Questão de bom senso

Em setembro, o Ponte de Letras participou do V Congresso Internacional de Tradução e Interpretação da ABRATES. Fomos muito bem recebidos por todos e pudemos rever amigos e colegas de profissão, assim como conhecer muita gente nova, entre as quais (ficamos felicíssimos em constatar) muitos leitores do blog.

Foi muito gostoso poder conversar com gente que nos lê, ouvir comentários sobre textos antigos publicados, como se nos conhecêssemos há tempos. Mas também passamos por situações, para dizer o mínimo, peculiares. Não foram poucos os que se aproximaram simplesmente para “pedir trabalho” (assim mesmo, “do nada”) como se fôssemos algum tipo de distribuidora de laudas literárias. Uma moça chegou para mim e disse que morria de vontade de traduzir um livro e queria saber se “era só falar comigo”(?!?). Quando expliquei que eu era apenas uma tradutora e que ela teria que entrar em contato com as editoras, achou que eu estava de má vontade e que era “difícil demais”. Teve gente pedindo para eu passar todos os contatos das editoras para as quais trabalho e, pasmem, gente querendo “dividir” livro (“ah, mas você pode me passar uma parte e a editora não precisa nem saber”). COMO ASSIM?

Algumas pessoas, por conta da correria nos dias do congresso e o pouco tempo entre uma palestra e outra, optaram por entrar em contato por e-mail ou nos adicionar no Facebook. A maioria foi muito simpática e algumas mensagens renderam papos produtivos. Pois bem, eu estava no meio de uma conversa com a tradutora Jéssica Alonso quando ela disse: “posso aproveitar para fazer uma pergunta?”. Jéssica, não me leve a mal, eu ainda não te conhecia, mas na hora gelei e pensei: “Lá vem mais um daqueles pedidos”.  E não é que me surpreendi com a sensatez da moça? Achei tão legal que imediatamente pensei em escrever este post.

A pergunta dela foi:

Eu sou bailarina e gostaria demais de lidar com textos da área da dança. A produção estrangeira é muito grande, mas quase nada é traduzido para cá. Você acha que valeria a pena fazer um levantamento das editoras que lidam com livros do tema e me apresentar pra eles de verdade (primeiro por telefone, depois pessoalmente, se possível) oferecendo meus serviços?

E não é que ela acertou na mosca? As editoras (cujas equipes, em geral, estão sempre muito ocupadas) recebem diariamente dezenas de currículos, muitos deles sem nenhuma apresentação, de gente que diz apenas que “queria muito traduzir um livro”. Sentimos na pele esse tipo de abordagem no congresso e posso garantir que ela não leva a nada. Veja a ideia da Jéssica: (1) Ela tem muito conhecimento em uma área (é tradutora e bailarina), (2) pesquisou e sabe que existem textos da área produzidos no exterior, (3) pensa em procurar editoras cujo catálogo seja compatível com o que ela pretende traduzir, (4) pretende se apresentar de maneira adequada, oferecendo um serviço específico, que ela já sabe que pode ser de interesse daquela editora em particular.

Percebe a diferença entre tudo isso e um CV jogado em uma caixa de e-mail com uma mensagem genérica (ou sem mensagem alguma)? O problema é que conseguir trabalho dá trabalho. Trabalhar então… dá um trabalhão. Há muito espaço no mercado para bons profissionais, mas é necessário se aperfeiçoar, conhecer suas áreas de atuação e o mercado como um todo, participar de atividades relacionadas e, acima de tudo, ter bom senso.

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2 comentários sobre “Questão de bom senso

  1. Agradeço de novo pelas explicações e pelo papo, Flávia! Meu primeiro livro traduzido sobre dança trará você nos agradecimentos. 😀
    Abraço!

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