Viver de livros

Há alguns dias, estava pesquisando sobre um autor que estou traduzindo e encontrei um artigo que falava sobre o tradutor desse mesmo autor para o espanhol. Uma coisa me chamou a atenção. A autora do artigo se referia a esse tradutor como “um dos únicos tradutores que ela conhecia que vivia exclusivamente da tradução de livros”.

Por coincidência, recebi um e-mail recentemente de uma pessoa me perguntando se vivo apenas de tradução ou se tenho uma segunda profissão. Na visão dessa pessoa que me escreveu, seria impossível ganhar a vida só com tradução. E a coisa fica ainda mais feia quando se trata da tradução editorial, onde “só entra quem faz parte da panela” (palavras dela).

Bem, sou jornalista de formação, mas não exerço a profissão desde 2007, quando saí do jornal onde trabalhava e comecei a traduzir. Desde meados de 2008, vivo exclusivamente da renda de meus trabalhos como tradutora de livros. (Vez ou outra faço alguma tradução em outra área, mas é muito raro).

Não é impossível. Além de mim e dos meus colegas aqui do Ponte de Letras, conheço muitos profissionais que vivem apenas de tradução – e mais um bom tanto que vive exclusivamente de tradução de livros. Pode ser difícil no começo? Claro, ninguém está falando que é fácil. Mas impossível não é!

Em primeiro lugar, antes de colocar na cabeça que viver de tradução é algo inatingível, eu acho legal a pessoa se perguntar se tem o perfil para exercer essa atividade. Como já falamos inúmeras vezes aqui no Ponte, não basta apenas “saber inglês” (ou qualquer outro idioma) para ser um bom tradutor. Conhecer o idioma é apenas o começo.

Para ser tradutor profissional, é preciso ter uma série de qualidades, como por exemplo ser um ótimo leitor, ter capacidade avançada para pesquisa, ser curioso e desconfiado por natureza, ter um ritmo bom de trabalho (afinal, ganhamos por produtividade). No caso da tradução editorial, ainda é fundamental também ter um certo fôlego para lidar com projetos grandes (por menor que o livro seja, sempre será um trabalho extenso), ser consumidor ávido de literatura (conseguir compreender referências, conhecer os clássicos, ter repertório de leitura).

Além disso, como todos os profissionais, principalmente os autônomos, é preciso estar sempre se aperfeiçoando e procurando evoluir. É fundamental saber se apresentar, mostrar seu diferencial, conhecer o mercado de tradução, ter paciência com os altos e baixos, entender qual é o melhor momento.

Não adianta mandar um monte de currículos para endereços genéricos e ainda chiar porque não obteve resposta, fazer um teste de qualquer jeito e achar que a editora tem obrigação de dar um retorno.

Diferente do que muitos pensam, inclusive muita gente da área, não existe nenhuma “panela”, um grupo de escolhidos e beneficiados que, independentemente da competência conseguem traduzir todos os livros de todas as editoras. A simples ideia é um pouco absurda. O que existe são pessoas com um certo perfil e muita disposição para correr atrás de seus objetivos.

Anúncios

15 comentários sobre “Viver de livros

  1. Flávia, tudo bem?

    Parabéns pelo texto. O problema é crônico e não se limita apenas à tradução. Precisamos revisitar o assunto porque as crenças e ilusões teimam em sobreviver…

    Abraços

    • Olá, Ulisses.

      Que bom te ver por aqui. Espero que goste do blog.

      Pois é, esse assunto sempre é discutido nos fóruns, blogs e congressos, mas muitos ainda duvidam que seja possível. E você tem razão, o problema não se limita à tradução.

      Mas, infelizmente, é sempre mais fácil reclamar, duvidar e achar que não vai dar certo do que correr atrás, não é?

      Um abraço e volte sempre. 🙂

  2. Belo texto. Hoje vivo somente de traduções e revisões de texto que faço como microempreendedor. Yes, we can! Si, podemos viver só das letras 🙂

    • Olá Isaque. Que bom que gostou do texto. 🙂

      O caminho nem sempre é fácil, mas é claro que podemos viver só das letras!!
      Um abraço.

    • Olá, Sibele.
      Adorei sua visita ao Ponte de Letras. 🙂

      As pessoas nem sempre param para pensar nessa questão do perfil, não é? Tanto que existem muitos tradutores de “um livro só”. O que é diversão para uns pode ser uma tortura para outros.

      Apareça mais vezes.

      Beijos!!! :*

  3. Há muitos interessados, o mercado é limitado. Naturalmente, muita gente vai ficar de fora.
    Não é uma questão de esforço apenas ou de “correr atrás”. A vida não é um livro de autoajuda. Não basta querer. Muitos dos que estão no mercado não são tão bons assim. Aliás, a maioria não é.

