Minha vida é um livro (eternamente) aberto

Chegou livro novo. Prazo normal.
Primeiro passo, jogar na planilha.
Sem contar sábados e domingos, tantas laudas por dia.
Tranquilo, dá pra fazer.

A cota não está tão grande, mas antes de começar a traduzir tem a vida para colocar em dia, afinal, o fim do último livro foi corrido e não tive tempo para respirar. Não tem comida em casa, estou devendo uns exames para o médico e as unhas não veem uma manicure há meses. E tem o dentista, que esqueci de marcar quando terminei o penúltimo livro! Os amigos ameaçam me abandonar, porque não tenho tempo para eles. A família eu não sei bem se acha que eu não trabalho (já que fico em casa o dia todo) ou que sou muito estranha por trabalhar tanto e não ser milionária (ainda!) OK, já desisti de explicar.

Começo a traduzir, tudo corre bem, dá até para ir ao supermercado. Que bom, vou poder cozinhar e parar de comer porcaria – no fim do último livro só ia até o fogão para fazer café (aos litros!). Sou prática na cozinha, mas toda a preparação (lavar, picar, cozinhar) sempre demora um pouco mais do que o previsto. Droga, a cota! Vai sobrar um pouquinho para o dia seguinte… paciência, pelo menos deixei uns dias a mais pensando nisso. Chega de comer na rua! Saúde em primeiro lugar!

Começo a traduzir, tudo corre bem, mas não posso dispersar. Produtividade a mil, prejuízo quase compensado, dois terços da cota cumpridos antes do almoço. A tarde vai ser tranquila, acho até que vai dar pra adiantar um pouquinho da cota do dia seguinte, mas… sou derrubada por uma enxaqueca e não consigo prosseguir. Faltou um terço, fica para depois.

Começo a traduzir, tudo corre bem até que… falta luz. Sou prevenida, todos os arquivos estão sincronizados no Dropbox, pego o laptop e vou procurar um lugar para trabalhar. Não é o fim do mundo, mas acabo perdendo mais tempo do que gostaria. O lugar não é tão silencioso como o meu escritório. Concentração vai para o brejo, produtividade não corresponde ao esperado. E a cota? Ainda sob controle, mas já começa a ficar grandinha. Deveria trabalhar à noite para compensar o prejuízo, mas o marido comprou um vinho e fez um jantarzinho gostoso. Na correria do fim do último livro, quase não conseguíamos jantar com calma. Certo, ainda dá tempo de recuperar. Não precisa ser hoje.

Começo a traduzir, a cota já está um pouco maior do que eu gostaria. Sendo realista, é melhor refazer o planejamento e incluir os sábados. Melhor do que trabalhar à noite, né? Se eu não descansar, a produtividade do dia seguinte vai cair mesmo… Com esses dias a mais na planilha, a cota voltou quase ao normal. Perco os sábados, mas não a sanidade. (Por enquanto.)

Começo a traduzir, mas só vou fazer meia cota porque é aniversário de uma daquelas amigas que ameaçou me abandonar porque não tenho tempo. Vai ser na hora do almoço (o que significa que a tarde já era). Eu tenho que ir. Além de adorar essa amiga, tenho que aproveitar que (ufa!) ela não faz aniversário no fim do livro. Já está um pouco apertado, mas ainda dá para recuperar.

Começo a traduzir. Olho para a planilha e acho que é melhor incluir os domingos. Mas vai ser só revisão, algo mais tranquilo, só para aliviar um pouco os outros dias. Ninguém vai morrer. E essas unhas, hein? Acabei esquecendo de ir na manicure.

Começo a traduzir. A revisão não rendeu no domingo. Acabou sobrando um pouco para depois. Vou desmarcar o dentista. Não sei o que me passou pela cabeça para marcar dentista em época de fim de livro.

Começo a traduzir. Já é noite, mas fazer o quê? Tenho um prazo a cumprir. Compromisso em primeiro lugar! Não devia ter pedido pizza. Comer pizza dá um sono…

Começo a traduzir. O livro é para amanhã. