A tradução como ela é – alguém tem um glossário aí?

“O que cair na rede é peixe”, já dizia o antigo ditado popular. E quase ninguém pode fazer cara de paisagem e usar outro ditado: “Desta água nunca bebi, nem beberei”. Pois a gente sabe que, no início da carreira de tradutor, a gente acaba se enfiando em enrascadas tão grandes que reza a são Jerônimo e a todo panteão sincrético para que aquilo não dê merda. Já aconteceu comigo e, graças aos deuses, meu empenho foi maior que os revezes, pois nunca recebi reclamações sobre termos e afins quando arrisquei tanto.

No entanto, poderia ter dado muito errado.

É normal que a gente tente começar por algum lado. Máquina de ordenha de cabras, contratos sociais, venda de submarinos, equipamento para embalagem de frango, propaganda de empilhadeira. A gente faz o máximo para não errar, se embrenha em dicionários técnicos, glossários, referências cruzadas na internet, artigos científicos sérios. Consulta colegas mais experientes, pede conselho, carinho e atenção. E entrega com um medinho que só passa quando chega o próximo serviço.

Como se diz hoje na internet: quem nunca?

No entanto, uma hora isso precisa mudar. E muda. A gente se especializa, concentra esforços para aprender bem uma ou algumas áreas, ganha tarimba. E isso não acontece da noite para o dia. São necessários cursos, palestras, congressos, leituras, estudo – muito estudo. E mesmo com todo o aparato, sempre vai aparecer um texto que trará um problema que você nunca viu mais gordo, nem seus colegas, e daí recomeça o martírio, mesmo com uma imensidão de pesquisas prévias, bases terminológicas afiadas, memórias de tradução recheadas. Pois a língua é um organismo bem vivo e inquieto, vira e mexe tudo muda e fica de cabeça para baixo (ou de ponta-cabeça, como queiram), e lá vamos nós estudar mais, buscar atualização, reciclar conhecimentos.

Nesse momento, um glossário de internet não vai te salvar. Pode dar uma ajudinha, mas apenas até a “página 2”.

No caso do mundo editorial, principalmente na área de literatura, a gente diz que “tradução envelhece”. No meu antigo blog, eu mantinha uma seção chamada “Conversa com tradutor”, e tive o prazer de entrevistar Jorio Dauster, tradutor literário excelente, conhecido também por ser um dos tradutores da versão em português brasileiro de O apanhador nos campos de centeio. Na entrevista, ele falou sobre traduções e a língua em desenvolvimento: Não há tradução intocável porque a língua está em evolução constante, com palavras que caem de moda e também com alterações de estilo, mudanças na forma em que as coisas são ditas etc.

E por isso devemos estar atentos a duas coisas fundamentais da profissão:

  1. Os idiomas mudam com velocidade, e nós, profissionais da língua, precisamos estar sempre no mesmo passo. E como ficar sempre atualizado? Estudando. Incansavelmente. Parece bobagem, mas não é mesmo. E, por mais batido que seja o tema, parece que muita gente não se dá conta disso. Precisamos estar antenados para saber como a língua evolui e estudar sempre, consultar sempre as gramáticas, até mesmo para transgredir seus ensinamentos quando necessário.
  2. O tiro no alvo muitas vezes vale mais que metralhar a esmo. Encontre as áreas com as quais você tem afinidade e mergulhe, mas mergulhe muito fundo. Conheço tradutores que se apaixonaram pela área jurídica e foram fazer Direito para fazer direito (tudum-tzzz). Também conheço médicos, arquitetos e técnicos de manutenção de maquinário que largaram sua profissão e foram fazer Letras para aprimorar seus conhecimentos de língua e se dedicar à tradução. Não importa apenas saber escrever, mas saber o que está escrevendo. Mas também não adianta saber o que está escrevendo e não saber escrever.

Não temos a obrigação de saber tudo. Mas precisamos ao menos nos dar ao trabalho de tentar conhecer bem a área à qual nos dedicamos e, assim, surpreender o cliente com nada mais que a nossa obrigação: um texto bem escrito, com terminologia adequada, sem muitos percalços para o revisor. E ter humildade para admitir que, às vezes, o peixe que cai na nossa rede é pesado demais para carregarmos e deixá-lo para quem está realmente preparado.[1] Dessa forma, ao meu ver, pescar começa a ficar muito mais divertido. E proveitoso.


[1] Uma dica que pode valer ouro: se conhece um colega que é fera naquele assunto que você domina mais ou menos e confia nele, indique-o. Seu cliente não esquecerá a gentileza. E o colega também não.
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8 comentários sobre “A tradução como ela é – alguém tem um glossário aí?

    • É isso mesmo, Giovanna! Essa é uma maneira de melhorar nosso texto. E, na tradução editorial, fazer preparação e revisão de texto é uma ótima porta de entrada para o mercado. 😉

  1. Acredito que é essencial que o tradutor busque se especializar em uma área e, no meu caso, já escolhi uma área, ou melhor, fui escolhida por ela. Desde o início de minha carreira, trabalho com textos da área farmacêutica. Já traduzi outras coisas, é claro, mas essa área é a que me encanta. Por isso, procuro me focar nela e pretendo fazer tradução médica. Estou sempre procurando cursos na área da saúde e até criei, com duas colegas, um grupo no facebook voltado a ela. Suas dicas no texto são muito válidas.

    • Obrigado pela visita, Cátia. Quando a área nos escolhe é muito bom. Aconteceu comigo com a tradução, primeiro quando eu era funcionário de uma agência, depois eu fui atrás e acabei na tradução editorial, meu sonho desde menininho lá na Faculdade Ibero-Americana (sim, ainda era FIA, nem UNIBERO era, e era maravilhoso estudar lá). E, ao contrário do que se pode pensar, minha especialização na área jurídico-comercial ajudou e ajuda muito ainda na tradução editorial. Afiar as ferramentas é sempre preciso, e se tivermos com quem dividir essa tarefa, fica ainda melhor. 😉

    • Olá, Tatiana, muito obrigado pelo comentário. E você tem razão, esse post também serve para outras áreas. Especializar-se é sempre muito bom e gratificante. E é algo que não pode parar, nunca. 🙂

  2. Agora, quem traduz literária se vê envolto em áreas que nunca sonhava traduzir. Quem nunca teve de traduzir expressões jurídicas ou trocadilhos relativos a beisebol ou futebol americano no meio de um romance? Você está traduzindo um romance juvenil pra lá de fácil e, de repente, o pessoal começar a jogar um jogo do qual você nunca ouviu falar e toca a pesquisar as regras do jogo para entender o que está acontecendo. Precisamos ser um pouco malabaristas e generalistas para lidar com essa diversidade. Ter também um bom número de colegas de várias áreas para consultar em caso de perigo ajuda bastante!

    • Sim, é uma aventura e tanto, Áurea. A gente precisa mesmo se desdobrar, pois nunca sabe o que vai encontrar pelo caminho. E contar com os colegas é a melhor coisa. 😉
      Obrigado pelo comentário!

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