Dores e delícias

 

Há quem diga que nenhuma tradução é fácil. Às vezes, um trecho aparentemente simples pode conter mil e uma sutilezas, e o tradutor é obrigado a “se virar nos trinta” para conseguir transpor um mar de significados para outro idioma. Mas, convenhamos, algumas são mais fáceis que outras. Não necessariamente são menos complexas, mas podemos ter certa facilidade ou familiaridade com determinados tipos de texto ou temas e mais dificuldade com outros. Isso varia de profissional para profissional. Um tradutor habituado a trabalhar com livros de culinária, por exemplo, deve ter um glossário bem recheado de termos e é capaz de lidar com jargões da área com muito mais facilidade do que eu, que traduzi apenas meia dúzia de livros de receitas. A qualidade do texto final pode até ser compatível, mas o processo não. Eu teria que pesquisar muito mais, perder muito mais tempo. Em resumo, “penar” muito mais.

Quem vive de tradução nem sempre (ou quase nunca) pode se dar ao luxo de escolher o que vai traduzir. Depois de um tempo no mercado, você pode até se direcionar (ou ser direcionado) a uma área de atuação, mas a verdade é que a gente nunca sabe o que vai aparecer. Às vezes é até legal se manter na zona de conforto. Dá para calcular direitinho o quanto vamos produzir por dia, assim fica mais fácil organizar o cronograma. Dá para produzir mais e, portanto, ganhar mais dinheiro também, afinal, recebemos por lauda traduzida. Mas, apesar de todas essas vantagens, quem não gosta de um desafio?

É claro que devemos avaliar com cuidado o tamanho da encrenca. Nada de dar um passo maior que a perna e se comprometer com algo de que não vai dar conta. É preciso ter certeza de que podemos garantir um bom resultado final, de acordo com as expectativas de quem está nos contratando. É preciso dar um passo de cada vez, saber onde estamos pisando. Mas é muito legal se aventurar por novos caminhos, quebrar a cabeça de vez em quando.

Às vezes, bate aquele desespero de ter trabalhado um dia inteiro e não ter “rendido” quase nada, de ter que fazer mudanças constantes no cronograma por não conseguir calcular a produtividade média diária, de achar que não está ficando bom por não fluir com aquela facilidade dos textos de costume. Mas as dificuldades nos fazem crescer como profissionais.

Eu estou trabalhando em um livro difícil no momento. Além de difícil, ele é bem longo. Para mim, isso já seria uma dificuldade por si só, mesmo que o texto fosse tranquilo. Lendo sobre ele, encontrei um crítico que dizia estar com “pena do tradutor”, devido às características peculiares da narrativa do autor e do tipo de vocabulário utilizado por ele. Fiquei desesperada, mas ao mesmo tempo animada!

Sim, há momentos de tensão (mais de duas horas desmembrando um parágrafo complicado), de desânimo (vários dias sem conseguir cumprir a cota estipulada), de obsessão (vinte e sete abas abertas no navegador para tentar encontrar o nome certo de uma pecinha específica de uma arma utilizada na década de 1940), mas é muito, muito gratificante começar a ver o resultado de um trabalho desse porte.

Ainda me restam alguns meses de sofrimento e satisfação, enfrentando altos e baixos até finalizar o trabalho. Apesar de produzir bem menos do que a minha média, sinto que estou saindo no lucro. São as dores e delícias da profissão.

 

 

20150420

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6 comentários sobre “Dores e delícias

  1. Isso mesmo! Nao sei se a dica serve pra voce, mas me ajudou varias vezes, inclusive agora, que tambem estou penando com um original dificilimo: usar traducoes do mesmo livro para idiomas que dominanos bem. As vezes as solucoes que o outro tradutor encontrou funcionam como um estalo para a gente.

    • Olá, Regina.
      Obrigada pelo comentário.
      A princípio, eu evito olhar outras traduções para não me deixar influenciar demais. Mas, você tem razão, a solução é ótima para aqueles trechos mais “cabeludos”.

      Um abraço. Volte sempre! 🙂

  2. Eu sei bem o que são traduções difícies.Tenho traduzido artigos científicos para inglês em que primeiro tenho de perceber o português, o que já por si é bastante difícil. Chego a levar 1 hora com apenas um parágrafo. Porém, estes artigos têm-me feito dar grandes saltos como tradutora por serem tão desafiantes e por me obrigarem a pensar “fora da caixa”.

    • Olá, Ana Catarina.
      Esses desafios são mesmo importantes para não nos acomodarmos e continuarmos crescermos como profissionais, não é?

      Muito obrigada pela visita ao Ponte de Letras. Volte sempre! 🙂

  3. Olá gente maravilhosa do Ponte de Letras: Tudo bem?
    Estou adorando ler os posts sobre TRADUÇÃO; por favor, coloquem posts sobre TRADUÇÃO TÉCNICA E DICIONÁRIOS ESPECIALIZADOS! Muito obrigada e PARABÉNS!!!
    Susana

    • Olá, Susana,

      Agradecemos o carinho e esperamos que você continue a acompanhar o blog. Aqui falamos mais de tradução editorial e sobre tradução de um modo geral – questões de ética e profissão, como o texto de hoje da Débora. Mas às vezes surge um texto sobre tradução técnica, com tradutores técnicos como convidados. Fique de olho. 😉

      Petê

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