Tradutor em tempos de crise

Passei a semana toda pensando em escrever sobre Frankfurt e os resultados da feira. Pesquisei, reuni informações, colhi dados, números, analisei, tabulei, refleti… e desisti. De que adianta relacionar números? Já não temos na prática diária do ofício o termômetro da crise no nosso mercado?

A verdade é que o mercado editorial, como todos, tem que lidar com as dificuldades da economia nacional (e mundial). Não somos os únicos. O que realmente me interessa é falar sobre como cada um está lidando com essas dificuldades.

Há algumas semanas, li em uma rede social (não me perguntem, são muitas!) uma frase que me fez parar para pensar: “Em tempos de crise, ou você chora ou vende lenços”.

Já ficou para trás o tempo em que o tradutor era um profissional isolado que mergulhava nos detalhes e nas complexidades de um texto sem deixar nenhum rabicho de foco do lado de fora desse poço, na realidade da vida prática. O mundo de hoje cobra participação e dinamismo, e a interação virtual não deixa margem para o velho estilo “avestruz”. Não dá mais para enfiar a cabeça na areia, porque a areia é revolvida o tempo todo.

Nunca fui muito chorona. Não, mentira. Sou chorona, mas só choro por coisas que não posso resolver. Fome no mundo, a tragédia dos refugiados, dificuldades dos Médicos Sem Fronteiras… Mas a minha crise diária eu administro. Portanto, decidi vender lenços.

Nós, do PdL, já fomos chamados de empreendedores. Não sei se somos. Mas somos inquietos, curiosos, insistentes, os “chatinhos do rolê”. Damos a cara a tapa, botamos a cara no sol, falamos de vários assuntos, sugerimos, ouvimos muito “não”, mas também ouvimos “sim” em quantidade suficiente para vivermos de tradução.

A verdade é que existem por aí livros que têm que ser traduzidos. E as editoras precisam de tradutores para isso. A crise é real, é séria, e diminuiu o ritmo de produção em praticamente todos os setores. Mas a vida tem que seguir em frente (como sempre), e alguém tem que continuar produzindo para manter o bonde andando.

Quem são os profissionais que permanecem na ativa nesses momentos? O que os diferencia dos outros? Não pode ser só talento ou competência, ou não veríamos tanta gente boa se queixando de falta de trabalho. Não pode ser só o famigerado QI, porque a dança das cadeiras é incessante nesses períodos, não há muito como contar como “aquele contato naquele lugar”, porque o contato também pode rodar. Sorte? Duvido.

Se vocês prenderam a respiração esperando pela resposta, sinto muito. Não sei responder. É evidente que existe nesses profissionais um diferencial, um elemento X que os destaca quando o mercado precisa reduzir números e valores. Mas que característica é essa? Não sei, mas acredito que todo profissional é capaz de identificar os próprios pontos fortes.

Se o resultado da Feira de Frankfurt foi bom, se foi além ou aquém do esperado, se teremos muitos títulos novos ou se serão poucos os direitos comprados, se vamos acelerar, desacelerar ou enfrentar momentos de estagnação, a verdade é que a vida não pode parar. E nós também não. É hora da reinvenção, de lançar mão daquele recurso único.

Responda com sinceridade: como você tem garantido sua participação nesse grupo produtivo?

Ou, para ser mais clara: você tem chorado ou vendido lenços?

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Um comentário sobre “Tradutor em tempos de crise

  1. Com certeza estou vendendo lenços. Eu larguei um emprego que eu não gostava, em outra área, mas que pagava muito bem, para ficar apenas traduzindo em tempo integral. Não me arrependo.
    Fiz minha reserva para sobreviver nos primeiros meses, mas nos últimos tempos não estou com problemas para me sustentar só com tradução não.
    O problema maior é que as pessoas que choram em tempos de crise ficam só pensando que vão ter que abrir mão de um conforto de não precisar suar tanto pelo próprio dinheiro.
    Eu não tenho medo de trabalhar duro não. Se é durante uma crise e quiserem pagar 10% menos que o habitual, eu aceito trabalhar 10% mais no mês para ficar com as contas equilibradas. Acho que o pessoal que chora não aceita isso.
    Então eu vendo lenços. 10% a mais de lenços.
    E sigo sendo feliz com minha escolha. 🙂

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