A busca pela palavra perfeita

Já ouvi várias vezes, principalmente dos meus amigos mais próximos, que sou chata (reclamona, cismada, teimosa, caroço, cabeçuda – pode escolher). Admito que não posso negar nada disso (hehe), mas, se alguém me perguntasse, eu me definiria como uma pessoa um tanto quanto obstinada. E isso pode ser, ao mesmo tempo, muito bom e muito ruim.

No âmbito do meu trabalho, a tradução, essa obstinação por vezes me faz me descabelar com prazos, perder horas e horas pesquisando um único termo, deixar metade do texto marcado como “não definitivo” e sempre ter a sensação de que o livro está “empacado”, de que nunca estou em dia com meu cronograma. Isso é ruim, causa ansiedade, é muito pouco produtivo, cansa.

É quando vejo que a tradução pode ser um trabalho exaustivo e até meio enlouquecedor.

Mas, ao mesmo tempo, toda essa busca pela palavra perfeita, pela construção exata, é, para mim, uma das coisas mais fascinantes que existe no mundo. Fico muito irritada quando alguém, ao me ver trabalhar vários fins de semana seguidos, diz que meu trabalho é “ingrato”.  Não é!

Além do conhecimento das línguas de origem e chegada, de um bom repertório de leitura e (por que não?) da prática, acredito que a tradução literária requer um tipo muito específico de sensibilidade. É quase como montar um quebra-cabeça, onde cada peça tem o seu devido lugar. Onde o encaixe tem que ser perfeito, senão a imagem fica incompleta, ou meio capenga.

Então, mesmo demorando e me desgastando mais, exigindo muito de mim mesma, fico muito feliz, e até meio besta, quando consigo encontrar o tom certo, os termos certos para cada texto.

Não estou, nem de longe, dizendo que minhas traduções são ótimas ou perfeitas (mesmo porque perfeição não existe e eu ainda precisaria comer muuuuuuito feijão com arroz para ser considerada uma tradutora sequer relevante na área), mas afirmando que eu não desisto de garimpar até ficar satisfeita. Estou sempre equipada com o desconfiômetro, a pulga de estimação atrás da orelha e, sim, a chatice e a teimosia de que tanto falam. Resumindo, gosto de procurar pelo em ovo.

Muitas vezes as coisas fluem mais naturalmente, mas às vezes é preciso deixar aquele “espaço vazio”, pois as melhores respostas vêm em momentos inesperados, como antes de dormir ou durante o banho. Aquele trocadilho infernal sempre fica ali “pendente”, porque eu sei que se colocar uma tradução provisória, só “para constar” até pensar em algo melhor, não vou ter o incômodo daquela ausência, e é ele que me faz ir atrás de um resultado melhor.

Cada um tem seu processo, e certamente o meu é meio sofrido (talvez mais do que o necessário), mas, se não for assim, sinto que não fiz meu trabalho direito.  E isso, para um chato, é inadmissível.

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9 comentários sobre “A busca pela palavra perfeita

  1. Minhas sensações durante a tradução são bem parecidas com as suas Flávia – o encaixe perfeito da palavra no contexto (pelo menos pra gente, naquele momento rsrs). E essa “pulga atrás da orelha” – na última vez em que ela me incomodou, foi há pouco, com um “flapjack” que eu fui logo colocando panqueca. Mas… quem come panqueca, andando por um estacionamento, levando também um sanduíche? Como sempre, dei ouvidos a tal “pulga”, pesquisei e descobri logo que a “panqueca”, na verdade era uma barra de cereais – o livro era em inglês britânico, e essa é uma das tantas sutilezas da língua, né? Parabéns pelo texto! Bjs, Ana

    • Fico feliz que tenha gostado do texto, Ana.
      Ser muito confiante, na nossa profissão, acaba nos deixando um pouco relaxados demais, e é aí que mora o perigo. Acho que todo tradutor tem (ou pelo menos deveria ter) uma pulguinha adestrada para dar aquele “toque” nas horas certas.

      Obrigada pela visita ao Ponte de Letras. Volte sempre.
      Um beijo.

  2. Situação: Cliente mandou 3000 palavras, artigo da Forbes, às 14h00, prazo final de entrega 16h30. Apareceu um termo terrível de traduzir. Você pára nesse termo tentando achar a tradução perfeita, pede mais prazo e o cliente nega. O que faz?

    • Andy, a situação exposta por você não se aplica ao que estou tratando no texto. Ficou bem claro que estou me referindo exclusivamente à tradução literária. O cliente (no caso, a editora), ao contrário do que pensa quem não tem conhecimento dessa área, coloca outras habilidades do tradutor muito acima da rapidez e de uma tradução apenas “correta”.

      Eu trabalhei algum tempo traduzindo matérias jornalísticas para jornais impressos e sites. A dinâmica é totalmente diferente. Naquele contexto, o que mais importava era mesmo a precisão e a rapidez. O texto é mais seco e sem muitas “entrelinhas”. Embora haja, com frequência, jogos de palavras e algumas ótimas sacadas, não há muito o que elucubrar. Basta traduzir. Continua existindo, sim, a questão da palavra exata, mas o texto não chega nem perto de ter a miríade de possíveis significados de um texto literário.

      E, por fim, um bom tradutor sabe se adaptar às tarefas que encontra pela frente. Se, em um determinado caso, o tempo for um fator essencial, cabe a nós considerá-lo acima de outros fatores. Mas, aí é que está a pegadinha, um BOM tradutor sabe avaliar o que é mais importante em cada caso. Simples assim.

  3. Oi, Flávia. Ótimo artigo. Quando traduzo, não faço só uma releitura do texto, faço várias. E o mais interessante é que sempre encontro alguma palavra que poderia ter sido melhor colocada, a tal da palavra perfeita. É claro que, conforme Andy mencionou, dependendo do prazo não é possível fazer paradas constantes à procura de um termo perfeito. Mas, depois isso fica me incomodando.

    • Olá, Ligia. Obrigada pelo comentário.
      Concordo com você. Mesmo com todo o esforço que fazemos, sempre é possível ir além. Quando pego uma tradução depois de publicada, muitas vezes tenho vontade de mudar várias coisas – hehe. Se não fosse o prazo, acho que ficaria revisando o texto para sempre. Por sorte, os prazos para tradução literária são razoáveis e dá tempo de fazer essa parada para refletir um pouco mais, não é?

      Volte sempre. Um abraço. 🙂

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