A criança em seu ritmo, mas dentro da realidade

Em maio, completei dez anos de tradução. Em novembro, meu filho completará dez anos de idade. Ou seja, na barriga, no colo ou na cadeira ao lado, ele sempre acompanhou meus trabalhos e sempre leu muitas coisas que traduzi, principalmente porque tive o prazer de traduzir muitos livros infantis, livros com os quais ele cresceu. Livros de morder, pop-up, com adesivos, para recortar e montar e livros de histórias, cada um para uma fase de seu desenvolvimento.

Uma das primeiras coisas que ele aprendeu a fazer ao pegar um livro foi abri-lo logo nas primeiras páginas para descobrir quem é o tradutor. Já sabe quando um livro é uma tradução ou não, porque começou a prestar atenção ao nome do autor na capa e também porque já analisa a ficha catalográfica.

Compro muitos livros infantis traduzidos nos quais encontro uma tradução dura, expressões decalcadas, palavras que passam o sentido, mas que poderiam ser substituídas por outras mais simples ou mais “gostosas”. Também encontro textos que perderam o sabor porque foram simplificados demais em relação ao original. Ainda, às vezes, o original é leve, engraçado, descomplicado; quando pegamos a tradução, encontramos uma certa dificuldade para rir de uma piada ou mesmo para ler com fluidez. É gostoso perceber que, com um livro bem traduzido, a criança ri mais, comenta mais porque entendeu melhor.

Acredito que a questão não seja simplificar, porque o autor complica, muitas vezes, e isso precisa ser mantido. Precisamos passar à criança uma experiência agradável, como o original passa aos leitores da língua na qual ele foi escrito; e se não for agradável, que seja fiel até onde der. Claro que muito se perde, mas o papel do tradutor é proporcionar ao leitor uma experiência muito próxima àquela que ele teria se lesse a obra original, e isso inclui as crianças.

Adaptar uma obra mais “adulta” para um público infantil é uma coisa; os elementos mudarão, principalmente a linguagem, que será outra. Mas adaptar um original infantil à realidade da criança brasileira, por exemplo, me parece meio estranho. Acredito que a criança deva se adaptar à realidade do mundo, o livro não deve ser adaptado à realidade da criança, assim como o mundo não se adapta. Talvez ela não consiga ler um determinado livro porque ainda não está pronta para ele. Enquanto isso, vai ler outros textos com os quais consiga lidar.

Em livrinhos infantis que traduzi, aparecia a neve em dezembro, porque o original era de algum país do hemisfério norte. Era impossível mudar, porque havia imagens, espaço certo para as palavras, essas coisas. Ainda pequeno, meu filho perguntava: “Mãe, onde eu encontro neve? Nunca vi!”. Depois, “Mãe, aqui não tem neve em dezembro, é calor”. Foi se adaptando. Hoje em dia, ele usa o dicionário para entender muitas palavras que lê, mas ainda assim, às vezes precisa de ajuda para captar aspectos culturais, como o esporte popular em outro país e os termos específicos relacionados a ele. Já pega erros em livros, mas às vezes acha que uma expressão comum é erro, como aconteceu há poucos dias, quando ele pensou que “ler nas entrelinhas” fosse um erro. Além de ver que estava enganado, ainda aprendeu mais uma coisa, aumentou o vocabulário. E assim vai, sem trauma. Ele aprende em seu ritmo, percebe que o livro foi escrito por um autor que tem uma realidade diferente, mas cuja história merece ser contada para pessoas de outras realidades. O Rafa é fã da Ruth Rocha, leu todos os livros e sempre comentou o que lia. Adora Nate e Diário de um Banana, começou a se interessar pelas histórias de Monteiro Lobato. Mas ainda não lê livros muito extensos. Tudo a seu tempo, no ritmo da criança, mas na realidade como ela é.

Sou a favor da equivalência, sem adaptações desnecessárias nem facilitações que transformam o original em outra obra, e não nela mesma em outro idioma, como deve ser.

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5 comentários sobre “A criança em seu ritmo, mas dentro da realidade

  1. Parabéns pelo tempo de profissão e por estimular seu filho a ler. Adorei ele ser o seu “revisor”, isso fortalece ainda mais o vínculo maravilhoso entre mãe e filho e dá um ganho adicional do hábito da leitura.

    • Obrigada pelo comentário, Luciere. Sem dúvida, nós dois ganhamos muito. 🙂 Volte sempre! Abraços.

  2. Gostei do seu ponto de vista e compartilho da opinião exposta… a criança deve conhecer o mundo e sua amplidão o mais breve possível… quanto antes, melhor!
    Protegê-la em um universo reduzido apenas dificulta as coisas… Bem interessante. Beijo!

    • Tatiana, muito obrigada pelo comentário. A criança precisa ser estimulada a ter uma visão global das coisas. Na minha opinião, isso só pode fazer bem e ajudar muito na formação de um indivíduo mais consciente, preparado e tolerante. Volte sempre! 🙂

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