Os ovos e os cestos

Nos últimos meses, com o balanço feito pelas editoras, muitas notícias estão sendo divulgadas sobre a queda na venda de livros. Como é normal que aconteça, uma certa insegurança surgiu em quem depende dos livros para viver. Viver de livros poderia ser muito poético se este post não estivesse falando de épocas difíceis na economia. Em todos os cantos, ouvimos muito sobre a questão da crise e de como todos os setores estão sendo afetados, então vamos ver o que tiramos disso.

Muitas pessoas têm nos procurado para comentar sobre a falta de trabalho, de um sumiço das ofertas, de poucas oportunidades. O assunto tem surgido em grupos de tradução, então acho que merece um pouco de atenção.

Não quero falar exatamente de crise nem de números, as notícias estão por aí e já ouvimos e lemos o suficiente. Vamos falar do que é importante para nós em qualquer época: os clientes. E também sobre o que é importante em épocas de recessão econômica: ter clientes que continuam a oferecer trabalho.

Conversando sobre a situação do mercado, dia desses, ouvi meus colegas falando sobre “os cestos e os ovos”. Diziam que tudo depende de “como a pessoa distribui os ovos” ou se “deixa todos os ovos num mesmo cesto”. Onde essa pessoa deposita suas fichas? Arrisca tudo numa única opção? Distribui as fichas de modo a garantir várias possibilidades?

Quando alguém começa a se aventurar pelo mercado de tradução literária, o ideal é distribuir currículo a várias editoras, não procurar só as maiores, não buscar só livros de um determinado gênero. Se escolher apenas algumas, é possível que acabe desistindo da profissão antes mesmo de começar, porque não abrirá caminhos que, ainda que não sejam os desejados a princípio, podem levar a lugares mais interessantes a longo prazo.

Com o passar do tempo, vamos fazendo novos contatos, e o pior que pode acontecer com isso é, em momentos de maior aquecimento da economia, termos que recusar alguns trabalhos legais que aparecem porque a agenda já está tomada por outros. Mas, por mais chato que isso seja, não é motivo para reclamar, não é? De qualquer forma, novos contatos são novas possibilidades, novas chances e podem até acabar sendo o que nos salva em épocas de escassez.

É claro que você vai acabar dando prioridade a clientes com quem mais goste de trabalhar, isso é normal. Em determinado momento, você começa até a separar tempo na agenda porque a editora já avisou que vai mandar a continuação de uma série, e coisas assim. É possível se “especializar” num determinado gênero? Sim, claro, mas é algo que acontece com o tempo, e é um caminho que o tradutor escolhe ou não. Paradoxalmente, é preciso conhecer muitos e ter contato com vários clientes para que poucos, bons e constantes, se estabeleçam e se tornem os mais frequentes. E também para que os menos assíduos apareçam vez ou outra, com algum livro bacana que abra a você um novo caminho no mercado de tradução literária ou que seja uma porta para uma nova parceria duradoura.

Dizem que quem tem um, não tem nenhum. No que diz respeito a clientes, com crise ou sem, acho que vale a pena encarar as coisas dessa maneira.

O caminho, a meu ver, é espalhar as sementes por aí. É trabalho de formiga (ou de abelha, se vamos espalhar?), leva tempo, exige dedicação, pesquisa, networking, traz frustração por não ter um retorno imediato em 95% dos casos ou até por não ter retorno nenhum, mas é o jeito mais garantido. É o que pode fazer a diferença em um período de vacas magras, já que você precisa trabalhar e as editoras precisam continuar publicando livros, certo? 🙂

Anúncios

7 comentários sobre “Os ovos e os cestos

  1. Olá!
    Eu acho que nem é questão de crise ou não, é questão de gerenciar bem a nossa empresa de uma pessoa só. O mercado sempre tem flutuações, para cima e para baixo, e quando um cliente está mal, outro cliente está bem, então é isso aí mesmo, trabalho de formiga/abelha, marketing, networking, pesquisa, estudo, etc, e frustração também.
    Eu continuo confiante na minha profissão de tradutor. 🙂

    • Oi, Hilger,

      Perfeito. 🙂 Decidi falar sobre isso porque apesar de não ser uma solução incrível e instantânea, é a solução de sempre, na minha opinião. Como você disse, gerenciar bem nossa empresa de uma pessoa só. Trabalho que precisa ser feito todos os dias e que nos ajuda a sobreviver aos períodos menos favoráveis. Obrigada pelo comentário e volte sempre. Um abraço!

      • Já estou seguindo o blog de vocês há um tempinho, gosto muito das publicações 🙂
        Então volto sempre sim.
        Abraços!
        (Thiago) Hilger – assim você sabe o meu nome direito, que no WordPress tá engolido.

      • hahah Ótimo saber o seu nome e que você já nos acompanha, Thiago! 😀

        Obrigada!

  2. Como sempre, nuito pertinente, Carol! É mesmo muito importante quebrar esse mito de que alguém está 100% seguro se não “faz por onde”. Ou seja, não adianta ter nome se não faz o dever de casa, procura clientes novos e garante um pé de meia! Parabéns!

    • Obrigada pelo comentário, Thiago! Exatamente, o dever de casa precisa estar em dia, né? 🙂 Volte sempre! Um abraço.

  3. Pingback: Você está cuidando de sua saúde financeira? | Ponte de Letras – Ano 2

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s