Pisei na bola. E agora?

Errar é humano. Todo mundo sabe disso. Todo mundo erra com maior ou menor frequência, com mais ou menos gravidade, com consequências devastadoras ou sem causar grandes danos. Não importa. O que vale aqui é que TODO MUNDO ERRA.

Então, por que é tão irresistível o impulso de apontar e criticar o erro alheio?

Tenho visto profissionais de todas as áreas demonstrando com ferocidade cada vez maior a necessidade de ridicularizar o colega que errou. E quando o dedo muda de direção? Como é ser apontado por um erro cometido, ridicularizado em uma rede social?

Às vezes a crítica é justa. Um cliente aponta uma inconsistência, ou um revisor/preparador de textos faz alterações justificadas que melhoram o texto. Como você reage? Revê o trabalho e, se for o caso, reconhece o erro? Se ele foi provocado por desconhecimento, vai atrás das informações necessárias para não repeti-lo? Se o caso foi falta de atenção, tenta entender o que a provocou?

Cansaço, excesso de trabalho, prazos apertados, problemas pessoais, não importa. São muitos os fatores que podem induzir o tradutor ao erro. Importante é reconhecê-los, usar a crítica sempre como um instrumento de autoavaliação para melhorar e evitar cair nas mesmas armadilhas. Lidar com a crítica profissional no nível pessoal é inútil, desgastante e perigoso. Ignorá-las também não é o melhor caminho.

Mas o que dizer das críticas que são feitas como ataques pessoais?

Entre os tradutores, o “erro” é ocorrência comum. Basta alguém ler uma solução alheia, decidir que faria diferente, e pronto! Temos aí disponível vasto material para esculhambação. Se o erro de fato existir, se for um deslize de ortografia ou gramática, aí a coisa fica séria! Vamos crucificar, apedrejar, tirar de cena, limpar o mercado!

Acontece, caros leitores, que diferente não é errado. O fato de eu não concordar, não gostar, não acatar como esplendorosa a tradução de um colega não significa que ela está errada, que é ruim, que é inferior. Significa apenas que eu teria feito diferente. Isso não me confere o direito de expor o trabalho de alguém que, muitas vezes, nem conheço.

E mesmo que o erro exista. Mesmo que o colega em questão tenha errado um acento, uma vírgula, uma construção… Bom, alguns podem achar que aí, sim, o direito ao apedrejamento é garantido e o choro é livre. Pessoalmente, prefiro não apontar. Posso comentar o erro, mas nunca o autor. E sempre tomo cuidado para, se comentar, não dar material que possa levar à identificação do colega.

E por que esse assunto agora?

Porque ética é um tema que tem me intrigado muito recentemente. O mercado é restrito, há, sim, um gargalo que limita a entrada de novos profissionais, a vida é dura, todo mundo tem contas a pagar, mas me recuso a aceitar “puxada de tapete” como meio de vida. Não consigo concordar com alguém que, tirando proveito de seu posto de revisor, ataca o tradutor para mostrar serviço. Como não aceito que um tradutor, tirando proveito de seu domínio da língua, diminua o trabalho do revisor alegando desconhecimento do idioma de partida. A produção de textos é uma cadeia, uma sequência de etapas que exige colaboração e integração entre todos os elos. Onde foi que essa corrente se partiu? Onde foi parar a ética do nosso mercado (e não me refiro apenas ao mercado editorial, mas ao mercado de tradução de maneira geral)? Que fim levou o coleguismo e a parceria dos tempos de outras redes sociais? Em que momento passamos a viver esse clima de “pouco palco para muita estrela”?

De minha parte, tenho a grande alegria e o imenso alívio de declarar que convivo com gente do bem. Os colegas que conheci há muitos anos em outras redes e os que conheci recentemente nas mais modernas são seres humanos decentes, mesmo que não sejam profissionais perfeitos. E eu ainda prefiro a decência à perfeição.

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11 comentários sobre “Pisei na bola. E agora?

  1. Parabéns pelo texto, Débora! Além das questões de ética, decência e humildade, tão bem descritas por você, sempre acreditei que, quanto mais parceiros e solidários forem os profissionais, mais alto vai ser o nível do nosso trabalho. E mais oportunidades vão surgir!

  2. Sério, acho que vou imprimir esse trecho, fazer um quadro e ler todos os dias, porque é uma das coisas mais decentes e verdadeiras que já li. E não se refere só a tradução… se refere a tudo, a todos. É uma forma, inclusive, de lidar com nossos próprios erros.

    “Diferente não é errado. O fato de eu não concordar, não gostar, não acatar como esplendorosa a tradução de um colega não significa que ela está errada, que é ruim, que é inferior. Significa apenas que eu teria feito diferente. Isso não me confere o direito de expor o trabalho de alguém que, muitas vezes, nem conheço.”

    • Legal que gostou, Sibele. E, para nossa sorte, ainda tem muita gente assim nos nossos círculos. Que bom, né?

  3. Pingback: “Não encontre falhas, encontre soluções”: sobre errar, sacudir a poeira e dar a volta por cima | Pronoia Tradutória

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