Parece literatura, mas sem o livro

Quando entrei na faculdade de tradução, um dos meus sonhos era traduzir livros. Não importava muito o que, desde que fossem livros. E, de fato, traduzi profissionalmente o primeiro livro, uma biografia, quando estava terminando a graduação.

Mais ou menos um ano depois, aprendi legendagem de filmes e foi aí que descobri minha grande paixão. Mesmo tendo atuado em vários segmentos de tradução, buscando variar e me envolver em projetos diferentes, a legendagem foi a atividade mais constante nos últimos 18 anos.

De tempos em tempos, volto a me envolver com tradução editorial. Até recentemente, para mim ela foi sinônimo de não ficção – 12 livros traduzidos em uns 15 anos. Curiosamente, vários deles eram do tipo que têm restrição de espaço, pois a diagramação em português deve ser idêntica à do original em inglês, e eu acabei aplicando minha experiência com síntese de textos que aprendi fazendo legendagem.

Foi só poucos anos atrás que aceitei a primeira tradução literária (ficção), à qual se seguiram mais quatro. Apenas romances despretensiosos, embora sejam divertidos, comoventes e com uma boa dose de desafio, como acontece com toda tradução.

Passado o impacto inicial de se trabalhar com este novo gênero e suporte e após tempo suficiente para ter certo distanciamento, começaram a me ocorrer relações interessantes entre a literatura e a legendagem. Estas são algumas das reflexões que fiz.

Diálogos, diálogos, diálogos

Não existe treino melhor para traduzir diálogos do que filmes. Quando se trata de ficção, é praticamente só o que traduzimos. Mil, mil e quinhentas, duas mil legendas por filme de interações entre pessoas de todas as idades, classes e profissões, em todo tipo de situação, com todo tipo de ritmo. Depois disso, ao me deparar com os diálogos dos personagens nos livros e, além do mais, aquele espação todo e uma liberdade estilística muito maior do que em legendagem, eu fiz a festa. Além de raramente ver algum diálogo muito diferente do que eu já tivesse encontrado antes, a legendagem me deu um bom senso de ritmo, de modo que a leitura dos diálogos ficasse fluente e natural, fugindo da estrutura das frases em inglês.

E o reverso da moeda? Descrições, claro. Descrições de paisagens, construções, pessoas. Gestos, quantos gestos! Com as sobrancelhas, a boca, os ombros, as mãos, olhares, sorrisos, arquejos, tons de voz… Isso jamais é traduzido nos filmes. Afinal, é para isso que servem as imagens. Aprimorar a minha capacidade de traduzir descrições escritas de forma natural foi o maior aprendizado que tive com a tradução literária.

Poder, tentação e ego

A legendagem de filmes, assim como toda forma de tradução audiovisual, é uma tarefa servil, que nos obriga a ser humildes. Nossa tradução nunca vai se equiparar ao original a ponto de substituí-lo. Pode-se ler um livro bem traduzido sem jamais ter acesso ao original e este não fará falta. Mas não se podem ler as legendas de um filme sem ter acesso ao filme, pois seriam incompreensíveis.

As legendas não têm o objetivo de traduzir tudo. Num filme, as informações visuais e auditivas não verbais têm, no mínimo, tanta importância quanto o discurso verbal. As legendas buscam traduzir somente o que é dito e, embora seja crucial transmitir esses significados verbais na outra língua, também é importante não atrapalhar nem interferir na relação do espectador com o filme como um todo. É por isso que o texto traduzido deve ser sintético e claro, para ser entendido à primeira vista (pois a legenda desaparece em seguida) e sem desviar muito a concentração das imagens do filme. Afinal, ninguém assiste a um filme porque quer ler. Se quisesse ler, abriria um livro.

