfim, a lista é infindável. E, claro, para cada desafio superado, aquela sensação de dever cumprido!

No total, o Dicionário Oxford de Português levou quatro anos para ser produzido. Foi um período intenso de trabalho e aprendizado de valor inestimável, pois me credenciou para vários outros trabalhos na lexicografia. Depois desse projeto, atuei como tradutor e revisor em outros dicionários, sempre me mantendo cercado por essas listas de palavras maravilhosas e infindáveis, quase místicas. Todas elas inevitavelmente remetem àquele garoto de 15 anos que folheava dicionários no seu tempo livre como bibliotecário: quase consigo me ver sentado à mesa, como se assistisse a um filme. A curiosidade de criança foi o fio condutor de uma carreira: cada projeto é um mergulho na lexicografia. Splash!

Em tempo: se você ficou curioso em saber sobre a tradução de splash, frontbencher e outros inúmeros verbetes que representam verdadeiras cascas de bananas tradutórias, confira o Dicionário Oxford de Português. Além da versão impressa, ele está disponível em versão on-line.

organ

Organização das equipes do dicionário; em preto, as funções que desempenhei.

Daniel Veloso é tradutor, lexicógrafo e intérprete profissional. Natural de Minas Gerais  e licenciado em inglês pela UFMG. Radicado em São Paulo, onde fez o curso de Formação de Intérprete pela PUC-SP. Interpreta eventos em diversas áreas, com destaque para mineração, engenharia, arte e literatura (principalmente música e cinema), política, economia e medicina. Fez traduções para a Autêntica Editora em 2010/2011 e atualmente presta serviços de tradução técnica para agências. Atua como tradutor, revisor e consultor linguístico freelancer para editoras estrangeiras como Collins Cobuild e Oxford University Press. E-mail para contato: danielvsh@gmail.com

Anúncios

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s