Visibilidade e responsabilidade

Muito se fala sobre quanto a internet permite ao profissional expor seu trabalho e atrair olhares que podem ser muito favoráveis, principalmente em tempos difíceis como os atuais. Para que sejam realmente favoráveis, é preciso que esses olhares aprovem o que veem. Em outras palavras, o profissional que se mostra deve se mostrar em seu melhor ângulo.

Mas, como tudo na vida, essa possibilidade de tornar-se mais visível e usar a rede como vitrine não vem só com benefícios, porque quem olha pode ver o que não aprova e, nesse caso, a exposição deixa de ser favorável.

Muito bem, e cadê a novidade?

Bom, a novidade é que o assunto aqui é outro: como retribuir um pouco das vantagens decorrentes dessa visibilidade?

Existem vários caminhos. Um deles é o do trabalho voluntário. Dedicar algumas horas semanais a organizações como Tradutores Sem Fronteiras, por exemplo, é uma forma de devolver ao mundo um pouco do que ele nos dá por meio da tradução. Existem outras opções para quem se interessa pelo trabalho voluntário. Não vou fazer uma relação de entidades, mas em uma pesquisa rápida no motor de busca mais usado encontrei quatro organizações de tradutores sem fins lucrativos, todas com a mesma proposta: empoderar comunidades na guerra contra a pobreza no mundo todo. A maioria dos materiais de treinamento é escrita em inglês, e permitir o acesso de populações carentes do mundo inteiro a essas informações é colaborar na criação de uma ferramenta poderosa contra a miséria e a desigualdade.

Além disso, o tradutor visível pode colaborar também para melhorar o próprio mercado. E aí alguns vão perguntar: “O quê? Aprimorar a concorrência?” Bom, concorrência só assusta quem não se garante. Além do mais, melhorar a concorrência significa elevar o nível do serviço que é entregue ao cliente e, consequentemente, construir argumentos para melhorar as nossas condições de trabalho. É muito difícil lutar pela melhoria e manutenção de tarifas mínimas para um mercado despreparado, descuidado e desinteressado.

Como, então, contribuir para a elevação do padrão de qualidade do mercado? Imagino que haja muitos caminhos, como com a tradução voluntária, mas vejo uma via aberta e muito promissora no estreitamento das relações entre o profissional experiente e os que estão começando ou tentando começar. Com esse objetivo (entre outros), a ABRATES criou um programa de mentoria (http://abrates.com.br/mentoria/PerguntasFrequentesMentor.pdf) voltado para profissionais com até dois anos de experiência ou estudantes do último ano dos cursos de Tradução, Interpretação ou Letras, no qual são abordados aspectos práticos do mercado. Tem também o pessoal do Café com Tradução (http://cafecomtraducao.com.br), um grupo voluntário que se organizou para oferecer cursos a preços acessíveis a tradutores, estudantes de tradução, iniciantes e profissionais já experientes. Neste ano, o grupo ficou responsável pelos cursos pré-congresso que aconteceram no VII Congresso Internacional da ABRATES. Seguindo por esse caminho, nós aqui do Ponte de Letras recebemos mensagens quase que diariamente de tradutores em início de carreira, ou estudantes que pretendem ser tradutores, com perguntas sobre a profissão, e esse é um dos nossos objetivos desde o início: falar sobre o dia a dia do nosso mercado, o editorial, e trabalhar para sua melhoria usando todas as ferramentas ao nosso alcance.

Além disso, o tradutor que se dispõe a participar de congressos, cursos e palestras falando sobre sua área de conhecimento e especialização também fornece aos que estão começando dicas muito valiosas, embora não seja a intenção desses eventos vender um corpo de conhecimento complexo e denso. Afinal, a teoria com toda sua complexidade pode ser encontrada em material didático e/ou cursos específicos de níveis superior ou técnico. A intenção dos tradutores que se propõem a dividir sua experiência profissional com quem vai começar ou está começando na carreira é devolver ao círculo um pouco do que retira dele e, assim, contribuir para melhorar o mercado e, consequentemente, suas condições de trabalho.

Usar a vitrine que nos torna visíveis somente para encontrar novos projetos e extrair benefícios e vantagens é matar a galinha dos ovos de ouro. A visibilidade e os canais de comunicação estão disponíveis para todos nós, e quem souber usá-los como via de mão dupla estará um passo à frente de quem quiser apenas se beneficiar e receber.

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3 comentários sobre “Visibilidade e responsabilidade

  1. Débora, adorei a postagem! Acho a dica de fazer traduções voluntárias muito boa. Antes de pensar em começa a carreira de tradutora fiz algumas coisas nesse sentido e me ajudou bastante, além de contribuir para outras causas, o que é muito gratificante. Quanto aos eventos, posso falar como iniciante que são muto proveitosos mesmo! Essa troca de experiências, ouvir tradutores e intérpretes atuantes no mercado e conhecer as diversas possibilidades que nossa área oferece é algo que expande nossos horizontes e contribui demais com nossa formação. Por fim, o Programa de Mentoria da ABRATES foi mesmo uma ideia extraordinária e é ótimo ver que profissionais experientes estão dispostos a auxiliar os iniciantes com tanta boa vontade. Como você mesma disse e também ouvi no Congresso, não se trata de preparar a concorrência, mas sim de aumentar a qualidade do corpo profissional. Obrigada pelo texto. Muito bom! 🙂

    • Muito obrigada, Juliana! Sem o interesse do outro lado, não conseguimos fazer muita coisa. Vamos juntos!

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