NT: usar (com moderação) ou não usar?

Em um texto de 1982, o escritor Gabriel García Márquez elogiou o tradutor de algumas de suas obras para o inglês e listou entre suas qualidades o fato de nunca utilizar o recurso das notas explicativas, as chamadas notas do tradutor (NT), considerado pelo escritor uma saída muito usada por maus tradutores.

La impresión que dan las traducciones de Rabassa es que se aprende el libro de memoria en castellano y luego lo vuelve a escribir completo en inglés: su fidelidad es más compleja que la literalidad simple. Nunca hace una explicación en pie de página, que es el recurso menos válido y por desgracia el más socorrido en los malos traductores.

Além dessa declaração, já vi muita gente se referir à NT como a admissão de um fracasso por parte do tradutor. Como se ele estivesse afirmando em voz alta sua dificuldade (ou incapacidade) de lidar com o texto de um determinado autor.

Sem entrar no mérito da análise do discurso e do lugar ocupado nele pela NT, podemos afirmar que as notas são um recurso utilizado para abordar problemas de tradução que não conseguiram ser resolvidos no próprio texto traduzido, referências que, na tradução, não ficaram claras para o leitor da língua alvo.

Esses problemas podem ser de diversas ordens e podem se referir tanto ao conteúdo do texto (como, por exemplo, aspectos culturais, personalidades, artistas, locais, datas, costumes) quanto à sua forma (por exemplo, trocadilhos, jogos de palavras, expressões, gírias, peculiaridades da estrutura da língua fonte, piadas).

A minha dúvida é: quando as notas são realmente necessárias?

Tendo a torcer um pouco o nariz para o uso de NT em textos de ficção, mas a verdade é que nunca me deparei, em meu trabalho, com uma situação em que sentisse extrema necessidade de lançar mão desse recurso. Acredito que, na maioria das vezes, os problemas podem ser resolvidos no próprio texto, seja com uma breve explicação, seja com outra solução linguística. Além disso, a pequena “birra” vem de já ter lido muitas notas desnecessárias, sem critério ou que estavam lá apenas para mostrar a erudição do tradutor, que optou por explicar minuciosamente coisas que nem o autor explicou (e que não eram óbvias e nem foram esmiuçadas para os leitores do original).

Nunca entendi o porquê de o tradutor achar que tem o dever, ou mesmo o direito, de ser um instrumento facilitador da leitura. A menos que essa seja a proposta de uma determinada obra, como nos casos das edições críticas e anotadas, não compreendo muito bem esse caráter enciclopédico assumido por determinados tradutores. É possível que eles, muitas vezes, acabem limando a possibilidade de o leitor buscar com suas próprias mãos a informação e a até mesmo a interpretação do texto.

Todo tradutor, consciente ou inconscientemente, acaba trabalhando com uma imagem projetada de seu leitor alvo, mas, ao meu ver, o ideal é que a inteligência deste último nunca seja subestimada. Quando as notas são realmente imprescindíveis e quando estão apenas facilitando uma leitura que não precisaria ser facilitada? Essa é a pergunta que lanço para discutirmos aqui. Deixe seu comentário. 😉

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17 comentários sobre “NT: usar (com moderação) ou não usar?

  1. Oi, Pete. Escrevi um trabalho sobre notas de tradutor em 1998, publicado na revista Fragmentos da Universidade de Santa Catarina e disponivel na Internet: ‘Expicar e Preciso?’, abordando as notas nas obras de ficcao, no qual se discute quando, como e onde usa- las.

  2. Admito que tenho pegado uma birra crescente com essas tais notas de rodapé, parece que o mundo decidiu que precisava encher os livros de notas de rodapé porque o leitor é muito burro ou então porque precisa conhecer até a latitude e longitude da onde o personagem se encontra. E a esmagadora maioria é desnecessária, e não dá nem pra falar que é só não ler, pq aquela marcação em cima da palavra dá agonia e no fim acabamos sendo tragados pro rodapé da página. Tenho visto muitas notas em livros infanto-juvenis, ando duvidando da capacidade dos editores ultimamente, afinal é o editor que tem que ter o bom senso de perceber que o tradutor tá errando a mão ao colocar notas de rodapé. Juro que farei uma campanha contra as notas de rodapé.

  3. Achei interessante, e queria saber a opinião de vocês pra uma situação muito comum pra mim. Eu estudo coreano na universidade e são raras as obras que são traduzidas em português. Nas que são, volta e meia aparece uma nota de rodapé explicando o que é tal comida (cujo nome o tradutor deixou no texto mesmo, ao invés de explicar lá) ou nomes de roupas e outras coisas da cultura coreana que nem todos os leitores sabem (bom, meu curso é o único no país e não somos nem em 30 alunos ainda. os livros são traduzidos, de forma geral, pro público que não entende muita coisa de cultura coreana). Vocês acham que notas de rodapé são válidas numa situação desse tipo? De explicar algo de uma cultura partindo do pressuposto que ninguém conheça aquela cultura? Para mim, costumam ser inúteis na grande maioria das vezes, mas sei que pra outras pessoas sem esse conhecimento teórico, são sensacionais.

