Ninguém liga!

Diálogos não mais tão insólitos:

– Fulano está de mudança.

– Que Fulano?

– Fulano de Tal.

– Ah, sim, está se mudando para o Facebook, né? Não sai mais de lá, passa o dia reclamando e postando lição de moral.

Relutei em escrever este texto. Não queria falar sobre uma coisa que quero evitar comentar, mas vou falar. Paradoxo do bão para marcar minha última participação no blog do Ponte este ano. Pois é, o ano já está quase no fim. E o que você fez?

Eu fiz muita coisa que precisava fazer, menos coisas que gostaria de fazer. Investi muita energia em coisas necessárias e gastei bastante energia com coisas desnecessárias. Menos do que antes, acho, mas ainda assim, bastante. Eu reclamei. Reclamei de mim, reclamei dos outros, reclamei dos reclamantes. Ouvi reclamações, reclamei por ter que ouvir reclamações.

Parei quando fui reclamar com o Petê e ele me mostrou um caminho livre de reclamações. Disse que se envolver em reclamações ou dar importância a elas é atraso de vida, que dá para aproveitar o tempo do estresse causado pelo negativismo das reclamações com a vida, com aquele curso que sempre adiamos, com um café com os amigos, com horas de sono. Só disse verdades que eu já conhecia, mas que estavam escondidas embaixo das reclamações.

Mas voltando à conversa que abriu este texto, fiquei pensando no fenômeno que as redes sociais criaram: os reclamões de plantão. Ficou fácil postar uma insatisfação. E quantas são, não é? Choveu, fez calor, o sol está quente e a chuva está molhada são alguns exemplos exagerados (pero no mucho) de papos que saturam as redes sociais.

Não estou falando de reclamações dignas, como assuntos importantes que precisam ser discutidos para o bem da sociedade, de modo geral (a luta contra o racismo, contra o preconceito, contra o assédio sexual etc.), claro que não. Estou falando de quem usa as redes sociais, ou a internet de modo geral, para despejar reclamações sem critério e sem limite e se torna o chato, o tipo de pessoa que não ajuda, só reclama. E reclama.

Nas poucas horas em que tentei desistir deste assunto, vários sinais me levaram de volta a ele.

– Uma amiga virou para mim, do nada, e disse que reclamar empata a vida.

– Um post motivacional me avisou que quem tem uma meta não tem tempo de ficar reclamando. Está ocupado correndo atrás do que quer.

– Alguém perguntou no Facebook para onde iam todas as reclamações na era pré-redes sociais.

E o que definiu o tema deste post:

– Vi um colega comentar que podia indicar um outro colega para um trabalho, mas que o sujeito reclamava tanto de tudo e postava tanta lição de moral que ele ficou com receio. Achou melhor não.

Pois é. Muito se fala sobre a imagem que queremos passar ao cliente, mas nos esquecemos de que o cliente, muitas vezes, vem por meio de uma indicação de um colega. E se esse colega não tem a chance de nos conhecer pessoalmente para desfazer a impressão ruim que passamos on-line, vamos para o fim da fila das indicações. Acha isso bobagem? Será que é, mesmo? Nesse mundo-ervilha da tradução, por exemplo, sua fama de Reclaminha da Estrela vai se espalhar como fogo no palheiro. Já pensou?

Eu já reclamei e sofri tentando entender os reclamantes. Estou parando. Depois deste post-reclamação, inclusive, começo meu detox de reclamação. Vou parar de dar atenção a quem reclama. Vou parar de reclamar. Talvez seja impossível parar, mas dá para diminuir. Ah, dá!

O que eu ganho sem reclamar e sem me envolver nas reclamações alheias?

– Tempo para resolver as obrigações e para pensar nas coisas legais da minha vida.

– Cabeça mais tranquila para fazer planos que envolvam as coisas legais da minha vida.

– Mais tempo off-line (uau!).

Vejo gente reclamando que as redes sociais andam muito pesadas, baixo astral imperando, e só consigo pensar que é culpa de tanta reclamação desenfreada. Além disso, sobre a sua reclamação em si, vou te contar uma realidade dura e triste: ninguém liga. Você pode reclamar, mas é verdade. Por mais certo que você pense estar quando reclama ou quando mostra ao mundo, insistentemente, como as pessoas devem agir, seguindo seu exemplo de suposta conduta ilibada, ninguém liga. Só ligam para a imagem negativa que você passa, só se ligam que é bem chato aguentar sua chatice e se afastam de você.

