Tabu: tradução para a segunda língua

 

A regra é clara: tradutor traduz de um idioma estrangeiro para o seu idioma materno. Porém, para toda regra há uma exceção. Eu nasci, cresci e estudei no Brasil durante os primeiros vinte e dois anos da minha vida. Depois me mudei. Já trazia o inglês e o espanhol na bagagem, já atuava como tradutora havia pelo menos cinco anos, mas até então traduzia somente para o português, minha língua pátria.

Com a mudança geográfica, mudou também a demanda. São poucos os estrangeiros que decidem aprender o português, e os que o fazem é por uma necessidade pessoal (geralmente, cônjuge brasileiro) ou profissional (a empresa onde trabalham tem laços comerciais com o Brasil). Mas, dentre esses gatos pingados, a quantidade de falantes do inglês que acaba se enveredando pelos caminhos da tradução é ainda menor. Por isso, infelizmente, há certa escassez de estrangeiros que traduzem do português para o inglês.

Na qualidade de uma brasileira transplantada para a Califórnia, comecei a receber diversos pedidos de tradução de português para inglês. No começo, eram documentos pessoais ou comerciais. Muitos diplomas e históricos escolares de brasileiros que desejavam dar continuidade aos estudos nos Estados Unidos. Muitos acordos, contratos, comunicados e folhetos de empresas brasileiras querendo fazer negócio com os americanos.

Nesses dois casos, a tradução é feita um pouco mais facilmente, ainda mais com a ajuda da internet – quando comecei a traduzir, lá nos idos 1997, o Google ainda não existia e só emplacaria no Brasil na virada do século. Hoje em dia é fácil pesquisar o currículo escolar de diversas universidades para saber mais sobre os cursos oferecidos e, assim, estabelecer uma relação entre as matérias cursadas por um brasileiro e aquilo que foi repassado a um estudante estrangeiro na mesma área. E, quando o assunto é o comuniquês empresarial, muitas traduções do português para o inglês podem ser feitas com os pés nas costas, tamanho o uso de jargões em inglês ou aportuguesados que acabam entrando nesse tipo de redação.

Mas o que acontece com a tradução de livros? Em 2010, comecei a diversificar o meu portfólio, pois o que sempre me atraiu na tradução foi a vertente literária. Dei início então a um projeto dedicado à tradução de contos brasileiros para o inglês. E o prazer foi imenso! Ah, que bela válvula de escape para a criatividade empurrada lá para os recônditos da mente!

Mas e o desafio? O desafio foi maior ainda! O que fazer com a diversidade de vozes, estilos e vocabulários de um país de dimensões continentais como o Brasil? A saída que encontrei foi pesquisar exaustivamente expressões equivalentes, sempre tentando chegar o mais perto possível do que foi dito. Às vezes, o sabor brasileiro se perde, mas a sensação causada no leitor acaba, de uma forma ou de outra, sendo passada para o inglês.

Além dos contos, também traduzi vários livros de escritores brasileiros que desejavam ter suas histórias disponíveis em inglês. Esse trabalho, igualmente prazeroso, é muito mais intenso. Contos ficam prontos em pouco tempo; livros demoram meses até ficarem redondinhos. E, quando a gente traduz para o segundo idioma, por mais fluente que seja na língua estrangeira, sempre aparecem mais dúvidas do que apareceriam no idioma materno, naquele que você tem aquela “sensação” lá no fundo d’alma que diz: “Isto está certo! Mas aquilo não tá legal, não. Isto ficou super natural! Já aquilo tá com cara de tradutês”.

Preposições… Essas são as verdadeiras vilãs quando a gente traduz para o inglês. Palavrinhas tão minúsculas, mas que causam tantas dores de cabeça! In, on, at, out, off, up, away. Coloca a preposição errada e você muda todo o sentido de uma frase. Em vez de put out a chama ardente de uma paixão, você termina por put off um leitor. E quando você não prende a atenção do leitor, faz um desserviço ao escritor que tanto se debateu para escolher as palavras certas depois de meses, anos debruçado sobre o manuscrito de seu livro. Mas isso vale para qualquer idioma, claro.

