Sobre onças e sukiyaki

Estive pensando… Já escrevi várias vezes que o bom tradutor é aquele capaz de reproduzir, no leitor da tradução, a mesma experiência de leitura que teria o leitor do original. Mas nunca deixei claro que me referia aos aspectos linguísticos do texto, e não aos culturais.

É claro que a estratégia de tradução varia de caso a caso. Em um livro infantil, por exemplo, costuma ser necessário adaptar muito mais elementos do que em um livro para adultos. Mas, normalmente, eu prefiro deixar um certo “gostinho do estrangeiro” nas minhas traduções.

Veja bem, não estou me referindo ao texto. Quando, no texto de uma tradução, o leitor é capaz de enxergar o reflexo do idioma original, algo deu muito errado. Estou me referindo aos elementos culturais mesmo, características importantes para a narrativa de cada autor. Eu acho que, se o livro se passa no Japão, por exemplo, o leitor tem que se sentir no Japão, e não em uma versão mista de Japão e Brasil. Nem tampouco em um ambiente neutro.

Quando lemos uma tradução, somos obrigados a dar um salto de fé e acreditar que, mesmo naquele outro ambiente, todas as pessoas se comunicam em português. Mas, ao meu ver, o salto acaba aí. Todos falam português, mas continuam sendo americanos, ingleses, espanhóis, japoneses… Não dá para pasteurizar tudo. Se aparece um prato típico, eu não posso simplesmente substituí-lo por uma feijoada só porque a média dos leitores pode não reconhecer tal iguaria. Aprender coisas novas faz parte da leitura. Pesquisar elementos fora do livro, também. (Por isso não sou muito fã das Notas do Tradutor para explicar elementos não idiomáticos, mas isso já foi assunto de outro texto).

Mesmo no âmbito do texto em si, alguns cuidados precisam ser tomados. Expressões idiomáticas, por exemplo, costumam ter equivalentes (perfeitos ou não) no idioma de chegada, mas cabe ao tradutor observar se não está usando nada muito local, nada muito “marcado”. Não fica estranho, em uma história que se passa, sei lá, na Rússia, o personagem dizer de repente que “chegou a hora de a onça beber água”? Eu acho que fica. A onça, aí, está totalmente fora de contexto, é um elemento muito local, por mais que o significado da expressão não tenha nada a ver com felino nenhum. Não seria melhor procurar alguma outra expressão equivalente em português? Mas muita gente não toma esse cuidado na hora de traduzir.

Aliás, muita gente até prefere aproximar todos os elementos da cultura do idioma de chegada. Isso se chama domesticação, e é uma das muitas estratégias que podem ser adotadas em um projeto de tradução. Só não é, como vocês puderam perceber, minha preferida. 😀

E quanto a vocês? Qual abordagem preferem?

Anúncios

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s