Cadê o público-alvo que estava aqui?

É fato: nunca se traduziu tanto para uma faixa etária específica. Os YA (Young Adult, aqui meio “espremido” na faixa adolescente) pipocam em todas as livrarias há anos, e não é difícil encontrar blogueiros ainda muito jovens comentando todo esse material e, tremam, sua tradução.

Se criança não tem pena, adolescente chega a ser cruel quando não gosta de alguma coisa. Traduzir esse tipo de literatura é uma delícia. Fiz uma sequência considerável de livros para esse público, e foi muito gratificante receber o feedback (quase imediato) da garotada. Eles caçavam os tradutores nas redes sociais, queriam falar sobre a obra, sobre como foi traduzi-la, se havia contato com o autor, se eu podia autografar a obra traduzida, enfim… uma massagem diária no ego de qualquer profissional solitário e meio anônimo, como foi o tradutor até pouco tempo atrás.

Hoje diminuí bastante minha atuação nesse gênero. Acho que diversificar é sempre bom para ampliar vocabulário, campo de pesquisa e área de conhecimento. Não recuso YA, é claro, mas tenho procurado traduzir outras coisas, inclusive não ficção. Mas, como faço com todo material que traduzo, procuro acompanhar a chegada do livro ao mercado, saber como foi aceito, descobrir se alguém comentou a tradução. Podem chamar de masoquismo. E, de uns tempos para cá, tenho percebido que o clamor com que os livros são recebidos pelos jovens não é mais o mesmo.

Não tem mais novidade? Depois dos vampiros, das crianças aventureiras e dos dramas adolescentes que explodiram há alguns anos, é difícil mobilizar esse público com outros assuntos?

Acho que não. O problema é que “esse público” cresceu. A garotada que se apaixonou pelo vampiro romântico e se dividia em “team X e team Y” para torcer por ele ou pelo lobisomem enquanto esperava o próximo livro da série hoje está na faculdade, tem outros interesses. As meninas que vestiam o uniforme dos alunos de Hogwarts para esperar a pré-estreia de mais um filme da saga do bruxo mais famoso do mundo hoje são profissionais, algumas já são mães. Os blogs dessa turminha, ou os que ainda existem, agora analisam a recente enxurrada de eróticos e outro tipo de material traduzido e publicado.

E isso é problema do tradutor? Não exatamente, mas, de certa forma, sim. Comecei a traduzir um YA há poucas semanas e me peguei pensando que era hora de pesquisar novamente o vocabulário, andar de metrô, ouvir conversas nas ruas. Se eu traduzir como traduzi há seis, sete anos, quando comecei a conhecer esse universo, não vou chegar nem perto do nível de adequação de vocabulário que consegui garantir naquela época. Ué, mas continua sendo um livro para adolescentes, não? Sim. O que mudou foram os adolescentes. Aqueles viraram adultos. Os de hoje são outros. Iguais em essência, mas diferentes nos detalhes. E são esses detalhes que fazem a diferença em uma boa tradução.

Traduzir YA (e infantil) é saber que você nunca vai escrever duas vezes para o mesmo público-alvo. Porque ele cresce antes de você começar o próximo livro. Simples assim.

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