E quando a pesquisa é inconclusiva, aí é preciso apelar, catar “nativo” por aí para ajudar na causa tradutória. Viro pro marido e pergunto: “Como você diria XYZ em inglês?” Mando um torpedo pra amiga com a frase e um _____ no meio para ela completar com o verbo ou a preposição que usaria se estivesse escrevendo aquilo em inglês, a língua dela. Faço mímica quando recebo os amigos em casa para tirar dúvidas sobre alguma pendência.

A gente tenta, inventa e, assim, aprende algo diferente. E esse aprendizado não é feito sob encomenda, não. Às vezes você está vendo um filme, um seriado, escutando uma música no carro e vem aquele estalo. É um exercício contínuo de capturar um instante naquela língua e preservá-la em sua mente para a eventualidade de precisar dela mais tarde.

A tradução literária é feita de sensações: imaginação, cor, sabor e aroma. Quando você pega uma sensação dessas, assim, no ar, precisa guardá-la no fundo da mente e incorporá-la para um dia, num futuro próximo ou distante, usá-la para que caia como uma luva numa tradução que provoque a mesma sensação na língua que você aprendeu desde que ouviu o primeiro som ao redor. Afinal, para traduzir para um segundo idioma é preciso viver nele com os dois pés fincados no chão, mas o coração na língua pátria, sempre.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira que mora na Califórnia. Autora do livro Tools and Technology in Translation, baseado na aula que ministra como parte do curso de extensão para tradutor e intérprete da Universidade da Califórnia, em San Diego, no qual se formou tradutora de espanhol → inglês. Atua como tradutora desde 1997, certificada pela ATA (American Translator Association) nos pares português → inglês/inglês → português. Em 2011, passou a trabalhar com escritores autopublicados para traduzir os seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo do blog eWordNews, dedicado à tradução editorial e iniciativas de autopublicação, também administra a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena um projeto chamado Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicado a promover a literatura brasileira em todo o mundo.

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13 comentários sobre “Tabu: tradução para a segunda língua

  1. Parabéns pelo texto. São as mesmas questões que enfrentei quando comecei a fazer versões de textos literários para o inglês. Ainda estou engatinhando nessa, e concordo: é um grande desafio. Nossas dúvidas são bem diferentes de quando traduzimos de língua estrangeira para o português. Mas dá para fazer 🙂

  2. Rafa, adorei seu texto, principalmente porque ando me aventurando a traduzir alguns contos para o inglês também. Parece que estou passando pela mesma experiência que você, incluindo as mímicas para o marido e amigos, apenas em tempos diferentes. Obrigada por compartilhar sua trajetória.

  3. Vejo sempre muitas críticas, dizem até que é ingenuidade, que é coisa pra cachorro grande etc. Mas, como dizem alguns, a conta é simples. Quantos americanos (ou de outras nacionalidades) existem que sabem português brasileiro o suficiente para serem tradutores e que queiram sê-lo (pois podem ter outras profissões)? E não é só porque o mercado paga mais. A gente acaba fazendo até como “cortesia” para aquele cliente muito legal que está precisando muito.

    • Exatamente, Maria Carolina! Infelizmente o português não é tão popular quanto outras línguas, pelo menos não a ponto de estrangeiros aprenderem a nossa língua a fundo para poderem se tornar reprodutores de conhecimento sobre nós, lusófonos, em seu próprio idioma.

