A chuva, o tradutês e o que aprendi com eles

Quando eu olho dentro dos seus olhos

Eu posso ver um amor restringido

E querida, quando eu abraço você,

Você não sabe que eu sinto o mesmo?

Porque nada dura para sempre

E ambos sabemos que os corações podem mudar

E é difícil carregar uma vela

Na fria noite de novembro

November Rain – Guns N’ Roses

November Rain, do Guns N’ Roses, foi a minha primeira tradução amadora. Com um Michaelis Português<>Inglês, aos 12 anos, traduzi a letra da música do LP que minha irmã ganhou. Lembro que passei o dia todo procurando as palavras e tentando dar sentido às frases. Eu nem sonhava com tradução, estava no primeiro semestre de um curso livre de inglês e só queria entender o que estava ouvindo, mesmo.

Claro que as palavras não foram exatamente essas, apesar de me lembrar bem do “restringido”. Achei esquisito, então peguei o Aurélio para checar, mas não pensei que poderia usar uma palavra melhor.

Por que me lembrei disso?

Desde a palestra que nosso grupo do Ponte de Letras preparou para o VI Congresso da Abrates, tenho pensado muito no tradutês, tema que abordamos. O tradutês é a tradução para o português com cara de texto em inglês, ou com cara de nada, já que o sentido de uma expressão pode ter se perdido com uma tradução literal. Neste texto, começo pelo tradutês, mas também me refiro a outros problemas durante a tradução.

Durante uma de nossas discussões para a organização da palestra, chegamos a comentar que um tradutor que lê, traduz muito melhor. Ele tem mais recursos, sabe se virar bem com as palavras, sabe usá-las, sabe escolhê-las, sabe tornar o texto mais gostoso, como o autor pretendeu que fosse no idioma original. Ou não, sabe deixá-lo incômodo como tem que ser, se tiver que ser. Só que leitura é prática, certo? Quanto mais você lê, mais você aprende a ler. Quanto mais aprende a ler, mais capaz se torna de avaliar o que está lendo, mais parâmetros ganha para comparar um texto e outro. Tradução também é prática.

Como uma coisa puxa outra, lembrei da minha tradução de November Rain, da ingenuidade com que usava as palavras, porque me faltava bagagem. De vida, de leitura, de comunicação. Lembrei também de várias traduções que eu fazia em meus livros de inglês porque precisava de uma palavra fácil, por mais que entendesse o sentido.

Lembrei de meus anos como “teacher”, e admito aqui que nunca deixei meus alunos sem uma tradução, esse “vírus” nasceu comigo. A metodologia da maioria dos cursos não dava espaço para a tradução, mas eu enfiava uma palavrinha em português no meio de uma explicação meio em off para dar uma luz ao aluno perdido. Na época, eu me sentia meio fora da lei fazendo isso, mas era um alívio ver a interrogação sumir do rosto do “student”. Nas vezes em que tentei não traduzir nada pra ninguém, e pedi a todos que pensassem só em inglês, vi coisas malucas, como uma redação com “She was here, but she went although” em vez de away, e um aluno conversando com outro usando “Oh, my!” certo de que estava dizendo “Ô, meu!” (com sotaque paulistano e tudo!). Foram coisas engraçadas, mas me fizeram perceber que para muitas pessoas, o estudo de um idioma sem apoio da língua-mãe se torna muito complicado, pois elas precisam de um equivalente confortável, algo que se aproxime do que conhecem. É assim comigo. Mas estudando um idioma, você aprende que nem tudo tem equivalência fácil, é preciso interpretar. E voltando ao assunto deste texto, existe no mundo da tradução um verbo mais essencial do que “interpretar”? Traduzir é saber interpretar.

Concluí, então, que o tradutês é uma tradução com pouca interpretação, mas que pode ser melhorada com a prática. Há esperança, desde que haja busca, humildade e vontade de melhorar. O tradutês acontece com todo mundo, iniciantes ou veteranos, acredite.

E assim, lembrando de tudo isso e conversando com muitos colegas antes e depois do congresso, observando as pessoas e suas reações na palestra, percebi que a eliminação do tradutês acontece com mais leitura, mais prática e mais interpretação, mas também acontece com a ajuda do olhar atento de alguém, porque muitas vezes não enxergamos nossos deslizes. Lembrei do quanto aprendi com profissionais que encontrei pelo caminho que, direta ou indiretamente, me ajudaram a moldar meus textos para que eles, aos poucos, fossem ganhando uma cara mais bonitinha. Editores que viram algum potencial e dedicaram um tempo a me orientar; revisores imparciais que me ensinaram muito com suas correções; colegas que disseram “Olha, eu faço assim…”. Fiquei pensando que consigo fazer escolhas muito melhores hoje em dia, mas que meu texto ainda pode melhorar, sempre, sem parar. E que quando abro minha cabeça para aceitar a intervenção do outro numa boa, para ler mais e para aceitar que minhas escolhas não são infalíveis, deixando o ego na porta do home office, coisas incríveis acontecem, o conhecimento ganha espaço para se acomodar, o tradutês some, o texto melhora, o editor fica feliz e o leitor, satisfeito com o que leu.

Não acredita? Faça um teste. Peça para um colega reler um texto seu. Dê carta branca para ele mudar o que acha que deve. Observe, anote, leia em voz alta, assimile. Depois, se quiser, venha contar o resultado pra gente. 🙂

P.S.: A partir de agora, vamos mudar um pouquinho o esquema de publicações do PdL. Nossos textos começarão a ser quinzenais, com um texto de convidados a cada 30 dias. Porém, nossa página de Facebook estará mais animada, com dicas, notícias e novidades do mercado editorial durante a semana, fotos do #livrosamigos e outros lançamentos no Instagram e pequenos “flashes” no Twitter quando algo quente acontecer no meio do caminho. Por isso, não deixe de nos acompanhar também nas redes sociais. Clique aqui para visitar nossa página no Facebook. Endereço de Twitter e Instagram: @pontedeletras. Vem bater papo com a gente. 😉

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