Trabalho em equipe

Meu caso de amor com a tradução literária começou de fato em 2004. Como, acredito eu, todo mundo que trabalha nessa área, sempre amei ler e aprendi bem cedo; a literatura sempre foi um lugar sagrado para mim.

Trabalho com tradução desde 2000, ano em que me formei, mas a juventude me fez andar brevemente por outras pradarias como a tradução técnica (bem de leve), a interpretação (mais ainda), a imprensa (minha primeira atividade profissional mais duradoura pós-faculdade), até o mercado editorial, com quem eu havia flertado algumas vezes, me tirar para dançar de vez.

Colaborei em alguns projetos como tradutora, preparadora e revisora até que, em 2005, fui convidada por duas pessoas a quem serei eternamente grata a trabalhar em uma microeditora. Sem nenhuma experiência, lá fui eu. Ou seja, aprendi na marra.

Desde então, passei por algumas editoras (com seus catálogos diversos e diferentes métodos de trabalho) e tive algumas temporadas como freelancer. Quando editava, sentia falta de traduzir. Quando traduzia, sentia falta de editar.

Hoje acho que encontrei o equilíbrio ideal para minha vida, num home office que me possibilita fazer de tudo: traduzir, preparar, editar, tomar chá e fazer planilhas enormes para que os projetos não se atropelem, e tudo (quase sempre) caiba na vida.

Considero um privilégio conhecer os dois lados do balcão – da editora e da tradutora/preparadora. Uma me ajudou a aprimorar o trabalho da outra. Aprendi muita coisa, e uma das mais preciosas é que o diálogo é tudo.

Ao editar, lembro como é traduzir (ou preparar e revisar) e tento reunir a maior quantidade de informações possível, antecipar os complicadores e tornar o processo mais claro e tranquilo para o colaborador. Da mesma forma, quando traduzo ou faço preparações, dou meu melhor para me colocar no lugar do editor que está coordenando aquela obra e anotar as informações da minha pesquisa, justificar escolhas e, claro, fazer o melhor trabalho possível.

Um livro passa por muitas mãos até chegar todo lindo à livraria. E quanto mais elas trabalharem juntas, melhor o resultado final.

Já foi comentado aqui que, em geral, o livro passa por quatro etapas básicas de produção editorial: tradução, preparação, diagramação e revisões. Às vezes é necessário incluir outras, como, por exemplo, uma revisão técnica, mas o básico é esse.

Depois que uma editora contrata os direitos de publicar uma determinada obra no Brasil e escolhe quem vai trabalhar nele, funciona assim:

A tradução é aquilo que a gente ama fazer: pesquisar até cansar, encontrar o ritmo, respeitar o tom e tentar trazer aquela obra para o leitor brasileiro. Em seguida, vem a preparação: cotejar o texto traduzido com o original para corrigir saltos ou vacilos, padronizar a linguagem e os detalhes e garantir a fluidez do texto e a precisão gramatical. Ao final de cada uma delas, o editor aprova o trabalho feito, mas, via de regra, é depois da preparação que ele de fato faz a intervenção mais pesada e, por assim, dizer definitiva na obra.

Com o texto já bem próximo do que o leitor vai encontrar, entra em cena o departamento de arte, que cria para aquele projeto uma aparência, um formato – seja em papel ou em e-book – e uma capa. Finalmente, são feitas as revisões de prova. O revisor é aquela figura atentíssima a detalhes que confere tudo: da gramática aos detalhes físicos do texto na página. É só depois disso tudo que o livro vai para a gráfica ou a plataforma do e-book.

Só que, de vez em quando acontecem ruídos, problemas e conflitos, como em tudo na vida. Tradutores ficam chateados porque acham que o preparador não respeitou suas escolhas. Preparador reclama da tradução porque “praticamente” teve que refazer o trabalho. Revisor reclama de todo mundo porque, em tese, quando recebe o livro, diversas questões já deveriam estar resolvidas. Todo mundo reclama do editor porque o prazo é curto, o livro está dando mais trabalho do que deveria, não teve briefing etc. E o editor reclama que o colaborador deixou de fazer alguma coisa ou não cumpriu o prazo.

Às vezes, as queixas são infundadas, às vezes, não. E, na maioria das vezes, conversar sobre o trabalho e expor as questões resolve boa parte desse drama.

