Dez dicas para o tradutor autônomo

Grande parte dos tradutores que conheço são autônomos, principalmente aqueles que trabalham com livros, pois são pouquíssimas as editoras (se é que existe alguma – eu não conheço!) que mantêm funcionários internos para esse tipo de serviço.

Já falamos em vários textos aqui no Ponte de Letras sobre as vantagens e desvantagens de se trabalhar por conta própria, fazer os próprios horários e não ter a cobrança direta de um chefe. Hoje eu pretendo abordar um aspecto mais prático dessa modalidade de trabalho: como organizar seu home-office e sua rotina de autônomo a fim de tirar o maior proveito possível de toda essa flexibilidade, sem comprometer a saúde e a sanidade.

 (Sim, esse é um post-lista! \o/)

 (1) Tenha seu próprio canto (de preferência com porta)

A menos que você more sozinho, o ideal é ter um cômodo (pode ser até o quartinho dos fundos) específico para trabalhar. Por mais que às vezes seja gostoso trabalhar no sofá, ou até mesmo no quarto, é mais fácil entrar em “modo trabalho” e se concentrar em uma atividade estando em um ambiente adequado. Além do mais, isso contribui para que aqueles que compartilham a casa com você (marido, pais, amigos, filhos) “visualizem” que você está realmente trabalhando e respeitem um pouco mais seu espaço, evitando interrupções e barulhos que possam prejudicar sua concentração e foco.

(2) Invista em móveis e equipamentos de qualidade

O mínimo que eu considero necessário é um bom computador, internet rápida e estável, uma mesa de altura adequada ao seu tamanho e uma ÓTIMA cadeira.

Muita gente negligencia essa parte e acha que basta um computadorzinho com Word e uma poltrona qualquer na sala para começar a traduzir. Certo, dá para começar assim mesmo, mas uma vez inserido no mercado, com trabalho constante, você vai ficar no mínimo (veja bem, no mínimo) umas oito horas do seu dia sentado, olhando para uma tela, digitando. Se a mesa for alta demais, a cadeira não tiver apoio para os braços e o monitor do laptop te obrigar a ficar com o pescoço em uma posição desconfortável, por exemplo, em menos de seis meses o corpo vai começar a gritar por ajuda.

O mesmo vale para o equipamento. Além da questão ergonômica (monitor em altura adequada, teclado confortável etc.), seu computador também tem que ter um processador relativamente rápido, uma boa capacidade de armazenamento e suportar a instalação de todos os softwares que você vai precisar, como dicionários, CATs, conversores e outros aplicativos. O computador é sua principal ferramenta de trabalho e não pode te deixar na mão.

 (3) Se possível, vá um pouco além do mínimo

Além dos itens citados acima, acho importante ter em seu escritório um nobreak para momentos de queda de energia (acontece mais do que a gente gostaria), uma impressora e um scanner (para imprimir contratos, digitalizar documentos para cadastro, entre outros usos), um HD externo para backup (falarei mais sobre backup em seguida) e um bom fone de ouvido (conhece aqueles que bloqueiam ruído? São ótimos!)

(4) Backup do backup do backup do backup (ou nunca coloque todos os ovos na mesma cesta)

Exagero? Sim, isso mesmo. Só quem já perdeu um trabalho, ou parte dele, sabe como é frustrante. Mas isso pode ser evitado facilmente se você tiver o hábito importantíssimo de fazer backup. Pode ser em outro computador, em um HD externo, em um pen drive ou na nuvem. De preferência, em mais de um (ou em todos – se você for meio neurótico como eu). Por padrão, todos os meus arquivos já ficam dentro do Dropbox (além dele, você pode utilizar serviços como iCloud, Copy, GoogleDrive, OneDrive). Como eu uso mais de um computador com frequência, além do backup de segurança, a “nuvem” faz com que eu tenha tudo sincronizado nas duas máquinas, além de poder acessar de qualquer outro computador (ou até do celular) via web, caso seja necessário. Além disso, meu computador principal está programado para fazer, de hora em hora, um backup automático da máquina toda (isso inclui aplicativos, preferências de configuração…) em um HD externo. Como diz o velho ditado: é melhor prevenir do que remediar.

