O tradutômetro apitou!

Tradutômetro é instrumento de tradutor?

Não. Todo leitor tem um. Você pega aquele livro que queria ler há muito tempo, se acomoda no sofá, começa a leitura tranquilamente e, de repente, alguma coisa incomoda… irrita… atrapalha. Você pensa que pode ser sede.

Um copo de água e uma voltinha mais tarde, novamente no sofá, pega o livro e retoma a leitura. E de novo alguma coisa incomoda.

Se você é tradutor, provavelmente continuou com sede. Logo de cara percebeu que o texto não fluía, dava a impressão de que o autor estava com soluço.

Se você não é tradutor, mas é um leitor atento, talvez tenha bebido sua água gelada antes de perceber que faltava… naturalidade!

Você lê a cena, consegue imaginar o cenário do bar, os dois amigos sentados tomando uma cerveja, conversando tranquilamente, até que entra uma mulher alta, linda, e um dos amigos diz ao outro: “Oh, homem, pelo bem de Cristo, essa mulher é extraordinária!”

Você para. Lê de novo. Vamos imaginar que você, leitor do tal livro, não tem nenhuma noção de inglês. Nem imagina que, no original, o personagem disse: “Oh, man, for Christ’s sake, this woman is amazing”. Mas você percebe que tem alguma coisa errada naquela frase. Ninguém fala desse jeito quando conversa com um amigo!

Pois é, o tradutor se agarrou ao original, traduziu literalmente, e o resultado é uma frase dura, engessada, estranha. Não é um diálogo convincente. Melhor seria ler alguma coisa como: “Cara, fala sério, essa mulher é demais!”. Ou qualquer coisa parecida. Qualquer coisa que desse ao leitor a sensação de estar acompanhando uma conversa entre amigos em um ambiente informal. Um papo de boteco.

E não é só no diálogo. Muitas vezes lemos no livro em português uma frase como “fulano saiu e fechou a porta atrás de si”. E na maioria das vezes pensamos que é estranho, ele podia simplesmente ter fechado a porta. O tradutor, preso ao original, traduziu literalmente o “he closed the door behind him”, que é comum nos originais em inglês.

Esse gesso, entre outros efeitos, é um dos muitos exemplos de tradutês. O resultado soa falso, embora não esteja errado. É correto, mas não é convincente. Mais importante que a forma, então, é o conteúdo? O sentido?

Não vamos generalizar. Existem obras clássicas, poemas e textos específicos em que é preciso preservar a forma, mas, sim, é importante se colocar no lugar do leitor ao traduzir uma obra literária. Transmitir o recado do autor no mesmo tom que ele usou para conversar com os leitores do idioma original, causando no leitor do texto traduzido a sensação de conforto e familiaridade com o que lê.

Todo mundo tem um tradutômetro, mas o do tradutor tem que ficar ligado em tempo integral. Se ele apitar, pode ser hora de caçar e eliminar o tradutês que amordaça a naturalidade e grita “É TRADUÇÃO” a cada parágrafo do texto.

 

Anúncios

4 comentários sobre “O tradutômetro apitou!

  1. “Oh, homem, pelo bem de Cristo, essa mulher é extraordinária!” Ri alto! Been there, read that (ou similar).

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s