O original, o (des)pudor e a tradução

Uma das coisas mais básicas e mais certas que aprendi na faculdade de tradução, logo que comecei a estudar, foi que tradutor não deve ter pudor. Para mim, sempre fez muito sentido. Eu não sou o que estou escrevendo, sou só a mensageira, quem passa o recado de lá pra cá. Mas, ao longo dos anos, encontrei colegas que, assim como eu, concordam totalmente com essa ideia e outros que acham a teoria muito linda, mas a prática não funciona muito bem.

Existe o pudor em relação a textos de cunho religioso, de cunho político, em relação a vários tipos de texto, mas, nos últimos anos, com a onda dos mil tons de todas as cores que andam pintando por aí, o pudor com os textos eróticos tem marcado presença.

Quem tem pudor simplesmente não aceita a tradução, a vida continua e novos trabalhos aparecem.

Mas quem já teve a chance de traduzir um texto desse gênero, sabe que, muitas vezes, o pudor passa a ser o menor dos problemas num texto maçante e repetitivo, feito para vender como água e alimentar um nicho do mercado. Não precisa ser um texto marcante, uma história tocante, nem deixar sensações inebriantes. Tem que ser uma história ousada, com personagens que se encaixem no ideal do imaginário popular. O cara grosseiro e ogro que, ao se apaixonar, passa a ser um lorde carinhoso. A mocinha recatada que consegue pôr as manguinhas de fora e expressar seus desejos dando uma banana às pressões da sociedade. Essas coisas. E o tradutor se vê no difícil trabalho de repetir cenas bem parecidas, com vocabulário sempre igual, em várias partes do livro. E começa a se perguntar se não seria superlegal da parte dele dar uma melhorada no texto. O autor sairia com uma imagem melhor, talvez? A editora ficaria contente?

O fato é que não dá para mudar o estilo do autor simplesmente porque “eu acho melhor”. Estilo, cada um tem o seu, você pode me dizer. Sim, tem, por isso, entre outros motivos, a tradução traz perdas e ganhos. Mas o autor vai nos guiando ao longo do trabalho. O tradutor atento sabe quando está fugindo do que o autor propôs. Por isso, acho válido buscar sinônimos para palavras repetidas, desde que dentro do nível semântico original. Então, num texto erótico, existe diferença entre “erection” e “cock”. Não funciona pesar a mão para traduzir o primeiro e colocar uma palavrinha discreta para o segundo. É preciso analisar o sentido e o peso da palavra e, com essas diretrizes, escolher uma tradução que se encaixe.

Numa série erótica, soube de leitoras enfurecidas que entraram em contato com a editora pedindo um texto mais malicioso, “porque não somos criancinhas”, elas disseram. A orientação da editora ao tradutor, então, foi para que ousasse mais. Mas o vocabulário do autor permitia a ousadia, e as leitoras que conheciam o texto original perceberam isso. A reclamação se devia ao fato de a editora brasileira estar suavizando uma coisa que era propositalmente mais hardcore.

Conversar com a editora é sempre o começo de tudo. Saber o que esperam do texto. Ter a certeza de que você vai entregar o que eles querem para o livro em questão. Sim, porque pode acontecer de eles quererem uma “adaptação”, que seria mudar levemente o original para se manter dentro dos limites da edição brasileira. Caso não haja restrições, existe uma boa e importante pergunta que o tradutor deve fazer a si mesmo ao longo de um trabalho: se o autor soubesse português, conseguiria reconhecer seu texto ou veria aqui uma história bem diferente da que escreveu?

 

 

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2 comentários sobre “O original, o (des)pudor e a tradução

  1. Excelente ponto, Carolina. Triste, mas é fato antigo. A Disney, p.ex., tinha uma lista enorme de palavras tabu, aliás, em inglês também (na legendagem e dublagem, então, a patrulha era braba). Alguns ótimos tradutores largaram a Disney por isso. Outros, tão ótimos quanto, aceitaram trabalhar pundonorosamente amaciando o texto.

    Enfim, se o assunto te incomoda, não aceite. Vale para qualquer pudor: não traduzo para a indústria de tabaco, de armas… não traduzo temas “apimentados”. Você decide. Otherwise, ajoelhou, tem que rezar!

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