A prática leva à tradução

 

Você pratica tradução?

Quem fez faculdade de tradução se acostumou a fazer exercícios de tradução e versão, de tradução para interpretação, até de tradução para legendagem. Mas se você já fez exercícios assim, continuou fazendo depois de começar a traduzir profissionalmente? Se nunca fez, chegou a praticar antes de encarar um trabalho? E durante?

Minha participação no Ponte de Letras trouxe coisas muito boas, e uma delas foi a preocupação em voltar a estudar teoria. Nunca fui muito afeita à parte teórica da tradução, confesso, sempre gostei mais de colocar a mão na massa. Na faculdade, minhas aulas preferidas eram sempre as práticas. Hoje em dia, estou começando a ler mais sobre tradução, o que tem sido ótimo.

E como uma coisa puxa outra, a busca pela teoria trouxe a vontade de abrir os olhos para novos caminhos, e voltei a fazer com mais frequência e cuidado algo que fazia nos tempos pré-tradução, que perdurou ao longo desses anos traduzindo, mas de maneira meio “informal”, digamos assim. Voltei a praticar, voltei a fazer exercícios de tradução. Com caderno e tudo. 🙂

Eu sempre fui uma pessoa muito visual. Preciso ver algo escrito ou eu mesma escrever algo para gravar a informação. Então, enquanto estudava idiomas, fazia cadernos só de expressões, frases que ouvia e precisava escrever. Cheguei a copiar todos os phrasal verbs de um dicionário Longman, depois fiz a mesma coisa com o Cambridge. Pois é. Então, cá estou com meu caderno de novo. Nele, escrevo frases que aparecem nos meus trabalhos, para as quais tento encontrar traduções mais naturais. Levo o caderno na bolsa e vou escrevendo novas traduções quando consigo um tempo ou alguma ideia surge. Ajuda muito no caso de trocadilhos, já que as soluções mais legais nem sempre vêm na hora.

Tenho pensado muito na época da faculdade, quando pegava os texto traduzidos pelo Renato Motta e outros tradutores, o original desses textos, fazia a minha tradução e depois comparava tudo. Quanta coisa aprendi! Como era gostoso descobrir um modo novo de dizer alguma coisa, geralmente muito mais direto e eficaz. Como era bacana observar a construção de um trocadilho, perceber um pouco a visão do tradutor diante de uma frase e aprender com ele. E que exercício de humildade! Com ele, você percebe que o outro foi bem melhor do que você, e aprende a reconhecer, agradecer, assimilar e partir para a próxima lição.

Seria interessante voltar a aprender com essas pessoas que hoje tenho o prazer de chamar de colegas e amigos. Vou experimentar, mas quando o tempo ficar curto, meu caderno já vai ajudar bastante. No momento, traduzindo um chick lit engraçadinho, tem sido ótimo repensar algumas frases e criar novas possibilidades.

Claro que precisamos nos vigiar nesse exercício, porque achar novas traduções pode acabar virando uma “obsessão”. É só uma forma de estudar, não é para encanar. Como disseram a Carol Alfaro e o Petê numa entrevista, ainda bem que temos prazo, caso contrário, uma tradução nunca seria entregue porque sempre achamos que devemos mudar o texto todo.

Estudar também vai muito além de escrever frases num caderno. Precisamos ouvir as pessoas nas ruas, saber o que está rolando de interessante e de fútil no mundo, porque para o tradutor, nenhuma informação é dispensável. Há muitas maneiras de nos aprimorarmos, e reservar um tempo para a teoria também é importante. Afinal, não é porque traduzimos todos os dias que não temos mais o que aprender ou melhorar. Muito pelo contrário; muitas de nossas escolhas já se tornaram vícios, e dar um passinho para trás e analisar de longe ajuda a abrir a mente para novas possibilidades. E um tradutor que reconhece os próprios limites e se empenha em ultrapassá-los é um tradutor em movimento, em crescimento. É o clube do qual quero fazer parte sempre, e acho que você também. 🙂

 

 

 

 

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6 comentários sobre “A prática leva à tradução

  1. Muito bom, Carolina, adorei! Explorar possibilidades quando nao se esta sob pressao, ensaiar solucoes just for the fun of it, praticar traducao como se fosse um instrumento (quem disse que nao e?) sao recursos excelentes pra melhorar a qualidade do nosso trabalho.

    • Sim, Regina! É muito bom encontrar novas soluções e testá-las no texto. 🙂 Obrigada pelo comentário. Um beijo!

  2. Nossa, Carol, foi muito bom ler o seu texto! Estou passando por um momento bem semelhante de vontade de voltar a estudar teoria, de me aprofundar um pouco mais, depois da entrega de uma tradução difícil, que me tirou um pouco da minha zona de conforto. Fui procurar abrigo na releitura de “A tradução literária”, do Paulo Henriques Britto, e na leitura da “Poética do traduzir”, de Henri Meschonic, que ainda não tinha lido. E está me fazendo um bem enorme! Também tenho esse “caderno de soluções”, mas o meu me acompanha para onde vou em um arquivo do aplicativo Notas do iPhone Rsrs. Obrigada pelo texto e pela companhia. Não consigo comentar sempre, como gostaria, mas adoro o blog de vocês e leio tudo o que publicam! Parabéns!

    • Ana, meu caderninho é um sistema mais à moda antiga. 😀 O importante é encontrar um modo confortável. Eu agradeço muito pelo comentário e por nos acompanhar. O Ponte tem sido um grande professor pra nós quatro, e a interação com nossos colegas só torna a coisa toda muito mais interessante! Um beijo!

  3. Carolina, parabéns pelo belo texto, e por nos lembrar que a teoria da tradução é importante sim, sou iniciante no curso de letras- tradutor e sei o peso que representam essas disciplinas. Bem legal o lance das anotações em caderno, pois, sabe que acontece exatamente o mesmo comigo, assimilo muito melhor algo quando coloco as palavras em um caderno. Gostaria muito de ouvir uma explicação para esse processo.
    Enfim, obrigado por compartilhar conosco, um abraço.

    • Olá, Rinaldo! Obrigada pelo comentário. É bem simples: costumo escrever a frase que quero “treinar” em meia página do caderno e conforme as ideias aparecem, vou acrescentando as soluções nas linhas seguintes. Ou uso uma página inteira, dependendo da quantidade de ideias. 🙂 Boa sorte com o curso, espero que seja muito proveitoso para a sua carreira. Um abraço.

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