O que faz Você infeliz?

O que faz Você infeliz?

 

O tradutor autônomo trabalha em casa, faz seus horários, acompanha a rotina da família, tem todas as regalias do lar ao alcance das mãos a qualquer hora do dia.

Faz intervalos quando quer, pode interagir no Facebook e no Skype quantas vezes quiser durante o dia, tem acesso a todos os blogs relacionados ao mercado e aos de outros assuntos, tem a TV e o rádio à disposição, pode ir a happy hours com colegas no meio da semana, e também a almoços, jantares, cafés, eventos.

Com planejamento, tem tempo para preparar suas refeições quase todos os dias, pode escolher o mercado onde vai fazer as compras, pode sair para resolver boa parte das pendências quando acha adequado, pode escolher as pessoas com quem vai interagir off-line, pode reservar uns minutinhos para as atividades físicas diariamente.

Sim, ele é autônomo, ele PODE tudo isso.

Mas como muitos autônomos levam a vida? Vamos ver um exemplo bem comum de ser humano tradutor. Vamos chamá-lo de “Você”.

Você reclama do cliente que é chato, trabalhar em casa é padecer no inferno, porque trabalha durante a madrugada, já que ninguém em casa deixa Você trabalhar durante o dia.

Os intervalos viram horas ociosas, irrita-se em grupos do Facebook nos quais nem faz questão de estar, lendo opiniões de pessoas a quem não admira e de quem discorda; dá trela demais a pessoas que não conhece, mas que adicionaram Você para pedir trabalho e para perguntar se, por favor, Você pode dar uma forcinha com o sonho do filho da madrinha da prima da mãe, que está desempregado e quer “fazer tradução” até se recolocar no mercado. Você odeia ler alguns blogs porque eles não refletem a sua opinião nunca, mas Você se pega criticando o trabalho alheio e gastando mais tempo com o que não gosta. Ainda assina o feed daquele blog de corte e costura que Você curtia nos idos da Internet discada e que resistiu ao tempo, mas que não tem mais nada a ver com o que Você gosta hoje, e aquele curso bacana de francês vai ficando para trás. A TV ou o rádio ficam ligados o dia inteiro só aumentando o barulho que não deixa Você se concentrar direito, mas Você deixa tudo ligado mesmo assim. Você nunca pode sair com os colegas porque não tem tempo, precisa trabalhar, e aos eventos, Você não vai, porque é perda de tempo e de dinheiro, cansa a beleza e Você está muito acima dos meros mortais para fazer networking. Mas Você reclama das “panelas”, Você acha que ninguém dá bola pra ninguém fora dos grupinhos e passa boa parte do dia criticando quem tem opinião diferente, quem gosta de viver de outro modo, quem não reclama de tudo como Você.

Você só come tranqueiras porque não tem tempo de comer comida saudável, não prepara nada com tempo, e quando vai às compras às 18h, naquele hipermercado do lado da rodoviária, Você sempre reclama da superlotação, do trânsito e do caos que tiram seu sossego, roubam seu tempo e sua paz. Você reclama do vizinho que acha que trabalhar em casa é dormir o dia todo. Quando encontra a vizinha do 106, passa muito tempo maldizendo a moradora enxerida do 101 que não sabe o que diz, mas Você não visita seus pais idosos porque não tem tempo, trabalha demais. Você também está insatisfeito com a falta de atividades físicas, mas cadê tempo pra Você se mexer?

Desculpa, mas Você está se sabotando. Talvez, pra Você, fosse melhor bater cartão. Assim, Você reclamaria do chefe castrador e da falta de tempo com razão. Talvez assim, Você fosse infeliz com explicação.

Mas Você não tem explicação para continuar fazendo o que faz mal.

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Exagerei na descrição do Tradutor Sabotador? Claro que sim. Eu já fui Você? Em alguns aspectos, todo mundo já foi, é ou será.

“Você” tem solução? Sim, e tem pra já, é só começar.

Todos sabemos que trabalhar em casa pode ser uma benção, mas também um terror, se quisermos abraçar o mundo com as pernas e não soubermos filtrar o que deixamos entrar em nossa mente. Não, não é porque você “está em casa” que vai virar o quebra-galho ou motorista da família toda. Você pode se programar e reservar um tempinho do dia para ajudar sua mãe, por exemplo, sem que isso cause problemas em sua rotina. Você pode fazer uns intervalos pra falar besteira com os amigos, pra ligar para alguém, para ouvir música no último volume, claro. Acho que todo mundo já sabe disso. Mas a partir do momento em que você enche seu dia com coisas que só fazem mal ou que são inúteis, e sente que sua rotina é uma bola de ferro presa a seus pés, alguma coisa está errada. Dá pra crescer na profissão, mudar o estilo de vida, estudar, cuidar dos filhos e se aprimorar de qualquer modo que achar necessário administrando melhor o tempo. E, por incrível que pareça, tirar as distrações “do mal” e os obstáculos desnecessários é um passo importante, porque essas coisas tomam muito tempo, ainda que a gente não perceba.

