Os pulos do tradutor

 

Um dia, no meio de uma discussão sobre práticas profissionais de tradutores, eu disse:

— Vocês já viram algum médico, dentista ou advogado divulgar sua lista de clientes? Já viram algum professor particular, cabeleireiro ou manicure informar quem são seus clientes? Aposto que não. Nenhum empreendedor ou empresário faz isso… Por que um tradutor deveria fazer isso?

Essas são perguntas que não se deve fazer por bom senso e cortesia. Deve-se fingir que não se ouviu ou não entendeu e, quando não dá para fingir que não ouviu, a resposta é simples: não posso responder tanto para manter a confidencialidade dos meus clientes quanto por ser esse o segredo do meu negócio. Vocês já viram algum gato ensinar o pulo do gato?

Essa é a minha opinião, segredos profissionais precisam ser preservados e não há mal nenhum em guardar para si algumas descobertas e táticas. Foi para falar um pouco sobre isso que a Carolina, em nome do Ponte das Letras, me convidou a escrever. Agradeço muito o convite e espero contribuir para que as pessoas entendam um pouquinho mais sobre a profissão que abraçamos.

Acredito que crescer como tradutor depende de entender e conjugar quatro fatores: aquisição constante de conhecimento, postura profissional, gestão empresarial da profissão e investimentos financeiros e intelectuais.

Um dos maiores enganos em relação à profissão de tradutor é que não existem segredos para se atuar neste mercado. Aquele mito que diz que, sabendo duas línguas e praticando um pouco, qualquer um pode abrir uma banca de tradutor. Essa aparente falta de limites assusta os profissionais e convida os aventureiros a tentar a sorte na tradução. Depois de alguns anos me dedicando a essa área, posso dizer que nem os receios dos tradutores, nem a percepção de que saber dois idiomas abre todas as portas desse mercado fazem sentido. Existem segredos e barreiras que impedem o acesso irrestrito dos que não entendem a tradução e suas práticas. Como não é bom espalhar segredos e desfazer mistérios, vou dar uma pincelada em alguns dos pontos que considero barreiras de entrada no mercado de tradução.

Em primeiro lugar, o tipo de conhecimento linguístico que o tradutor precisa ter vai além das regras da gramática. Entender a língua do outro não é só uma questão de conjugação verbal ou de colocação precisa de preposições, compreender a língua é buscar compreender o outro, é entender a cultura e o modo de pensar e viver deste outro. Aprender uma língua e aprender a traduzir são movimentos mentais diferentes: eu aprendo uma língua para que seja capaz de me comunicar com o outro, o objetivo é me fazer entender pelo outro; quando aprendo a traduzir, busco ser capaz de entender o que o outro quer dizer, busco ouvir o outro no sentido amplo e pleno, e preciso saber a língua, a cultura, o modo de pensar. A tradução não é um simples decalque de uma língua a outra, até porque não existem correspondências perfeitas. Então, tradução é tanto sobre a compreensão do peso das palavras quanto sobre o significado delas num determinado contexto. Traduzir exige que se entenda o que está escrito, que se adote o ponto de vista do outro para poder trazer ao leitor a decodificação correta da mensagem. Chegar a esse ponto demanda conhecimento das culturas envolvidas, requer extensa pesquisa em diversas fontes formais e informais e também um conhecimento profundo da mecânica, dos aspectos formais das línguas de partida e de chegada. Muito poucos conseguem alcançar esse nível sem um bom curso de formação em tradução e um bom par de anos de prática.

Outra questão se refere ao lado empresarial da atividade. Um tradutor freelancer é um empresário e um empreendedor que, para sobreviver, terá que cumprir funções administrativo-financeiras que incluem conhecimento de contabilidade, transações de câmbio e trâmites de exportação de serviços; estabelecer estratégias mercadológicas; desenvolver habilidades de negociação; entender os cenários econômicos e buscar antecipar os movimentos do mercado. Para negociar, por exemplo, é essencial entender a formação de preço para saber qual é o custo do seu trabalho. Para quem não sabe, o custo do trabalho ou custo operacional é aquele valor abaixo do qual você está pagando para trabalhar. É comum num país que não forma empreendedores encontrar profissionais liberais que não sabem identificar a partir de qual momento a operação entrou no vermelho, quando estão abaixo do seu ponto de equilíbrio. Profissionais que trabalham dentro de casa, como nós, precisam ter cuidado dobrado porque pode ser que o trabalho esteja sendo subsidiado pelas outras pessoas que moram na casa através do pagamento de despesas comuns que acabam por se misturar com o orçamento doméstico. Assim, quem não tem interesse na parte empresarial do negócio pode ter dificuldade em se estabelecer e em se manter como tradutor.