    • Não, Michel, a vida é dura, de fato. Mas uma parte grande dela depende de nossa atitude, por isso dizemos que correr atrás é, sim, fundamental para entrar. No entanto, mais difícil do que entrar é se manter. Existem pessoas que não deveriam estar no mercado? Sim, mas isso não acontece só na tradução. O mercado vai eliminando os inadequados. Acreditamos que o segredo é focarmos no nosso desenvolvimento na profissão e deixar que o nosso trabalho fale por si. Em qualquer área.

      • Bem, ninguém diria que “correr atrás” não é fundamental. Daí a achar que basta são outros 500. Dizer que basta é ofensivo a tantos que tentam e não conseguem porque não há porta de entrada (veja bem, eu não estou falando de mim, tenho meus livros traduzidos, também por ter sido indicado). E a gente tem de ter um compromisso maior com a verdade do que em dizer coisas que “pegam bem”. O mercado funciona por meio de indicações e elas nem sempre têm critérios objetivos. O mercado tem um problema, defender essa justiça absoluta do mercado pode ser conveniente para acalentarmos a ilusão de que tudo é mérito. Mas estamos atrás da verdade ou de satisfazer ao nosso ego?

      • Olá, Michel.

        Que bom que você esclareceu que está tomando por base a sua realidade. Posso ter generalizado um pouco as coisas no texto, mas a intenção foi justamente mostrar que existe um outro meio e que qualquer um pode ao menos tentar entrar no mercado, contanto que tenha um certo perfil e as qualidades esperadas pela editora (que, como você bem disse, nem sempre são avaliadas por critérios objetivos e muitas vezes variam de uma para outra). Em nenhum momento eu disse que não existe a prática de indicações no mercado, nem mesmo que todo mundo que tentar entrar vai conseguir.

        Da mesma forma que você tomou a sua realidade por base, eu puxei a sardinha um pouco mais para a minha (e da maioria dos tradutores editoriais que que conheço). Das quatro pessoas que escrevem para esse blog, por exemplo, apenas uma fez seu primeiro trabalho de tradução para editoras por meio de indicação. Ainda assim, ouso dizer que entrar é o de menos, o problema é permanecer (vide as dezenas de tradutores de um livro só em cada editora), e é aí que entra a questão do perfil, às vezes até acima do talento.

        Não sei se você sabe, mas todos os posts do nosso blog são assinados e refletem a opinião de quem os assina. Nem sempre a opinião é comum a todos, e posso dizer com cem por cento de certeza que NUNCA são verdades absolutas (será que elas existem?). Fique à vontade para discordar sempre que quiser, pois o principal motivo da existência desse blog é a troca de ideias e a discussão produtiva. Só não entendi muito bem onde entra essa parte de “ego” e de dizer coisas que “pegam bem”. 😉

        Abraços e volte sempre.

  4. Sobre mérito, perfil e indicações: minha experiência editorial é pequena, com apenas um livro traduzido e publicado. Essa tradução eu consegui por mérito, por conhecer a editora das redes sociais (Orkut e depois Facebook) e um dia ela me chamar no Skype dizendo que tinha um livro pra traduzir que era a minha cara. Era mesmo, eu traduzi, adorei a experiência e decidi que, se aparecesse outra chance de tradução editorial, eu agarraria. Depois disso fui indicada umas duas ou três vezes para editoras diferentes, mas não deu em nada. E aí? Vou desistir? Vou ficar bravinha com quem não me chamou? Vou dizer que é culpa da panela? Nem posso, porque se já fui indicada eu sou, teoricamente, “da panela”. Vou é canalizar a minha energia para o trabalho, melhorar mais e tentar estar pronta para uma possível próxima vez. Se não houver uma próxima vez, vou continuar procurando outros caminhos, que foi o que fiz até hoje e tem dado certo.

    De resto, concordo com o texto da Flávia e já publiquei coisa parecida no meu blog: dá pra viver de tradução, e ninguém nunca disse que é fácil. Aliás, as melhores coisas não são mesmo.

  5. Olá!

    Sou estudante de Letras/Língua Inglesa. Eu sempre gostei muito de livros e desde nova, tenho a mania de ler nos livros: Tradução de “Fulano de Tal”.
    Comecei a pesquisar, e descobri a Tradução Editorial. E eu, simplesmente, me apaixonei por esse mundo. Gostaria de saber, se apenas com meu curso eu consigo me colocar na área, ou há algo a mais para isso?

    Desde já agradeço. E eu adoro o Ponte! 🙂

    • Olá, Isabel.
      Obrigada pela visita.

      Em teoria, não há exigência de nenhum curso específico para alguém ser tradutor. Mas, é claro, é necessário estudar bastante e se aprofundar nos idiomas com os quais você pretende trabalhar e, principalmente, estudar e conhecer profundamente o português. Além disso, é imprescindível ter uma sólida formação cultura e conhecimentos de literatura.

      Com isso em mente, acho que o curso de Letras foi uma ótima escolha. Para complementar, você também pode procurar alguns cursos e/ou oficinas específicos de tradução para ir aperfeiçoando a parte prática, caso a faculdade não ofereça disciplinas nessa área.

      Um abraço e volte sempre. 🙂

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s