Da página ao palco

Traduzir textos teatrais é diferente de traduzir qualquer outro tipo de texto? É quase certeza que todos diriam que sim. Afinal, traduzir contratos também é diferente, traduzir poesia, receitas, cada tipo de texto tem a sua particularidade. Isso não é nenhuma novidade. Mas quais são as particularidades da tradução de textos dramáticos?

Quando traduzi um texto teatral pela primeira vez, depois de já haver traduzido textos inteiramente diversos entre si, fiquei surpresa com as questões completamente novas e bastante desafiadoras que se apresentaram e que implicaram escolhas, decisões e estratégias muito peculiares. Uma delas foi como lidar com a imensidão de referências que havia no texto. Tratava-se de um texto contemporâneo (Closer, de Patrick Marber) cuja ação se passava em Londres e a cidade fazia parte do enredo, com diversos lugares e nomes mencionados. Como o objetivo final daquela tradução era ser lida e não encenada, pude me valer de notas do tradutor, explicando cada uma daquelas referências. Naquele contexto, essas explicações foram bastante valorizadas pelos envolvidos no projeto de montagem da peça, mas para levar o texto à cena, a conversa seria outra. E bem diferente.

O tradutor de um texto dramático, como qualquer outro tradutor, tem à sua frente apenas palavras impressas em papel. Entretanto, temos que lembrar que, se o texto for encenado, essas palavras serão ditas diante de uma plateia.

O espectador de teatro é um receptor mais passivo que um leitor. Enquanto este pode determinar o momento, o ritmo e o local da recepção, ir e voltar, esclarecer dúvidas e, no caso de textos teatrais, recorrer à lista de personagens quando quiser (em muitas peças Shakespearianas, por exemplo, este é um recurso bastante útil), o espectador não dispõe dessas possibilidades, e deverá compreender e assimilar o texto no momento efêmero da encenação.

Sabemos que o ato de traduzir não se limita a utilizar códigos linguísticos de uma ou outra língua; implica também traduzir culturas. E as culturas, assim como as línguas, não são homogêneas nem estáveis. Em outra tradução que fiz, da peça A Summer’s Day, de Jon Fosse, essa questão ficou muito clara. Fosse é norueguês e sua peça se passa em uma casa isolada no alto de um fiorde, “um dos mais profundos do país”, como descreve um personagem. A palavra mar é citada ao longo de toda a peça quando os personagens se referem ao fiorde. O mar de um fiorde decididamente não é o mar de uma praia brasileira e, ao ler esse texto, claramente percebemos essa diferença. O autor utiliza o ritmo, a repetição, a oscilação, e assim evoca o ritmo do mar, das marés, das ondas que vão e vêm, e com isso nos permite perceber a dimensão da grandiosidade do mar de um fiorde, da pequenez do ser humano diante dele, do medo que ele pode provocar. Não há como saber, exatamente, que imagem vem à mente de um norueguês quando ouve a palavra mar. Mas acredito ser possível afirmar que é diferente da de um brasileiro. Para traduzir esse texto para a cena brasileira, devemos, então, ter em mente o horizonte de expectativa do nosso espectador e, de alguma forma, ampliar seu leque de associações à palavra mar.

Há outros dois aspectos fundamentais da tradução teatral: sonoridade e ritmo. Sem dúvida são aspectos importantes em qualquer tradução, mas que são ainda mais importantes na tradução para a cena. E a melhor forma de lidar com eles durante o processo tradutório é ler e reler a sua tradução em voz alta. Naquela minha primeira tradução teatral, fiz isso por pura intuição e só depois me dei conta da real importância dessa prática. Clarice Lispector escreveu um texto chamado Traduzir procurando não trair no qual relata sua experiência de tradutora teatral e fala da necessidade de uma “exaustiva leitura da peça em voz alta para podermos sentir como soam os diálogos”.

É através dessa leitura que evitamos armadilhas com relação à sonoridade, como por exemplo a cacofonia, que é mais percebida auditivamente que visualmente. Se lemos exemplos clássicos de cacofonia, como “a boca dela” ou “uma mão”, talvez não percebamos a formação das palavras cadela e mamão. Mas se ouvimos essas combinações, as novas palavras dificilmente passarão despercebidas.

Trava-línguas também não são boas companhias para textos teatrais. Em uma tradução recente escrevi o seguinte: “não entrei pra polícia pra patrulhar”. Tente dizer isso em voz alta, pensando que a personagem está discutindo com seu parceiro, cheia de raiva. Difícil não tropeçar, não é?

O ritmo, como vemos na nossa prática diária, é importante em qualquer tradução e há diversos fatores que podem alterá-lo. No caso de textos dramáticos, ele é bastante afetado pelo tamanho das falas e, por isso, é importante tentar ao máximo manter uma equivalência com o original porque, como afirma Robert Corrigan em seu texto Traduzindo para Atores, “a duração per se de um enunciado no palco é parte do seu significado”.

Há, sem dúvida, muitas outras questões envolvidas na transposição de um texto dramático de um idioma a outro, e cada tradução apresentará suas próprias particularidades.

Mas, para finalizar, quero lembrar que o primeiro passo da longa jornada da página ao palco é dado por nós, tradutores. Boa viagem!

Cláudia S. Cruz – Tradutora especialista em dramaturgia

http://www.companhiadapalavra.net/

Anúncios

6 comentários sobre “Da página ao palco

  1. Petê, tive o prazer de traduzir o texto/poema de uma apresentação de dança/teatro que seria exibido em slides enquanto a daçarina/atora se apresentava. Além dos desafios que você menciona, tive também que lidar com ritmo e tempo, o que fazia a escolha das palavras algo muito, muito especial.

    O trabalho foi apresentado em São Paulo e muito bem recebido. Para mim o melhor cumprimento veio da própria autora que fala português e se emociounou com o trabalho final. Trabalhamos juntas por razões óbvias, assim que foi possível inserir suas emoções mais diretamente no projeto.

    Foi uma experiência e tanto.

    • Gio, obrigado pelo comentário. O post foi erroneamente publicado no meu nome, a responsável pelo texto é a Cláudia S. Cruz, tradutora especialista em dramaturgia. Daqui a pouco ela aparece aqui para comentar, mas deve ser uma experiência e tanto, como você mesma disse. 😉

    • Oi, Gio, essa sua experiência deve ter sido muito especial mesmo! Esse trabalho conjunto com a criação do espetáculo é muito gratificante, não é? Ver/ouvir as palavras que traduzimos se materializando na voz e no corpo dos atores é uma experiência única!

  2. Parabéns pelo texto, Claudia, eu adorei! Sempre tive curiosidade para saber um pouco mais sobre o trabalho de quem trabalha com dramaturgia. Obrigado por compartilhar!

    • Obrigada, Thiago! Fico feliz de saber que pude satisfazer um pouquinho da sua curiosidade. 🙂
      Gostei muito da oportunidade de dividir com vocês a minha experiência!

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s