Quando os personagens desatam a falar

Há pouco tempo, andando na rua, ouvi um “sim”. O espanto me fez desacelerar o passo para escutar a conversa (assumo publicamente que ouço conversas alheias, mas sempre por motivos profissionais). Descobri que o “sim” veio da boca de uma falante de espanhol. Como tradutora literária, fui percebendo, a cada vez que precisava verter uma fala ao português, que o “sim” sozinho ou no início de uma resposta praticamente não existe. Pense bem: quando alguém pergunta se você trabalhou esta semana, você começa a resposta com um “sim”? Imagino que, tendo o português brasileiro como língua materna, você responda “trabalhei” ou “trabalhei, sim”. Já o “não” faz tanto sucesso por estas bandas que o repetimos: “Não trabalhei, não”.

Meu interesse pela tradução de diálogos surgiu na época da graduação, quando traduzíamos contos em casa e discutíamos nossas soluções em aula. Volta e meia, depois de nossas tentativas de reproduzir as falas de um personagem em português, nosso professor, o grande Paulo Henriques Britto, declarava: “Na Tijuca ninguém fala assim!”, e então quebrávamos a cabeça juntos para chegar a uma tradução mais verossímil.

O grande problema da tradução de diálogos é nos desvencilharmos da atenção total à norma culta. Os gramáticos brasileiros, em sua maioria, assumiram o cargo de guardiões da nossa língua ó-tão-frágil, sujeita aos ataques subversivos de seus falantes. Aprendemos na escola a obedecer à gramática normativa e a escrever como os portugueses nos ensinaram. Só que nem nossos professores escapam de usar o pronome reto no lugar que caberia ao objeto quando não estão medindo as palavras — e se são daqueles que usam sempre o pronome na posição certa segundo a norma culta, nós os achamos pedantes. Como tradutores, também nos consideramos guardiões das palavras, da estilística, do português “castiço”. Portanto, é preciso ter certa audácia para romper com a norma culta de propósito e escrever “eu vi ela ontem” na tentativa de criar um diálogo que não fira os ouvidos do leitor. Outra opção é sair pela tangente e escrever “eu vi ontem”, se a referência à moça em questão estiver clara.

No entanto, o tiro pode sair pela culatra: se exagerarmos na reprodução da realidade, ferimos os olhos do leitor. Embora minha carioquice me leve a falar “tu tá mermo pensando nisso?”, juro que nunca me passaria pela cabeça escrever uma coisa dessas (a não ser que escrevesse um conto e quisesse reproduzir o jeito carioca de falar). Primeiro, porque o discurso é típico da minha cidade e os livros que traduzimos serão vendidos em todo o território nacional. A linguagem adotada pelo mercado editorial é o português padrão do Sudeste, disseminado pela televisão e despojado de regionalismos gritantes. Segundo, porque não creio que o leitor queira ver um personagem nova-iorquino, por exemplo, transformado em carioca da gema.

Também corremos o risco de salpicar as falas com gírias (que, aliás, também tendem a recair na categoria dos regionalismos). E aí não podemos nos esquecer de que, se tivermos sorte, nossa tradução ainda circulará por sebos, livrarias e mesas de cabeceira daqui a algumas décadas, e o leitor vai estranhar quando os personagens disserem que alguém pirou na batatinha ou viajou na maionese, a não ser que se trate de uma pessoa mais velha tentando se enturmar com adolescentes e errando feio.

Com o tempo, acabei criando um método para buscar a naturalidade. Ao traduzir falas, sempre tenho que pensar três vezes, no mínimo, nas palavras que vou usar para trazê-la ao português. Começo traduzindo literalmente (mas não ao pé da letra!), depois, penso em como eu realmente diria aquilo que o personagem está dizendo. O último passo é adaptar o que eu diria ao que pode ser escrito num livro, afinal, é preciso ter noção da diferença entre escrever uma fala que de fato pareça uma fala e transcrever o que a gente fala de verdade. É isso o que distingue um profissional que não sabe português de um que sabe traduzir diálogos. E para aprender a traduzi-los, nada melhor do que prestar atenção aos papos alheios (e a gente ainda ouve histórias cabeludas!).

Débora Landsberg, tradutora literária – debora.landsberg@gmail.com

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12 comentários sobre “Quando os personagens desatam a falar

  1. É o que sempre digo a meus alunos: traduza a ideia, depois veja como aquilo seria dito em português. Ainda não enfrentei o desafio de traduzir um livro, imagino que refletir a personalidade da personagem na fala sendo traduzida deve ser um daqueles desafios que faz a gente sentir que venceu uma batalha.

    Eu assisto tv com uma caderneta e uma caneta na mesinha de centro, na mesa de cabeceira. Meu marido já se acostumou. Não é raro parar o almoço ou jantar para anotar uma “descoberta”. Adoro nosso trabalho!

    E obrigada, Débora!

    • É isso mesmo, Giovanna. Se na hora da narrativa temos de pensar em como não resvalar para o tradutês, na hora dos diálogos precisamos ficar ainda mais atentos. Quando o diálogo fica muito artificial, o leitor logo pensa “ah, é tradução, por isso que está esquisito”.

      Também vejo tevê fazendo anotações. E anoto as invencionices que ouço por aí. Vai saber quando um personagem vai fazer o mesmo trocadilho ou brincadeira, né?

      Obrigada pelo comentário, Gio!

  2. Oi, Débora! Adorei sua postagem, pois meu assunto favorito na área da tradução literária é a tradução de diálogos. Comecei a me interessar pelo tema após fazer um curso justamente com o Paulo e pretendo aprofundar os estudos na graduação e estou participando da iniciação científica sobre oralidade na literatura. Sua dica das três etapas que você utiliza para traduzir um diálogo foi muito útil! Adotarei essa técnica 🙂 Muito obrigada! Ah, escutar as conversas com intenção profissional foi uma dica que o Paulo também deu. Achei uma ótima técnica, pois nada melhor para estarmos atualizados quanto à fala do que ouvir dos próprios falantes. Quando se trata de algo mais específico, como a fala característica de um grupo social, acredito que essa experiência empírica seja fundamental para quem não está familiarizado. Acredito que seria algo parecido com o “laboratório” que os atores fazem quando vão representar um papel. Um grande abraço e parabéns pelo blog 🙂

  3. OI! Concordo com toda a discussão sobre traduzir diálogo, mas não posso deixar de comentar aqui que eu naturalmente uso “sim” no meio dia a dia. Tudo bem que sou um gaúcho radicado em Belo Horizonte e sempre estudioso de línguas, talvez isso tenha uma grande influência, pois não é a primeira vez que me pego lendo algo do gênero e pensando “mas eu falo assim”… Vou começar a prestar atenção à forma como respondo perguntas diretas!

    • Oi, Diogo!
      Aguardo ansiosamente o resultado da sua pesquisa. Estive em BH há pouco tempo e o único “sim” que ouvi foi do meu priminho de quatro anos, que mora na Argentina e é criado em português e espanhol.

  4. Interessante, este post. Eu respondo “sim” com frequência, sozinho ou no início, e uma resposta assim não me causaria estranheza nem ao vivo, nem num livro… Ou seja, eu não teria o bom senso de diminuir o passo para perceber que o falante era estrangeiro. (Estou em Belo Horizonte também, mas sou mineira mesmo.)

    Por essas e outras, acho que eu não ousaria traduzir literatura jamais! Exige um talento que eu, definitivamente, não tenho.

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