O caminho batido de sempre ou aventuras diferentes?

Posso escolher o que vou traduzir?

Vejo muitas pessoas que estão começando a traduzir ou querendo entrar no mercado da tradução literária pensando em começar com um determinado gênero, querendo entrar em contato apenas com editoras que publiquem livros do gênero desejado. Várias pessoas já me perguntaram coisas como “Trabalho com crianças há um bom tempo, gostaria de traduzir livros infantis. O que posso fazer?”.

É mais comum do que parece acreditar que, logo de cara, poderemos direcionar nosso currículo a editoras que publicam textos nas áreas em que queremos trabalhar e só aceitar trabalhos dessas áreas, mas logo percebemos que, quando estamos entrando no mercado, escolher não é exatamente o que fazemos. No início, escolher demais pode diminuir muito nossas chances de começar.

Geralmente, a ideia de escolher e se dedicar a apenas uma área acaba sumindo com a primeira proposta de trabalho. Você está tão entusiasmado para começar que certamente não vai se lembrar de que disse que só queria traduzir romance, por exemplo.

O tradutor é, antes de tudo, um pesquisador. Ainda que você receba um infantojuvenil e, por ter trabalhado com crianças e adolescentes, acredite estar apto a traduzir o livro porque conhece bem o universo da meninada, o texto pode vir cheio de referências a qualquer outro assunto com o qual você não está familiarizado. Vai ter que pesquisar bastante e, muitas vezes, pensar muito antes de traduzir o que antes parecia muito fácil. O mundo literário traz muitas surpresas. Um livro que, à primeira vista, parece simples, pode trazer muitos e muitos outros assuntos e se tornar bem complexo. É difícil saber, a menos que você faça uma leitura detalhada antes de aceitar ou recusar a tradução.

Com o tempo, é natural que seu perfil comece a ser direcionado. Talvez você tenha um texto excelente para livros de não ficção, mas deixe um pouco a desejar nos de ficção, cheios de diálogos. Pode ser que você não faça essa autoanálise, já que se dedica sempre da mesma forma a qualquer trabalho e não consegue avaliar, mas um editor mais atento pode perceber em quais textos você tem um desempenho melhor e, assim, começar a selecionar os livros que enviará a você. Pode também direcionar livros de um determinado autor, para manter o estilo, se você soube captá-lo bem no primeiro livro.

Minha primeira tradução foi um autoajuda bem descolado. Foram dois, na verdade. Um deles, escrito pela autora que abordava o papel da mulher na sociedade. O segundo, logo em seguida, do marido da autora, abordando o papel do homem. Foram livros que abriram portas, porque depois deles, vieram vários outros de autoajuda. Cada editora foi trazendo um livro diferente e, ao longo dos anos, esse mesmo processo se repetiu com vários gêneros: infantil, infantojuvenil, chicklit, biografias etc. Um livro puxa o outro, e você vai se tornando “experiente” nos assuntos. Livros de meus gêneros preferidos também aparecem, e adoro recebê-los, mas nunca restringi e não restringiria meu campo de atuação, muito menos no começo da carreira.

No entanto, mais importante do que se dedicar a um caminho é estar por dentro do universo do livro, do que as pessoas falam, do que está acontecendo no mundo, e isso não está necessariamente ligado ao gênero literário. A Flávia já falou sobre isso em um de seus posts, deem uma olhada.

Acho importante aprender a ser flexível, acho que a flexibilidade é o caminho para a satisfação no trabalho. Afinal, o barato de ser tradutora, na minha opinião, é poder embarcar em várias viagens. Aqui, um romance levinho. Ali, um suspense de arrepiar. Depois de algum tempo, terror. Aprendo muito traduzindo, e esse aprendizado está relacionado, em grande parte, à variedade de assuntos nos quais mergulho. Eu não trocaria essas viagens pelo mesmo caminho batido de sempre. E você? 😉

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2 comentários sobre “O caminho batido de sempre ou aventuras diferentes?

  1. Também acho que seja importante aprender a ser flexível, e que a flexibilidade seja um dos caminhos para a satisfação no trabalho!

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