Ler por ler… Será que posso?

O ano finalmente vai começar. Não é o que dizem por aí, no Brasil o ano só começa de verdade depois do Carnaval? Então, chegou a hora, comunidade! E esse intervalo entre o fim do ano produtivo e o começo do novo ano? O que acontece nesse período? De minha parte, a coisa não muda muito. Já foi pior, já mantive o mesmo ritmo durante os doze meses do ano, inclusive em feriados e fins de semana. Este ano levei a sério a conversa que tivemos aqui no Ponte sobre mudanças e tirei alguns dias de folga. Folga de verdade, sem ligar computador, sem ficar preocupada com e-mail, nada disso. Tudo bem, foram os dias do Carnaval, alguns poucos antes do começo do feriado e os poucos dias úteis depois do feriado, mas já vale! E, como todo mundo, em alguns momentos dessa folga eu pensei em deitar na rede e ler um bom livro. Tudo bem, esquece a rede. Deitei no sofá para ler um bom livro. Escolhi entre os muitos títulos da enorme lista que fiz ao longo desse tempo de muito trabalho e (quase) nenhum lazer. Feliz da vida, me acomodei com as pernas para cima, literalmente, abri o livro, comecei a ler e… engasguei. Regência, colocação de pronomes, estilo… Nenhum erro grave, nada disso, mas briguei com a tradução. Briguei muito!

Fechei o livro e parei para pensar. Por que não consigo mais ler um livro traduzido? Simplesmente ler, sem analisar forma e soluções, só acompanhar a história e mergulhar nela como faz todo mundo que gosta de ler.

Bom, se ficou difícil ler o traduzido, vamos tentar alguma coisa no idioma original. Isso!

Escolhi outro livro, fiz um café bem forte, perfeito, me larguei no sofá e comecei a ler. Ah, agora vai! É, foi… até a metade do primeiro capítulo, quando percebi que, em vez de mergulhar na história como queria, eu parava em cada trecho mais complicado para pensar em que soluções eu daria se tivesse que traduzir. Como construiria o parágrafo para conseguir aquele mesmo efeito sonoro? Ai, meu Deus, aqui tem uma rima! O que eu faria com isso? E essa solução? Que gênio, eu nunca teria pensado nisso!

Parei de novo. Percebi que a coisa é mais feia do que eu pensava. Sou uma workaholic? Trabalhei tanto nos últimos anos que não consigo mais sair do modo tradutora e entrar no modo leitora? É compulsivo? Preciso de um terapeuta?

Estava pensando em tudo isso quando, por coincidência, vi aquela propaganda do bichinho da fome que aparece nas horas mais inconvenientes para atrapalhar o expediente, o passeio, o carnaval. Familton é o nome do carinha. Será que existe um Tradutoni? Você abre o livro para ler, e ele aparece sentado do seu lado, cutuca, grita, aponta uma regência que podia ser melhor, um pronome que não precisava estar ali. O Tradutoni perturba, atormenta, trunca a leitura e provoca as mais variadas emoções. Se o tradutor é conhecido, começo a me sentir culpada por ser intolerante. Se é amigo, meu Deus, como eu sou traíra! Se é desconhecido, a crítica ganha notas de crueldade. E, é claro, a culpa vem em seguida com a mesma intensidade. Para com isso, pode ser alguém sem experiência, todo mundo começa por algum lugar e melhora com a prática. Deixa de ser chata, lê seu livro aí, mala sem alça.

Resumo da ópera? Fui ao cinema, assisti a outros filmes em casa, dormi muito, saí em alguns blocos… mas não li nem um capítulo de coisa nenhuma. E agora você, querido leitor, deve estar pensando: tudo bem, mas e aí? Cadê a solução, como calar a boca do Tradutoni?

Então… eu ia perguntar a mesma coisa. Alguém sabe? Será que um iogurte resolve?

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14 comentários sobre “Ler por ler… Será que posso?

  1. Passei por isso durante muito tempo, viu. Vários anos lendo só a trabalho e, quando chegava a hora de ler por lazer, a cabeça não queria ver letrinhas pela frente.
    Comecei a reverter o quadro ano passado, selecionando títulos com boas recomendações de amigos (geralmente também tradutores) e infanto-juvenis (agora são “young adult”, né?) com leitura mais leve, pra realmente relaxar. Ainda assim, larguei livro traduzido pela metade e comecei o mesmo título no original. Faz parte, acho. Ossos do nosso ofício.

  2. Adorei! O Tradutoni está mesmo entre nós 😀

    Estou lendo (em doses homeopáticas) o volume 2 da biografia do escritor norueguês Karl Ove Knausgaard. A versão que estou lendo é em inglês e, mesmo não sabendo norueguês, sempre paro aqui e ali e sublinho alguma coisa no Kindle para pesquisar uma construção ou um vocabulário que me parece mais peculiar.

  3. Li seu post entre divertida e aliviada. Que bom saber que não o sou a única incapaz de ler sem acionar o modo tradutora. Mas continuo insistindo na leitura. Afinal, ainda amo ler.

  4. Fiquei um bom tempo sem ler quando o filho era pequeno, mas agora tenho mantido um bom ritmo.
    E, horror dos horrores, não só faço isso tudo como ainda mostro pro marido e comento.
    Não tem jeito, acho que tradutor é que nem bombeiro, sempre atento para detectar um problema, apagar um incêndio…
    Mas quando o livro é muito bom e envolvente, faço um acordo comigo mesma e me forço a me concentrar na história, até porque os problemas e (as soluções) às vezes vem da mãozinha do copidesque.
    Bom descanso e boas futuras leituras, Débora!

  5. Sempre li por prazer e nunca deixei que nada interferisse nisso. Continuo uma traça de livros e terminarei meus dias assim. Serei anormal?

  6. Hahahaha! Ótimo texto!
    Sou bem assim com os textos em português! Mas até que consigo ler sem ficar tão obsessiva. Desligo um pouco o “modo revisora” e entro no “modo leitora”. Desde, claro, que o texto esteja bem escrito, porque se vier cheio de erros… Xiii… Também preciso do iogurte! rs

  7. Como não consigo mandar o Tradutoni nem o Revisildo embora, resolvi juntar-me a eles. Continuo lendo fora do serviço, mas, embora seja lazer, não deixa de ser estudo: leio sempre com lápis na mão para anotar as soluções tradutícias que me vêm à cabeça e fazer as marcas de revisão cabíveis.

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