O desafio da tradução literária

Embora seja tradutor profissional desde 2006, minha experiência com textos literários pode ser resumida aos exercícios da época de faculdade. E embora tenha estudado com excelentes professores, como Lenita Esteves e John Milton, na FFLCH, sempre evitei me aventurar pela tradução de literatura, em parte por ser mais familiarizado com textos técnicos, devido a minha primeira formação em Eletrônica.

Há algum tempo, os amigos do Ponte de Letras propuseram que eu fizesse um teste com texto literário e registrasse a experiência em um post para o blog. Então, bora lá!

Em conversas entre tradutores, sempre surgem discussões sobre nossas dificuldades comuns: metáforas, metonímias, sinonímias… sim, tradutores técnicos também enfrentam essas dificuldades todos os dias, a diferença é que se você se especializou em uma área de tradução técnica, você tem menos dificuldade para decidir sobre um termo e, principalmente, sobre o registro correto, que em manuais e textos técnicos, geralmente é o formal. Mas e em literatura? Além do tom global, a cor com a qual o autor impregnou o texto, um personagem pode ter um registro formal ao falar com seu superior e um registro totalmente informal na conversa entre amigos, isso sem falar que a coisa não é 8 ou 80: NUANCES é a palavra que, para mim, define a dificuldade em uma tradução literária. Se o tradutor de um texto literário não capta as nuances criadas pelo autor, muito se perde.

Um exemplo da minha dificuldade no teste: na tradução de um manual técnico, raramente a palavra “black” faria referência a algo diferente de cor, ou seja, na maioria das vezes, seria traduzida por “preto” ou “escuro”. Já em uma tradução literária, é preciso decidir se “black” é mais bem traduzido, entre outras inúmeras opções, por “preto”, “escuro”, “negro”, “sombrio”, “tétrico”, “lúgubre”, “fúnebre”, “triste”, “luto” etc. Foram longos minutos até decidir o que melhor se encaixava.

Para o teste, pouco mais de 500 palavras, precisei de três horas para chegar a um resultado que me deixasse menos tenso, afinal, o texto seria enviado a pessoas que “manjam dos paranauês literários”. Em textos técnicos, minha produção varia entre 500 e 1200 palavras por hora. Certamente, minha velocidade aumentaria se fosse traduzir o livro todo, mas dificilmente igualaria meu desempenho em tradução técnica, não só pelo que já disse antes, mas também porque faço uso de muitos recursos que me permitem aumentar muito a produção.

Por falar em recursos, este foi outro pedido do Ponte: use uma CAT Tool!

Acho que não conheço tradutores literários que usam CAT Tools. A justificativa é bastante aceitável: uma das maiores vantagens de se usar esse tipo de ferramenta é o aproveitamento de repetições e a maior facilidade em manter a uniformidade por meio do controle da terminologia. Manuais técnicos apresentam muitas repetições e a uniformidade é uma característica fundamental nesses textos: um “heat sensor” não pode ser chamado de “sensor de temperatura” em uma parte do manual e de “sensor térmico” em outra. Já em literatura, a variação é mais bem-vinda.

Como o teste foi de apenas 500 palavras, a experiência não chegou a ser tão conclusiva para que eu possa sugerir ou não a adoção de CAT Tools por tradutores literários. O que registro, então, são algumas possíveis vantagens de usar uma ferramenta dessas:

  • elas evitam pular parágrafos,
  • em textos grandes, com muitos lugares e personagens que tenham seus nomes traduzidos, o glossário pode ajudar muito,
  • ajudar a variar o texto.

É, eu sei, você deve estar pensando: ué, mas ele não disse que ajudar a manter a uniformidade é uma característica dessas ferramentas? Sim, mas você pode colocar diversas opções de tradução de um termo em seu glossário e ela mostrará todas essas opções para que você decida como variar. Por exemplo, depois do ótimo e detalhado feedback recebido, certamente colocaria diversas opções para “said”, nada mais chato que um texto cheio de “fulano disse”, “sicrano disse”, “eu disse”.

A experiência com o texto literário foi, embora tensa, bastante prazerosa. Confesso que estou criando coragem para enfrentar um livro. Quem sabe em breve?

William Cassemiro

http://www.williamcassemiro.trd.br

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4 comentários sobre “O desafio da tradução literária

  1. Sair do técnico pro conteúdo criativo é sempre um desafio. Parabéns por aceitar o desafio, William! Você é o cara!

  2. Adorei a ideia do desafio, muito criativo, e também a análise do William. É bom ver como funciona uma faceta diferente da mesma profissão. Uma das coisas que você destacou e que me chamou a atenção foi o tempo. Tudo muito mais esmiuçado, pensado e repensado.
    Uso o WF para literária e para editorial em geral. Já não sei viver sem, até porque sou uma comedora de parágrafos. Outra utilidade é colocar no glossário aquelas palavrinhas chatas que você conhece muito bem na língua de partida, mas vive esquecendo na língua de chegada.
    Parabéns para o Ponte e para o William, artigo muito legal!

  3. Muito legal o desafio e o artigo!
    Também uso CAT tools para tradução literária. Além das razões apontadas pelo William e pela Roseli, acho que facilitam para trabalhar pensando o livro como um todo. Além disso, ter um corpus com as próprias traduções para poder consultar quando quiser todas as formas como já traduzi uma palavra ou expressão, mesmo contextos totalmente diferentes, é fantástico.
    Um abraço e obrigado pelo artigo!

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