(5) Tenha mais de um computador

Eu sei que não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ter mais de uma máquina. Essas coisas custam caro! Mas e se (toc-toc-toc) algo acontecer ao seu computador de trabalho? Defeito, vírus, roubo? Vale a pena correr o risco de perder dias e dias de trabalho? A menos que você tenha seguido o item 4 ao pé da letra e esteja com o backup super em dia E tenha acesso fácil e imediato a um outro computador (emprestado?), acho que é uma dica bem válida.

 (6) Faça exercícios físicos

Sim, você tem tempo! Pare de arrumar desculpas. Aproveite aquele período “meio morto”, que você já sabe que o trabalho não rende bem. Pode ser uma caminhada pelo bairro mesmo, assim você evita a segunda desculpa mais comum depois da falta de tempo, a falta de dinheiro. Eu sofria com dores no ombro e nos braços e nem a cadeira super-ultra-mega-blaster resolveu. Agradeço ao Pilates pela graça alcançada.

(7) Faça intervalos

Mesmo se a tradução estiver rendendo bem, se obrigue a parar e fazer intervalos regulares. Você pode até dar uma olhadinha no Facebook, ler um post do Ponte de Letras (hihihi), mas não se esqueça de sair um pouco da frente do computador. Dê uma volta pela casa para alongar as pernas, beba água, olhe pela janela, regue as plantas, tome um cafezinho. Certamente o trabalho vai render ainda mais e você vai se sentir mais disposto a continuar.

(8) Não se isole

A gente sabe que a tradução é um trabalho solitário, que exige silêncio e concentração, mas não é por isso que precisamos passar dias e mais dias fechados no escritório, sem falar com ninguém. Todos temos rotinas corridas, sei que não dá para ficar saindo toda hora, mas podemos (e devemos) tirar um tempinho para bater um papo com amigos, trocar ideias com colegas de profissão, participar de grupos de discussão, encontros. Muita coisa pode ser feita virtualmente mesmo, mas é legal dar um jeitinho de tirar alguns dias por mês para encontros reais, mesmo que seja apenas um cafezinho ou almoço rápido.

(9) Programe seu dia

Trabalhar por conta própria exige disciplina. Ter horário flexível não quer dizer não ter compromissos, metas, cota. Podemos sim, tirar proveito dessa flexibilidade, mas sempre tendo em mente que o trabalho precisa ser feito, o compromisso precisa ser honrado, a cota precisa ser cumprida. Sem organização, o trabalho tende a virar uma bola de neve e a qualidade ou o prazo podem (e vão) ser comprometidos. Tire quinze ou vinte minutos no início de cada dia (ou no fim do dia anterior) para programar exatamente tudo o que você pretende/ precisa fazer e tente não sair da linha.

(10) Tenha um plano B

Falar é fácil. Fazer uma lista de tudo o que um autônomo precisa fazer para se dar bem trabalhando em casa é mais fácil ainda. Mas, na hora do “vamos ver”, as coisas podem não sair conforme o planejado. Pode ser uma reforma no vizinho, falta de energia elétrica, problemas com a internet, barulho na rua, dedetização no prédio. Mil coisas podem nos obrigar a sair da rotina que arquitetamos com tanto cuidado. E precisamos estar preparados para isso. O plano B pode ser trabalhar na casa de um amigo ou parente, em um café aconchegante (com wifi, é claro), não importa. Só não dá para ficar sem trabalhar, não é mesmo?

Esqueci alguma coisa? O que não pode faltar na rotina e no home-office de vocês?

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11 comentários sobre “Dez dicas para o tradutor autônomo

  1. Ah, Flávia, estou vivendo esse pesadelo. No meio de um trabalho importantíssimo, meu HD pifou. Sem chance de ser reavivado… Deadline pertinho, outro trabalho com prazo curto e embora tenha nuvem, HD externo, nunca uso. Bem, pelo menos os trabalhos que estou fazendo sempre passo para o pendrive… E tenho um laptop. Mas e as fotos acumuladas????
    Gostei muito de seu post. Serviu de estímulo para voltar à ginástica…

    • Oi, Fátima.
      Obrigada pelo comentário. Que bom que você gostou do post.