Já as palavras presentes num livro constroem um universo inteiro. Cada vírgula participa dessa construção, cada mínima nuance pode despertar uma gama de novos significados. E todo aquele universo na língua traduzida é obra nossa. Temos aquele monte de páginas em branco disponíveis para ir transformando o texto na tentativa de transmitir aquela história para os leitores que não têm como ler a obra original. Podemos adaptar. Podemos recriar. Podemos explicar. Podemos omitir. Podemos aperfeiçoar. Podemos transformar. O tradutor literário tem um poder imenso. Isso foi bem palpável para mim após passar tantos anos a serviço dos filmes.

É claro que a tradução passa por revisores e editores antes de chegar ao leitor e que o produto final pode ser bem diferente daquilo que o tradutor produziu. Isso acontece na maioria dos ramos da tradução. Mas, ainda assim, o tradutor literário tem uma função autoral muitíssimo maior que o tradutor de legendas. O produto final é uma obra completa e acabada de nossa criação. E quem disser que o ego não infla em decorrência disso está mentindo. Poucas coisas massageiam o ego como ver nosso nome ao lado do título de um livro.

É preciso manter a cabeça no lugar para não cairmos na tentação de acreditar que aquele texto é nosso, que cabe a nós iluminar os leitores, que sabemos mais que o próprio autor. É fácil cairmos nessa tentação sem perceber ou justificar que é melhor assim. Pessoalmente, após traduzir um livro, sempre senti certo alívio ao voltar para os filmes e sentir meu ego retornar ao tamanho normal.

A importância das imagens

Eu amo as palavras, claro. Senão, não seria tradutora. E não curto muito aquele clichê de que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas o fato é que são necessários parágrafos e mais parágrafos para descrever todos os detalhes relevantes de uma cena – por mais trivial que seja – que pode ocupar quinze segundinhos de um filme.

Penso que só fui compreender realmente o quanto uma imagem “fala” após me debruçar sobre as descrições dos livros. O desvio de um olhar, um sorriso incerto, o movimento do cabelo, o jeito de segurar uma caneta, um instante a mais de hesitação… Tudo isso fala, e fala muito, em frações de segundo. Num filme, tudo isso acontece também enquanto as pessoas estão falando, então o espectador estrangeiro precisa dar conta de captar esses detalhes enquanto lê as legendas.

Depois de me familiarizar com a experiência de traduzir sem limite de espaço e exercitar todo o meu repertório de recursos estilísticos para produzir a melhor tradução literária possível, eu passei a dar muito mais importância para as imagens de um filme. Inclusive no caso, sempre delicado, da adaptação cinematográfica de livros, sendo que muitas vezes eu me encontro na situação mais delicada ainda de prestar o serviço de legendagem diretamente para o diretor.

A tarefa mais difícil na adaptação de um livro consiste em “traduzir” páginas e páginas em umas poucas imagens exaustivamente ensaiadas e capturadas em filme. Mas é claro que o texto dos diálogos tem um papel importantíssimo também, e todo tradutor de legendas se sente aflito e culpado ao ter que parafrasear e sintetizar demais.

Eu sinto que estou cada vez mais bem resolvida com relação a essa culpa e acredito que a tradução literária tenha me ajudado muito. Livro é livro, filme é filme. Num filme, as imagens têm que poder falar. Elas vêm primeiro. São elas que vão ficar na lembrança do espectador. A legendagem de boa qualidade deve se esmerar na escolha das palavras ideais e jamais pecar pelo excesso. E se, na luta pelo espaço exíguo, eu tiver que decidir entre manter o texto mais enxuto e perder um detalhezinho verbal ou incluir alguns caracteres a mais e exigir um esforço de leitura um pouco maior do espectador, tendo a optar pela primeira. Há detalhezinhos de sobra nas imagens. Eu quero que meu texto transmita o necessário e suficiente, com estilo, elegância e economia, sem que falte nada de importante. Mas, acima de tudo, que seja servil.

Carolina Alfaro – Tradutora

http://www.scribatraducoes.com.br

http://artedatraducao.blogspot.com.br

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2 comentários sobre “Parece literatura, mas sem o livro

  1. difícil é entrar na área de tradução, sem muita experiência e sem uma indicação boa, mesmo sendo formado. 😦

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