Quem será o primeiro?

Um cartaz exposto pela organização da Frankfurter Buchmesse de 2014 questionava: “Who will be first?”. Eu acho que esse questionamento realmente resume o espírito da maior feira mundial de livros que começa no próximo dia 14 de outubro, em Frankfurt, Alemanha. Todo mundo que realmente importa no mercado editorial enquanto negócio está lá: editores, agentes literários, scouts, pareceristas, tradutores, revisores, designers, ilustradores, livreiros, além de profissionais ligados a gráficas, distribuidoras e ao setor de tecnologia (Google, Samsung e Amazon aparecem todo ano com stands cada vez maiores e mais impactantes). O que os milhares de profissionais buscam nesse verdadeiro balcão de negócios? Encontrar uma boa ideia, e encontrá-la antes dos outros.

Quando fui convidada a participar pela primeira vez da feira de Frankfurt, em 2013, ano em que o Brasil foi o país homenageado, meu chefe perguntou se eu teria fôlego para encarar a maratona de 3 dias de evento. Na hora, achei graça, porque pratico exercícios físicos desde que me conheço por gente, logo isso não seria problema. Mas foi: para visitar todos os oito pavilhões da feira, devo ter caminhado muitos quilômetros todos os dias, tanto que comecei a trilhar os corredores da Buchmesse numa elegante bota para depois me entregar no terceiro dia a um par de tênis de corrida (sim, a elegância se foi em nome da eficiência, afinal, faltavam muitos expositores para visitar). Quando chegou o sábado, dia em que finalmente os portões se abrem para os leitores – com direito a centenas de adolescentes fazendo cosplay do universo de Harry Potter –, as negociações foram encerradas. Hora de ler e reler as sinopses de livros que só serão lançados daqui a dois anos, hora de organizar as centenas de cartões de visita e folhetos recebidos e tentar assimilar a quantidade absurda de informação acumulada em apenas três dias.

Este ano, ao que parece, a feira deu uma encolhida: de acordo com o mapa divulgado no site oficial, a Frankfurter Buchmesse terá “apenas” seis pavilhões, em vez dos usuais oito, provavelmente resultado de dois fatos. O primeiro tem a ver com o crescimento de outras feiras que acontecem ao longo do ano: a Feira Internacional do Livro de Guadalajara (a próxima acontece em novembro de 2015), a Feira do Livro Infantil de Bolonha (a próxima é em abril de 2016), a London Book Fair (abril de 2016) e a Book Expo America (maio de 2016). Já o segundo motivo pode estar relacionado ao modo como se faz negócios hoje no mercado editorial: basicamente por meio do contato com agências literárias por e-mail, Skype, WhatsApp. Os lançamentos acontecem a todo momento, e ninguém mais espera um evento anual para tomar decisões sobre o que e quando publicar. E os novos talentos estão surgindo num lugar que não depende absolutamente de evento oficial nenhum: na internet. Um blogueiro despretensioso hoje pode ser o best-seller de amanhã (oi, John Green!), uma escritora de fanfic pode ficar milionária (hello, E.L. James!), o livro recomendado no blog daquela escritora dos vampiros vai se tornar uma série de sucesso (já ouviram falar em Jogos Vorazes?).

É claro que um scout  pode ter um insight sobre a próxima “grande tendência” numa feira ou numa bienal do livro apenas por prestar atenção no que os expositores oferecem. Contudo, talvez a Book Expo America, em Nova York, seja um ambiente bem mais propício para “sentir” a direção do vento no mercado editorial. Em 2014, por exemplo, o tema da BEA era The world in translation, indicando que os Estados Unidos – e o mercado editorial em língua inglesa como um todo – começava a se abrir mais para a literatura produzida em outros países (e o Brasil talvez deva aproveitar melhor tal abertura, mas isso é assunto para outro artigo). Contudo, fora dos holofotes, percebia-se nos corredores um destaque maior para livros que chamavam, na época, de “Arts & Crafts”, obras que ensinavam a tricotar e fazer bonecos de feltro, e também livros de… colorir. Um ano depois, qual foi o maior fenômeno de vendas nas livrarias de 2015?

Outra vantagem da feira de Nova York sobre Frankfurt é que há um contato maior com a razão de ser do negócio todo: os leitores. Conversar com o pessoal na fila de autógrafos é como visitar 50 perfis do Goodreads de uma vez só e descobrir, com sorte, quem vai ser o próximo John Green. Basta chegar primeiro.


 

Candice Soldatelli está na área editorial há 10 anos. Desde 2010, também atua como Tradutora Pública e Intérprete Comercial no Rio Grande do Sul. Contudo, o amor pelos livros a levou a trabalhar também como scout e parecerista para a Editora Belas Letras. Formada em Letras e Jornalismo, considera sua grande escola de tradução a troca de experiências com colegas em congressos e as oficinas. Seu lema realmente é “aprender sempre, o caminho é longo, mas é muito divertido”. E-mail para contato: csoldatelli@gmail.com

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