Português iluminado

Qual é a impressão que você tem quando vai a um dentista de dentes malcuidados, a um nutricionista que só come besteiras, a um advogado que não consegue orientá-lo por falta de conhecimento, ou a um personal trainer sem o menor condicionamento físico?

Talvez você seja o tipo de pessoa que dá o benefício da dúvida a quem não inspira confiança logo de cara. Talvez você já tenha se surpreendido positivamente. Tudo é possível, claro. Mas provavelmente, se você precisa de bons resultados, não vai entregar uma “missão” a alguém que parece não saber muito bem o que está fazendo.

Assim acontece também no mundo de quem produz textos, sejam eles traduções ou originais. Nesses 12 anos de carreira (completados este mês \o/), já vi muitos erros de quem deveria errar menos por estar mais em contato com a língua portuguesa, por ter dicionários mil como ferramentas de trabalho, por ter frequentado boas universidades, por ler material de boa qualidade e por conversar com pessoas que têm um vocabulário mais amplo e rico.

São muitos exemplos, mas vamos a três que sempre chamam mais atenção:

  1. O tradutor entendeu o sentido do texto original perfeitamente, mas escreve uma tradução toda dura, com construções não usadas em português. Passa o sentido, mas fica lá, acenando para o leitor em cada página. É bom lembrar que o tradutor mais querido é o tradutor mais “escondido”, aquele que não se deixa perceber no texto, que não deixa o leitor notar que aquela obra não foi escrita originalmente em português.
  1. O copidesque/revisor começa a corrigir a tradução. Muitas vezes, deixa o que poderia ser melhorado passar e se apega ao que estava certinho, mas que ele considerou “ruim”. Aí, na hora da alteração, esquece de acertar a concordância, erra na digitação, e onde antes não existia erro nenhum, agora existe, agora está errado.
  1. O editor resolve divulgar um livro novo da casa editorial na qual trabalha nas redes sociais, mas não acentua as palavras, escreve como fala, deixa as preposições, tão lindas e necessárias, de fora.

Acho que vale a pena refletirmos um pouco sobre a qualidade do nosso português, sobre o que nós, profissionais do texto, temos mostrado por aí. Ler textos bons, ouvir o que as pessoas dizem e estudar a língua portuguesa são requisitos básicos para quem escreve.

O personagem falou, sim, que “quando chove, é tempestade” para se referir a coisas ruins que acontecem. O leitor vai entender? Provavelmente sim, mas se você disser que “desgraça pouca é bobagem”, seu texto vai ganhar muito, vai ficar natural e vai fazer seu leitor se esquecer de que está lendo uma tradução.

O tradutor poderia até ter usado “infausto”, baita palavra bonita que você usaria se tivesse traduzido o texto! Mas ele usou “infeliz”, mesmo, porque cabia no texto e satisfazia. Precisa mesmo correr o risco de tirar o que está certo? E se ficar um erro no lugar e ninguém notar antes da impressão?

“O cara que ela traiu o marido” não faz sentido! Por que não dar mais atenção à preposição na hora de escrever um texto que leva seu nome?

A verdade é que, para quem vive das letras, o domínio sobre elas é o cartão de visita.

Errar é muito comum. Muitas vezes, releio meus textos e encontro derrapadas! Dá vergonha, mas tudo bem, a gente corrige. No entanto, justificar os erros com “escrevi na pressa” ou “o importante é ser compreendido” não passa uma impressão muito legal, parece descaso. Não adianta a ideia ser linda se na hora do “vamos ver” ela não for transmitida com a qualidade que seu interlocutor merece.

Voltando para o mundo editorial, o processo de construção de um livro tem várias etapas. O “chefe” de cada fase precisa estar ciente do seu papel e, acima de tudo, comprometido a fazer o melhor com o português ali utilizado. Esse processo começa no autor ou tradutor e termina em quem vai divulgar o livro. Os envolvidos dependem do bom uso do português, e o português depende de todos esses envolvidos para chegar redondo ao leitor, para chegar correto, já que, muitas vezes, aquele vai ser o único livro lido por aquele leitor no ano. Leitor assíduo ou esporádico, livro cabeça ou não, é nosso dever cuidar da linguagem envolvida no texto apresentado da melhor maneira. E para isso, precisamos ser leitores também, acima de tudo. E ouvintes atentos. E estudiosos.

Num país que dá tão pouca atenção ao estudo e à compreensão de texto, que não incentiva seu povo a ter poder através do conhecimento, nós, que fomos além e conseguimos um pouco desse poder, temos a obrigação de iluminar o caminho de quem ainda está no escuro. Ou de sermos espelho pra quem está descobrindo essa força. Pensem nisso.

🙂

 

 

 

 

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