Vamos usar os famigerados atrasos como exemplo. Imprevistos acontecem, e um trabalho pode demorar mais que o combinado por diversas razões. Mas você tem a obrigação de calcular sua produção com cuidado, se esforçar muito para cumpri-la e conversar sobre eventuais atrasos assim que se der conta de que não vai conseguir terminar o trabalho a tempo. Também não vale correr para acabar logo.

Da mesma forma, um bom editor sabe o que está acontecendo no texto, conhece as necessidades do projeto, é claro com o colaborador e, salvo acordos específicos, pede um trabalho compatível com a etapa em que o livro se encontra, o prazo e a remuneração.

Então, na dúvida, converse. Com cuidado, educação, respeito, mas converse. Seja por e-mail, por telefone ou nos comentários do Word. Tenha sempre em mente o que vai ser melhor para o livro. O leitor só vai agradecer.

 Outra forma incrível de diálogo que defendo com unhas e dentes é o relatório. O fato é que ele mereceria um post exclusivo, mas a versão resumida é que nesse lindo arquivo o tradutor vai deixando informações para quem vai cuidar do texto depois: o porquê de suas escolhas, de onde veio sua pesquisa, as dificuldades que encontrou etc. Mantendo a metáfora das relações afetivas, é quase uma DR.

Quanto mais informações forem compartilhadas, quanto mais você lembrar que faz parte de uma equipe (ainda que seja do quentinho do seu escritório no quarto dos fundos), melhor os demais profissionais envolvidos no processo vão entender o caminho percorrido e, com exceção do que de fato precisa ser modificado, menos chance você corre de não reconhecer seu texto quando o livro ficar pronto. E, claro, é melhor para o livro.

Alyne Azuma – Tradutora, editora e preparadora

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5 comentários sobre “Trabalho em equipe

  1. Este foi um dos textos mais legais que li no Ponte de Letras. Talvez justamente por ser instrutivo para quem, como eu, nunca trabalhou dentro de uma editora. Antes de atuar como tradutora, eu já trabalhava na preparação com cotejo e passei por muitas dessas situações. Mas há coisas que, por estar “de fora”, talvez nunca venha a saber. “Às vezes, as queixas são infundadas, às vezes, não. E, na maioria das vezes, conversar sobre o trabalho e expor as questões resolve boa parte desse drama.” Essa é uma questão que me preocupa muito; primeiro porque, como preparadora, quase nunca tenho contato direto com os tradutores, só com os editores; segundo porque, justamente por não saber com quem estou lidando, receio pisar no calo de alguém e gerar desafetos; terceiro porque, como tradutora, é raro eu receber um feedback sobre o que fiz. No máximo, a gente sabe que, quando o editor continua passando livros, deve ter gostado do trabalho… Mas em que pontos poderia melhorar? Trocar ideias com o preparador ou revisor talvez fizesse a grande diferença. Talvez alguns editores prefiram que os freelancers envolvidos não tenham contato direto uns com os outros para evitar brigas? Ainda assim, numa das poucas vezes que tive contato com uma tradutora, enquanto preparava um livro traduzido por ela, esse contato foi perfeito e crucial para que resolvêssemos juntas algumas questões da obra. Adorei a experiência e quero mais.
    Devemos partir do princípio de que somos todos profissionais e, mais que isso, adultos.
    Obrigada, Ponte de Letras e Alyne Azuma por compartilharem conhecimentos e impressões com a gente. 🙂

  2. “A tradução é aquilo que a gente ama fazer: pesquisar até cansar, encontrar o ritmo, respeitar o tom e tentar trazer aquela obra para o leitor brasileiro.”

    Belo depoimento, Alyne, linda declaração. É isso mesmo.

  3. Que belezinha esta sua publicação, Alyne! Sabe aquele bombonzinho inesperado que alguém do escritório resolve deixar em nossa mesa, como um agrado? Pois bem. Ouso dizer que, para quem já aderiu ao home office e se divide entre traduções e preparações, textos assim têm o mesmo efeito. 😉 Parabéns!

  4. Muitíssimo obrigada, Camila, Daniel, Tatiana e Luciana, pelos comentários tão generosos! Foi um privilégio e uma alegria enorme ser tão bem recebida.

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