O posicionamento e ética profissional também são muito importantes e fazem toda a diferença. Isso inclui desde a forma como o profissional organiza o dia e como se compromete com o trabalho até a forma de se apresentar aos amigos, aos colegas de trabalho, aos clientes. Passa também por estar disponível e acessível para trabalhar, por determinar os limites entre trabalho e lazer; e por saber manter a confidencialidade e a confiança nas suas relações com clientes diretos e empresariais. É importante, por exemplo, ter um cartão de visitas para entregar a possíveis clientes e contatos, ter um site, blog ou perfis profissionais on-line, participar de redes sociais. É o conjunto de tudo isso que contribui para que se construa uma persona profissional de credibilidade. Não é fácil ser levado a sério quando existem poucas evidências palpáveis de que você realmente trabalha.

Um tradutor profissional também investe e muito para poder obter retorno. Não é barato ser tradutor. É preciso investir em fontes de consulta como livros e assinaturas de conteúdo; participar de associações profissionais; fazer cursos de formação específicos, cursos de aperfeiçoamento, especialização e reciclagem; comparecer a eventos da própria categoria profissional e também a eventos acadêmicos e empresariais; adquirir softwares específicos necessários ao exercício profissional, possuir o hardware confiável e adequado para garantir a qualidade do trabalho; manter softwares e hardwares atualizados, manter assinaturas de sites e listas de consulta sobre o comportamento empresarial dos clientes; pagar por banda larga e armazenamento remoto de dados de empresas idôneas e de qualidade; e legalizar o exercício da atividade profissional pagando tributos e taxas.

Fazer tudo isso bem feito é um grande desafio pessoal e profissional. São esses muitos detalhes que diferenciam os tradutores profissionais de pessoas que fazem tradução eventualmente. Quando um tradutor negocia o valor de uma tradução, ele está negociando um produto caro, que tem a sua qualidade garantida pela ética, comprometimento profissional, pela formação, pela especialização e pela experiência adquirida ao longo da carreira. A tradução é o produto final visível de uma profissão bem mais complexa do que os leigos podem perceber. Só quem está neste mundo conhece todos esses aspectos que se articulam para que o cliente receba um produto de qualidade, no prazo combinado.

O que eu gostaria com esse texto é dizer aos que aspiram ser tradutores que, embora pareça exaustiva, essa é uma profissão maravilhosa, complexa e nada monótona. Pode ser que leve algum tempo para aprender tudo, pode ser que você chegue à conclusão de que o grande pulo desse gato é nunca parar de aprender e de dar seus pulos. Miau!!!

P.S.: Não é à toa que São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, tem um leão como gatinho de estimação.

Patrícia Franco, Tradutora

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9 comentários sobre “Os pulos do tradutor

  1. Adorei o esclarecimento. Sou professora de português e espanhol há anos e vejo como é diferente ensinar um idioma e fazer um trabalho de tradução. Recebi um manual de um aparelho médico para traduzir ao português e achei que fosse moleza. Enganei-me e não passei das instruções. Enfim…
    Estou acompanhando o Ponte de Letras há pouco tempo e está sendo muito importante os depoimentos para que eu possa decidir o que quero fazer futuramente. Vocês são ótimos!
    Qual curso de tradução vocês poderiam me indicar? Moro no Rio de Janeiro. Pode ser à distância também. Obrigada

    • Tatiana, curso de formação em tradução no par espanhol/português só conheço o do Curso Abierto, no Rio com opção de fazer a distância tb. Além dele, tem a pós da Estácio que é o antigo curso da UGF.