E mesmo que sua rotina esteja linda, que você consiga fazer tudo o que quer e mais um pouco, por que continuar dando atenção ao que faz mal? Por que perder tempo com o que não acrescenta nada de bom? Vejo muitos colegas reclamando de coisas que poderiam facilmente ser eliminadas da vida para abrir mais tempo ao agradável, ao gratificante e até ao necessário, por isso achei que valeria a reflexão.

Então, a pergunta de hoje é:

O que faz Você infeliz?

 

 

 

 

 

 

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20 comentários sobre “O que faz Você infeliz?

    • É uma luta diária, Sidney, tem razão. E há dias em que estamos mais vulneráveis ao que nos faz mal, né? Parece bobo, mas podemos perder o dia pensando no que não queremos em vez de buscar o que queremos.
      Obrigada pelo comentário! Abraço.

  1. Excelente, Carol.

    Bela descrição da rotina de um tradutor, suas vantagens, desvantagens, sonhos e frustrações. Um texto inspirado e inspirador.

  2. Aos poucos estou aprendendo a deixar de ser “Você”, como é libertador. Amei o texto, Carol (como sempre)!
    Muitas vezes não percebemos como atribuímos ao outro os problemas que nós mesmos causamos, esse é o primeiro passo para uma vida verdadeira e de valor.

    • Obrigada, querida! O problema quase sempre está em nós, porque o que não nos atinge perde a força automaticamente. Duro é a gente conseguir enxergar que a alegria no nosso mundo só depende da nossa vontade. 🙂 Um beijão.

  3. Não adianta reclamar, porque Você não tem chefe para passar a mão na sua cabeça… O negócio é mudar o que não está dando certo para Você e encontrar a melhor maneira de planejar o seu dia. O importante é Você se conhecer bem, saber quando a sua produtividade é melhor e em quais áreas realmente se sente à vontade para trabalhar e render bem. O sucesso (e o sofrimento) do Você só depende de você…

    • Isso, Rafa! Quando penso em planejamento, penso muito em você, que sobe escada, masca chiclete e assobia ao mesmo tempo! Pra fazer tudo isso, só sabendo escolher bem ao que dar atenção. 🙂 Obrigada e um beijo.

      • E, um parênteses: desde que comecei a me organizar melhor, acabo me esquecendo dos pequenos estresses do dia. Alguém me fechou no trânsito? Às vezes passam-se dias até eu me lembrar do caso e mencionar para o maridão. Nessas horas, o planejamento e a atividade física me ajudam a deixar de lado o mimimi. Claro que há dias em que a gente acaba destampando a panela de pressão ―e os amigos ajudam muito a gente a voltar a ver o lado positivo das coisas num momento de desabafo―, mas na maioria das vezes dá aquela esbravejada momentânea e o assunto passa enquanto Você se ocupa com algo mais produtivo 😉

      • Perfeito, Rafa. Buscando o que nos faz feliz e ficando mais feliz deixando de lado as “infelicidades”. 😀 Beijos

  4. Adorei o post, Carol!!!! Muito bom para refletir. Acho que já fui “Você” por um tempo também, mas este ano já comecei diferente e estou fazendo mais atividades físicas (como já conversamos em outro post seu. Rs.). Agora darei mais atenção a isso e tentarei arranjar mais tempo para a família! É muito importante mesmo! Beijãoo

    • Isso, Alline! 2015 está sendo bem melhor para mim também! E aquela nossa conversa abriu meus olhos para várias coisas que estou pondo em prática este ano. Obrigada, viu? 😀 Beijão!

  5. Excelente, Carol.

    Bela descrição da rotina de um tradutor, suas vantagens, desvantagens, sonhos e frustrações. Eu já fui Você em muitos aspectos mencionados. Posso dizer que é uma luta diária deixar “vícios” de longa data, mas é possível. O sucesso ou fracasso ( sofrimento) depende somente de Você .

    Beijão

  6. Esse texto é incrivelmente relevante para quem trabalha em casa. E mais ainda para mim, neste momento específico. É tanto link para clicar, tanta “opinião” para ler todo dia, que a gente fica bem feliz, mas bem feliz MESMO, quando o clique e a leitura compensam. É este o caso. Muito obrigada!

    • Fico muito feliz com seu comentário, Mila. A gente passa o dia traduzindo ideias dos outros; é gostoso quando uma ideia nossa faz as pessoas pensarem ou se identificarem. Muito obrigada! 🙂 Beijos

  7. Bravo! Eu já cansei de ouvir: “Você trabalha em casa? Que beleza! Não tem chefe pra te encher!” Mas pouca gente percebe que a gente mesmo se vigiar e cuidar da própria produtividade quase sempre é mais difícil do que se tivesse alguém ali atrás cobrando o tempo todo, não?

    Eu estou me treinando para deixar de ser Você há um tempinho, mas confesso que dou umas boas recaídas vez ou outra; é inevitável. Mas no processo, a gente aprende a lidar com isso também — é sacudir a poeira e começar de novo. 😀

    Um abraço!

    • Oi, Maria Clara! Também acho bem mais difícil ter essa disciplina sozinha. E as recaídas sao frequentes. Um dia de cada vez, né? 🙂
      Obrigada pelo comentário e um abraço!

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