Se algum revisor estiver lendo este texto, já deve estar reclamando do excesso de reclamação, mas foi proposital, para mostrar como a reclamação puxa reclamação e como enche a paciência tanto reclamar. 🙂

Dizem que um dia sem reclamar já faz uma diferença enorme no seu comportamento. Eu atesto que é verdade, sim. Mas um dia é pouco pra mudar um hábito. Procure uma maneira, invente uma técnica, mas para seu próprio bem, pare de reclamar. Pare de se envolver em quiproquó na internet. Sem reclamar.

Começando meu detox em 3, 2, 1.

Com o tempo que vou ganhar longe das reclamações, vou terminar mais um trabalho para poder ir ao III Café com Tradução no Rio, no dia 21/11. Quem vem?

 

 

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10 comentários sobre “Ninguém liga!

  1. Adorei, Carol! Ótimo texto. E adorei a repetição… Quase comecei a reclamar de tanto ver “reclamação”. Rs. Já tentei parar também… Mas sempre me esqueço e acabo reclamando. Porém, depois desse post, tentarei mais assiduamente. 😀
    Foi muito legal! Beijos.

    • Obrigada, Alline! Todo mundo tem épocas em que fica mais reclamão, mas acho que a gente precisa evitar ser contagiado pela reclamação alheia! 😀
      Que bom que gostou! Um beijão!

  2. Adorei seu post! Sempre fui reclamão e defendo o direito de todo o mundo reclamar, mas também sei que isso não leva a nada. Se você não fizer nada, nada vai mudar. Há algum tempo, li num desses grupos de tradutores no facebook pela milionésima vez alguém “desabafar” (já explico as aspas) que um cliente tinha reclamado do preço. Não sei por que cargas d´água, resolvi comentar que, assim como essa pessoa estava reclamando do cliente, o cliente teria direito de reclamar do preço, mas teria que pagar. Pronto, fui contra-argumentado de milhões de maneiras, inclusive com a afirmação de que era um desabafo, não uma reclamação (até hoje estou tentando entender de que forma os dois termos se distanciam semanticamente… para mim, estão muito próximos). Enfim, não me importo com contra-argumentos, gosto de um bom debate e gosto mais ainda quando alguém consegue me fazer mudar de opinião, tendo me apresentado um novo ângulo sobre algo. O problema é que fui xingado e me senti aviltado. E, at the end of the day, tudo aquilo não passou de perda de tempo; a não ser, talvez, por ter me mostrado que não adianta nada entrar nesses debates sem sentido.

    • Oi, Diogo, obrigada pelo comentário. Você disse tudo: não adianta nada! É só mais estresse que vamos acumulando, na minha opinião. Aprende quem está aberto a um debate decente, mas quando o objetivo da pessoa é só reclamar ou se “mostrar”, não adianta tentarmos conversar.
      Volte sempre!
      Um abraço!

  3. Gostei muito do seu post. Já fiz parte do grupo dos reclamões e hoje morro de vergonha daquele tempo de chatice. Motivos para reclamar sempre teremos, mas parece que a pessoa que tem este “vício” fica estagnada, paralisada, não faz outra coisa senão reclamar. Terapia e yoga nelas. Tem um problema? Tente resolvê-lo. Reclamar não é a solução. Há que se prestar atenção nas coisas bonitas e boas que estão ao nosso redor. Eu não tenho do que reclamar este ano: tive publicados os 3 livros que traduzi do Patrick Modiano (prêmio Nobel de Literatura de 2014) , traduzi os dois livros do filme “O Pequeno Príncipe”, os primeiros livros a serem publicados no Brasil pela HarperCollins, estou traduzindo uma saga muito interessante sobre o século das grandes aventuras (XX) e finalmente me matriculei no curso de fotografia que namorava fazia um tempão.

    • Oi, Fátima! Você tocou num ponto importante: vira vício, sim, a pessoa para de prestar atenção às coisas e se esquece de que existem outras pessoas e outros problemas ao redor.
      E que ano maravilhoso!! Parabéns pelas conquistas, que elas continuem frequentes em 2016. 🙂
      Obrigada pelo comentário e volte sempre!
      Um abraço.

  4. Uau Carolina!! Muitíssimo obrigada por esse excelente texto, estava precisando muito dele. Muitas vezes nos envolvemos nessa “rede de reclamações e negativismo” que nem percebemos. Começando um detox de reclamações urgente. Valeu pelo “puxão de orelha”…rsrsrsrs

    • Oi, Nizia!
      Que bom que gostou e que o post foi útil. 🙂
      Sei bem como é, também levei um “puxão de orelha” recentemente e achei ótimo porque saí dessa rede.
      Obrigada pelo comentário e volte sempre!
      Abraço!

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