  2. Excelente texto da Patricia! É fato que qualquer profissional, seja de que área for, precisa saber suas limitações, seus custos e principalmente o seu valor. E, claro, precisa entender onde começa o abuso profissional. E isso, cada um de nós deve ter em mente, para que a nossa categoria, especificamente, saiba se valorizar. Perfeito!

    • Danny, Vc já é veterana e, sei pelas suas postagens e comentários, que já esta entendendo bem o mercado e a profissão. A questão do abuso é muito pessoal, cada pessoa sabe onde o calo aperta. Eu faço muita coisa gratuita mas me recuso a fazer qualquer coisa que me faça sentir usada, abusada ou desvalorizada. Tem vezes em que fazer de graça é menos problemático do que aceitar um preço muito baixo. É importante analisar suas possibilidades. Essa análise pode ir desde a sua disponibilidade de tempo até o seu interesse ou necessidade de construir um TM sobre determinada área. Além disso, é preciso que você esteja apto a decidir com liberdade e clareza sobre o que pode, o que quer e o quanto está investindo quando faz algum trabalho de cortesia. Pode parecer bobagem mas costumo contabilizar o valor desses “investimentos” de modo que sei quanto vale aquilo que estou oferecendo a clientes, amigos, instituições. Quando a cortesia é com clientes, muitas vezes mando uma nota com o valor que seria cobrado e com o desconto de 100%. Por que? Para que a outra parte registre que o que faço é trabalho e tem valor. Na minha contabilidade também tem uma entrada chamada “cortesia” onde registro trabalhos que não foram remunerados (herança dos cursos de gerência do Mc Donald´s). Não considero que esses trabalhos sejam prejuízo mas fico atenta para essa conta não se torne muito alta. Minha meta pessoal é manter as cortesias entre 8 e 15% ao ano.

  3. Excelente post! Para uma principiantes como eu, que está começando a dar os primeiros passos rumo à tradução profissional, textos como esse são motivadores e esclarecedores. Obrigada!

  4. É exatamente isso que tenho aprendido a duras penas nos meus anos como tradutora. Comecei de maneira ingênua, sem o conhecimento administrativo que faz uma falta tremenda, e hoje vou caminhando para minha expansão pessoal e, consequentemente profissional. Inegável que meu principal motivo de crescimento foi estar em contato com profissionais de sucesso na área, como a Patrícia, que é sempre muito generosa e ensina muito com suas experiências. Parabéns pelo texto!

  5. Interessante encontrar esse texto aqui. Acredito (e posso estar enganada) que ele tenha se originado de uma pergunta que fiz em um grupo e que foi mal interpretada pela autora do texto. Jamais pedi informação nenhuma sobre onde conseguir clientes. Que fique claro pois não concordo com isso. Trabalho como autônoma há muitos anos, sei muito bem como funciona. Jamais esperaria isso de ninguém e não foi DE FORMA ALGUMA o que pedi quando pedi dicas. Tampouco sou iniciante apesar de ser “nova” na área. Acho que existe uma atitude muito mesquinha de certos tradutores em catalogar quem não conhecem, nos tachando imediatamente disso ou daquilo. E também existe uma outra atitude de não partilhar informações (mas, obviamente, não é sempre assim pois tenho visto vários tradutores que vão muito além e me sinto inspirada por eles). Mas, enfim. Erros acontecem. No meio virtual é comum o “achismo”. De todas formas, a mensagem é válida e o texto (tirando isso) é excelente. Se serviu de inspiração, ok. Pelo menos esse mal-entendido, que não me agrada, serviu para algo bom.

    • Olá, Simone!
      Obrigada pelo comentário.
      O texto escrito pela convidada não se refere a nenhuma situação ou circunstância específica, não tem intenção de expor nenhum leitor, apenas expressa sua opinião pessoal e geral, como faria dentro ou fora de qualquer grupo. O assunto abordado é muito frequente nas comunidades de tradutores.
      Volte sempre! 🙂
      Um abraço.

  6. Gostei do texto, ele expressa algo que sempre afirmei e que tenho por hábito enquanto postura profissional, no meu modo de ver, não só os segredos profissionais precisam ser preservados, como também, no caso de não se tratar de literatura, mas de uma documentação mais pessoal, estes conteúdos também precisam ser preservados e não há mal nenhum em guardar para si determinadas informações.

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