  4. Li o texto e fui me identificando em cada frase. O que disse sobre falta de tradutores estrangeiros que falem português é certíssimo.Não faz muito tempo, no salão do livro em Paris, a carência de franceses com português “suficiente” para a tradução literária ficou evidente. Também adorei o texto, porque faço exatamente como você para suprir a dificuldade de traduzir para um idioma (francês) que não é minha primeira língua. Mas o que mais me chamou a atenção mesmo foi o título. A palavra tabu é perfeita. Eu ainda acrescentaria um ponto a favor dos tradutores para a segunda língua, principalmente, a literária: poderia um estrangeiro entender perfeitamente o espírito da língua que está traduzindo? Não é apenas uma questão de conhecer bem a língua alvo, mas de conhecer a fonte em todas as suas nuances para encaixar na segunda. Será que nós conseguimos mesmo isso com tanta facilidade com que achamos, ou estamos caprichando no texto em português e talvez “traindo” o texto original, pelo menos, em algum momento?

  5. Oi, Rafa, gostei muito do seu texto também. Confesso que, antes de o ter lido, vendo só a postagem lá no grupo do Facebook, achei que você estava falando de tradução indireta, e, quando o li e percebi que não, me surgiu uma dúvida: quando você diz que a versão é vista como tabu, você está se referindo a aí nos EUA ou a aqui no Brasil (ou aos dois)?
    Obrigado desde já.

    • Oi, Vítor!

      Pensei no que é chamado no Brasil de “versão”, mas num sentido amplo. Ou seja, qualquer tradutor, com qualquer língua materna, traduzindo para a sua segunda (ou terceira, quarta…) língua. Em outras palavras, há muitos que defendem que tradutores só podem traduzir para a sua língua materna, mas como eu disse sempre há exceção para essas regras generalizadas 😉

  6. Oi, Rafa!
    Gostei muito do seu texto! Foi bastante esclarecedor.
    Mesmo morando no Brasil, já pude perceber que realmente são muitos os autores que gostariam de ter seus livros publicados no exterior e acabam procurando tradutores brasileiros para fazer a versão. Eu mesma tenho interesse na atividade. Trabalho na área editorial, traduzindo livros do inglês para o português, há cinco anos, mas gostaria muito de começar a trabalhar no caminho inverso: traduzir do português para o inglês.
    E por isso mesmo surgiu a dúvida. Quando você diz: “para traduzir para um segundo idioma é preciso viver nele com os dois pés fincados no chão, mas o coração na língua pátria, sempre”, o que exatamente você quer dizer com “viver nele com os dois pés fincados no chão”, com relação ao segundo idioma? Você acha que é possível que um tradutor brasileiro faça uma boa tradução literária português-inglês mesmo morando no Brasil ou, melhor dizendo, sem viver na cultura da segunda língua? Que orientações ou dicas você daria para quem, como eu, também gostaria de traduzir obras brasileiras para o inglês?
    Grande abraço!

    • Oi, Giovanna! Obrigada pelo elogio 😉

      O que quis dizer com aquele pensamento em particular é que uma pessoa acaba se tornando o que chamam de “near native” (o falante de uma língua estrangeira que quase consegue se passar por um falante nativo) quando o contato com a língua é de uma imersão tamanha que você acaba incorporando elementos linguísticos, culturais, políticos e sociais como que por osmose.

      Ou seja, aprendemos muito quando buscamos o aprendizado ativo (ir atrás do conhecimento por iniciativa própria), mas acredito que aprendemos ainda mais de modo passivo (quando o conhecimento é incorporado quase que inconscientemente e vem à tona quando mais precisamos dele).

      Para simplificar, é aquela velha história de alguém que se esqueceu do nome de um filme ou onde colocou as chaves do carro e, quando deixa de se esforçar para lembrar, a memória acaba pegando no tranco 😀

      Hoje em dia, confesso que está muito mais fácil aprender um idioma (ou qualquer outra coisa) por causa da internet, então nunca poderia dizer com 100% de certeza que uma pessoa seria incapaz de se tornar “quase nativo” não estando fisicamente imerso na cultura da sua segunda língua. Porém, posso garantir, por experiência própria, que a situação melhora umas 1000 vezes quando o ambiente é exatamente esse.

  7. Pingback: How Book Translations Bring Peers Together - PLD

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