Traduzir culinária não é bolinho!

Traduzir textos culinários não é muito diferente de traduzir qualquer outro texto: a receita está nos detalhes. O conhecimento dos ingredientes e das técnicas ajuda muito a decifrar várias expressões que parecem banais, mas não são.

Por exemplo, é bom saber a diferença entre refogar, fritar, selar, saltear e grelhar. Sovar, empanar, sous-vide, ramequim e boleador são algumas palavras que devem fazer parte do seu repertório. É útil poder discernir uma caçarola de uma frigideira, wok ou caldeirão. Tradicionalmente dizemos coentro ou mostarda em grão (coriander seeds e mustard seeds), mas para cominho, usamos sementes (cumin seeds). Minha “teoria/intuição” é que os redondinhos são grãos e os compridinhos, sementes; podem me corrigir se eu estiver errada. O conhecimento de que palm sugar é açúcar de palma, que ele vem em bolas e se parece com rapadura não é essencial, mas com um pouco de pesquisa chegamos lá e então entendemos por que ele deve ser ralado na maioria das receitas.

Existem certas expressões muito traiçoeiras em inglês, como cook gently, que diferentemente do que pode parecer, significa “cozinhe em fogo brando ou cozinhe em fogo baixo”. Mincemeat não é carne moída como alguns desavisados podem supor, mas uma mistura de frutas desidratadas com gordura animal. Chinese leaves ou Chinese cabbage deve ser traduzido como acelga. Já bok choy é couve-chinesa – que pode ser encontrada com certa facilidade em feiras em São Paulo ou no bairro da Liberdade, mas duvido que possa ser adquirida em outros locais. De qualquer modo, ela pode ser substituída sem grandes problemas de textura e sabor pela acelga, principalmente pelos talos. Fry pode ser refogar ou fritar, dependendo do contexto.

Head of lettuce deve ser traduzido como pé de alface. Head of cauliflower como couve-flor, head of celery e head of fennel, por bulbo de aipo e de funcho, respectivamente. Lembro ainda que em São Paulo usamos salsão e erva-doce para eles. Alguns guias pedem para usarmos o termo mais genérico na tradução. Haja cabeça para lembrar tudo isso!

Adoro certas expressões típicas de receitas, como “cozinhe em fogo brando”, “deixe levantar fervura”, “apure em fogo médio”, “reserve a massa para crescer”, “mexa bem para não embatumar”, mas nem todos os editores apreciam essas expressões mais antigas.

Se não souber algo, pesquise bastante, a internet é uma fonte inesgotável de informações, mas usá-la com critério é fundamental. Não acredite cegamente no que diz o Google; verifique duas vezes cada informação. Veja em que contexto a expressão aparece. Seria uma fonte confiável? Às vezes o uso do Google Images resolve alguma pendência com bastante facilidade.

Há alguns anos telefonei para o supermercado Santa Luzia para obter informações sobre produtos aparentemente inexistentes no Brasil e recebi uma boa aula sobre crème fraîche; a compradora de lá – muito gentil – conhecia a textura e foi bem exata na sua descrição, embora o produto não possa ser importado, justamente por ser muito delicado. A receita de como produzir sabor e textura semelhantes misturando ⅔ de creme de leite natural com ⅓ de iogurte foi conseguida em blogs culinários. Atualmente parece que há uma empresa de Minas que faz o produto, mas ainda não deve ser acessível para a maioria dos mortais. As receitas de sour cream e lemon curd caseiros também foram encontradas com facilidade com a ajuda do todo-poderoso Google.

Com a dica de um dos donos do Ton Hoi, restaurante chinês de São Paulo, que costumo frequentar, visitei um mercadinho oriental, Mei Sim, no bairro da Liberdade, para obter informações sobre culinária chinesa. Para minha surpresa, Linda Chen me mostrou a maioria dos ingredientes exóticos presentes no livro a ser traduzido, diversas linguiças de pato e de sangue de pato, tofu fermentado, todos os tipos de macarrão possíveis e imagináveis, nata de soja (yuba), castanhas d’água e até frutas e legumes típicos enlatados. Recebi a informação de que até ostra seca, abalone enlatado e ninhos de andorinha podem ser encontrados, principalmente na época do Ano-Novo chinês – iguarias básicas para essa comemoração. Lá descobri que black bean sauce, que tantas vezes vi traduzido como molho de feijão-preto, na verdade, é molho de soja-preta. Infelizmente, ao abrir o livro agora para pegar a informação sobre a mercearia chinesa, vi que os editores/preparadores modificaram o item para molho de feijão-preto, apesar de eu ter deixado uma nota. Isso acontece com bastante frequência, são muitas cabeças diferentes manipulando o texto, ficamos chateados com a mudança, mas faz parte da vida de um tradutor.

Agora, essa curiosidade de pesquisar e escarafunchar move o bom tradutor de qualquer área. No mundo globalizado é cada vez mais fácil adquirir a maioria dos ingredientes secos e molhos via internet, mas algumas editoras podem pedir substituição ou sugestão de alternativas para legumes ou frutas típicas, por exemplo. Embora muitos julguem que não cabe ao tradutor fazer esse tipo de alteração, o fato é que ter noção suficiente para fazê-lo sem prejudicar a receita sempre ajuda o editor. As circunstâncias também mudam muito: há alguns anos procurei cranberry seco no Brasil, não encontrei em nenhum local, hoje é possível comprá-lo até em sacolões! O mesmo se aplica ao goji berry, totalmente desconhecido até há bem pouco tempo, mas devido às suas alardeadas propriedades medicinais, hoje em dia é vendido praticamente em qualquer lugar.

Para quem traduz do inglês, outra dificuldade pode ser a conversão para o sistema métrico. Atualmente a maior parte das receitas costuma estar nos dois padrões, facilitando a vida do tradutor. Se não estiver, muito cuidado com as conversões. Uma boa pitada de “desconfiômetro” também ajuda muito. Siga sempre seu instinto e filtre bem as informações. Já peguei receitas que sugeriam o uso de 1 colher (sopa) de cominho em uma porção pequena de legumes! É óbvio que deveria ser 1 colher (chá) – que mesmo assim eu acharia excessivo para o nosso paladar brasileiro.

Obtenha um bom equilíbrio de coesão na linguagem e objetividade do vocabulário. O maior problema nesse tipo de texto é que ele precisa caber em espaço bem limitado; as ilustrações costumam ocupar boa parte da página, sobrando pouco espaço para o texto e, além disso, simplificar a linguagem nas instruções garante um bom entendimento. O seu editor vai lhe agradecer.

Finalize com o bom senso que deve acompanhar a execução de todas as traduções. Evite a repetição de pronomes e artigos desnecessários. Siga as normas gramaticais e verifique bem toda a terminologia. Uma boa revisão após o trabalho feito também é essencial para aparar as arestas do seu trabalho. Uma tradução redondinha é fundamental.

Sirva a sua tradução com uma boa pitada de estilo na introdução do livro e nos parágrafos de apresentação das receitas. E voilà, sua receita está prontinha!

Áurea Akemi Arata

Tradutora com mais de 85 livros traduzidos, 35 deles na área de culinária

goldensea@uol.com.br

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6 comentários sobre “Traduzir culinária não é bolinho!

  1. Adorei as dicas! Já traduzi vários livros de receita e sei bem como são os perrengues. Obrigada pela generosidade.

  2. Estou traduzido programas de culinária chinesa, e seu artigo acabou de me ser muito útil. Agradeço por compartilhar!

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