  4. Acho que o recurso é válido em alguns poucos casos. Por exemplo, costumava ler um mangá japonês chamado Rurouni Kenshin que se passava na Era Meiji. Algumas vezes, os personagens dos quadrinhos comentavam um fato histórico que o leitor japonês deve conhecer bem e o leitor brasileiro nunca ouviu falar. Não lembro que o tradutor tenha usado esse recurso em todos os volumes. Usou principalmente no início para acostumar o leitor a alguns termos e contextos históricos do Japão que os quadrinhos impedem que sejam explicados no próprio texto.

  5. Relendo um livro meu de Macroeconomia (a maioria dos livros de teoria econômica é de americanos) vi muitas notas do tradutor. Ele mostrava o termo em inglês e justificava a escolha feita em português. Nunca tinha reparado. Achei diferente, nunca tinha visto, mas me passou a impressão que o tradutor não tinha muita certeza. O que acham?

  6. Talvez eu seja o único exemplar que resta de minha espécie; como leitora, sou fã ardorosa das notas de rodapé. Comecei a me viciar quando menina, lendo Tom Sawyer e Huckleberry Finn traduzidos para o português e cheios de notas explicativas. Aprendi tanto com elas… Hoje, me irrita profundamente sua quase inexistência. Quando as há, ficam escondidas no fim do volume, dificultando enormemente a consulta. Como tradutora, é raro usá-las; a grande maioria dos livros que traduzo não precisa delas e, além disso, as editoras são como vocês, não gostam.

    • Beatriz, como leitora, também sempre amei de paixão as notas de rodapé! Tenho uma edição do Don Quixote cheia delas, o que me mostrou muito sobre a cultura da época em que se passava a história. Às vezes eu as apreciava mais que a página de ficção em si. Hoje, como tradutora, não sei o que pensaria lendo tantas notas. Em meu trabalho, tento moderar seu uso, mas não sou absolutamente contra elas. Acho desnecessário recorrer a definições extremas do que é ou não é permitido, mas muito necessário afiar o bom senso para usar cada vez melhor os recursos disponíveis ao tradutor. No entanto, quem sou eu? Uma aprendiz de tradutora, aprendendo um pouquinho de cada vez com os mais experientes, desafiando diariamente minhas convicções…

      • Oi, Camila,

        Mais uma noteira, como a Beatriz! Que bom que vocês existem e mostram pra gente o lado bom das notas. Como você comentou, elas muitas vezes são um verdadeiro compêndio a determinadas obras, que sem elas ficariam meio mancas, meio “flutuantes” dentro da nossa cultura. Traduzir é traduzir cultura e muitas vezes elementos muito distantes (no tempo ou no espaço) precisam mesmo do esclarecimento de quem está mergulhado no texto, nos estudos de uma cultura diversa ou historicamente informado o bastante para aclarar obscuridades num livro. Não somos contra, de forma alguma, mas acredito que, como em toda intervenção no texto recriado, há que se ter sensibilidade para definir quando uma nota é realmente necessária.
        Às vezes, a coisa é tão séria, que merece um livro à parte. O tradutor de Freud da Companhia das Letras, Paulo César de Souza, por exemplo, fez um livro sobre o vocabulário freudiano e todo o projeto de retradução do pai da psicanálise. Veja o link: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12902

        Beijo e obrigado pelo comentário.

    • Oi, Beatriz,

      Você está no grupo dos amantes das notas de rodapé, e isso também é muito válido. As notas elucidativas, como expliquei ali no comentário da Ellen, são maravilhosas, nos ensinam muito. Mas uma profusão de notas sempre é um incômodo para o leitor, ainda mais quando, por um lado, são “ilustrativas” (ou seja, poderiam ter sido resolvidas de outra forma – e não foram) ou quando são fomentadoras de preguiça, explicando cada ponto-e-vírgula para o leitor (que muitas vezes abandona o livro por isso). Tive que usar algumas vezes, mas depois de muito lutar para conseguir resolver antes de me render à nota. 😉