      Ai, que droga essa história do seu HD. Infelizmente, só depois dessas “desgraças” que a gente se dá conta da importância do backup. Ainda bem que você tinha esse trabalho no pen drive e espero que consiga recuperar suas fotos.

      Ah, e VOLTE À GINÁSTICA!!

      Volte sempre! 🙂

  2. Falta o HD externo, falta o HD externo (repetindo para mim). Faço backup a cada 15-30 min, então os arquivos de trabalho eu não perco, mas já perdi o HD duas vezes (aplicativos, fotos, favoritos, etc.) e ainda não aprendi a lição. Sobre o Plano B, outra coisa que faço no caso de livros (prazos relativamente grandes) é não contar os fins de semana quando calculo as cotas diárias. Assim, dá para compensar no sábado e domingo se houver imprevistos durante a semana (e sempre há). Bom post!

    • Olá, Cecilia.

      Obrigada pelo comentário. Fico feliz que você tenha gostado do texto.

      Eu também tento não contar sábados, domingos e feriados e tento não fazer um cronograma muito “justinho”, deixando uns dias no final. Mas, na prática, esses dias acabam “entrando na dança” por conta dos imprevistos. Como você disse, eles SEMPRE aparecem. Hehe.

      Beijos e volte sempre!

  3. Flávia, muito obrigada pelas dicas do post! Na verdade, para mim será um manual que vou seguir a risca, de tão importante que considerei suas sugestões! Estou trabalhando profissionalmente como tradutora desde maio, e muitas das suas sugestões eu já estava tentando aplicar, mas sem muita disciplina, e sem saber se estava indo pelo caminho certo, pois como vc disse, o trabalho pode ser solitário, e eu não estou socializando, por isso não tinha base para saber se estava no caminho certo. Agora que vi que estou no caminho certo, vou seguir a risca os itens, principalmente o 8 rsrs. Muito obrigada!

    • Olá, Leilah.
      Obrigada pelo comentário.
      Que legal que você gostou das dicas. Desejo muita sorte na sua nova jornada como tradutora.

      Volte sempre ao Ponte de Letras.
      Um beijo.

  4. Olá Flávia,

    Descobri o seu blog hoje. Muito boas as suas dicas. Eu preciso voltar a fazer exercíos físicos, pois, sempre que eu faço isso, volto a trabalhar com mais motivação.

    Abraços!

    • Obrigada pelo comentário, Luciana.

      Eu acho que os exercícios físicos são fundamentais para qualquer pessoa, mas principalmente para quem passa muitas horas na mesma posição, como é o caso dos tradutores. Às vezes dá preguiça, mas compensa fazer um esforcinho, não é?

      Abraços e volte sempre. 🙂

  5. Sou formada em Letras (port/espanhol) e estou buscando outras oportunidades. Gostaria de trabalhar com tradução mas me sinto isolada, não sei por onde começar. Alguém pode me ajudar?

    • Olá, Tatiana.
      Muitos profissionais autônomos se sentem isolados. Essa é uma das desvantagens de se trabalhar em casa, ou sozinho em um escritório.
      Um jeito de contornar essa situação é participar dos grupos de tradutores na internet, onde é possível interagir com profissionais mais experientes, ou mesmo iniciantes. É legal também ficar de olho nos cursos e eventos de tradução, assim você poderá conhecer gente de “carne e osso” – Hehe. O Congresso da Abrates é uma ótima oportunidade de conhecer mais gente da área, aprender coisas novas e discutir sobre tradução. Esse ano vai ser em São Paulo, no início de junho. Dê uma olhadinha no site: http://www.congressoabrates.com.br

      Quem sabe não nos vemos lá?

      Abraços e obrigada pela visita.
      Volte sempre

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