  7. Eu lido diariamente com essa questão em minhas preparações e revisões de prova. Na minha opinião, a profusão de “N.T” nos rodapés dos textos é feita por dois motivos: ou é uma forma de o tradutor “aparecer”, tratando o leitor como incapaz, como burro mesmo, ou é uma demonstração clara de que ele teve dificuldades com texto. Em ambos os casos, a leitura (ou a “peixeira”) do editor é imprescindível.
    A minha língua estrangeira é o alemão, e a editora em que trabalho publica muita coisa do idioma (filosofia, sociologia, direito, psicologia etc.). Claro que sempre “sobra” para mim, mas confesso que adoro! A minha sorte é que os tradutores colaboradores da área de alemão são muito bons e dificilmente vejo alguma nota desnecessária. Às vezes eu mesma coloco alguma nota explicando alguma coisa (normalmente referente a uma personalidade famosa na Alemanha porém desconhecida no Brasil; referências a partidos políticos, quando muito), já que morei por um tempo por lá. A editora, até o momento, nunca excluiu qualquer informação que inseri, porém sempre pensei mil vezes se aquelas notas eram necessárias. No entanto, há sempre um preparador/revisor que é frustrado por não ser editor ou tradutor, e já vi coisas bizarras aqui onde trabalho no último ano: a profusão de “N.E.s” (em detrimento da “ausência” de N.T.s) era algo assombroso! Coisas totalmente desnecessárias saíram em várias publicações da casa: e tudo com o aval da direção editorial (das duas, uma: ou achavam que o preparador/revisor era genial, ou não liam a prova final mesmo – eu acho que não leram mesmo). E esta era a opinião da equipe de revisores; exceto, claro, a do “profissional” em questão. Alguns exemplos fofos: nomes próprios e apelidos traduzidos (muitas vezes erroneamente) para o português; tradução de um período histórico italiano cuja tradução inexiste no português (e o livro foi publicado com o título “gritando”); a troca aleatória de tempos verbais com as famosas e desnecessárias ‘N.E.’, entre muitos outros. Se eu enumerá-los aqui, o comentário vira uma dissertação! Mas, resumindo, tudo é uma questão de bom senso, de conhecer (ou, pelo menos, se situar) o contexto da obra, e pesquisar, pesquisar e pesquisar. E pesquisar mais um pouco, sempre.

    • Oi, Ellen, obrigado pelo seu comentário. Também já fui preparador e enfrentei o mesmo problema (inclusive com o alemão): tradutores querendo “mostrar serviço” tacam notas de rodapé (e glossários no final, prefácio, epílogos explicativos etc.) quando poderiam resolver com pequenas intervenções no próprio texto — muitos tradutores são contra, mas acredito que seja uma das soluções que menos causam “soluço” no texto. Por outro lado, as notas de rodapé para textos de não ficção e quando imprescindíveis na ficção, ou seja, elementos elucidativos — e não ilustrativos — sempre são bem-vindas. Tem gente que gosta de notas, como você pode percebe em comentários aqui no blog e também no Facebook. Da minha parte, também gosto de notas quando são desse tipo, as elucidativas, mas não é o que vemos muito por aí. Obrigado novamente pelo comentário e continue acompanhando a gente aqui no PdL. 😉

      • Oi, gente! Cheguei a esta discussão porque sou tradutora de ficção iniciante (a tradução é que é iniciante, não a ficção) e tenho me deparado com várias dúvidas. Como leitora, também sou do tipo que gosta de ler as notas de rodapé e como foi dito (acho que pela Beatriz) também me irrita o fato de que as notas agora ficam no fim do livro… O que quero dizer é que apesar de ser tradutora novata sou leitora antiga…e me parece bem difícil não deixar meu estilo como leitora interferir na forma como traduzo. Por isso, foi muito bom ler as impressões dos profissionais da área. Odiaria, claro, ser julgada como má tradutora por conta das intervenções, ainda que mínimas, de minhas notas. O problema é que traduzindo inglês antigo muitas vezes me vejo diante não somente de vocábulos desconhecidos, mas de situações, hábitos, definições geográficas muito que ninguém usa, mesmo em inglês. Mas eu jamais pensaria que, com isso, estaria tentando demonstrar (ou exibir!) erudição, porque em vários casos eu própria tive de pesquisar e aprender. Em minha primeira carreira, muito tempo atrás, como jornalista, lembro de detestar o mantra de alguns colegas (escrevíamos à época para meninas adolescentes) de que nossas leitoras eram ‘burras’ e que por isso deveríamos evitar ‘palavra difíceis”. Eu defendia que é importante ampliar o vocabulário da leitora, usando palavras novas e as definindo, de forma sutil, dentro do texto. Enfim, estou amando todo esse aprendizado e vou ficar ligada neste blog. Abraços! Selma

      • Olá, Selma.

        Algumas notas são realmente imprescindíveis. É um recurso que existe e é válido em inúmeros casos, inclusive alguns desses citados por você. A discussão do texto era mais sobre a falta de critério que costumamos ver na utilização das notas por parte de muitos tradutores. Tudo deve ser explicado e mastigado mesmo quando essa não foi a opção do autor? O texto traduzido impões alguma nova dificuldade à leitura? A questão é justamente definir quando explicações são realmente necessárias. 🙂

        Obrigada pela visita ao Ponte de Letras. Volte sempre.

  8. Cheguei meio atrasada, mas já gostei do que li! E veio no momento certo, em que estou preparando minha palestra para um seminário sobre tradução, numa universidade do Peru, no próximo mês. Um dos tópicos que vou abordar será sobre a NT. Usarei o exemplo de uma tradução minha para o espanhol de um conto de Guimarães Rosa, para uma mostra de contadores de histórias, ou seja, para crianças! A mostra também foi no Peru, em junho. Achei lindo deixar as palavras “xiquexique e mandacaru” no original! Até porque acho que ‘cactus’ empobreceria o velho Rosa…
    Espero que não tenha sido um equívoco da minha parte! Aceito opiniões.

  9. Pingback: Sobre onças e sukiyaki | Ponte de Letras – Ano 3

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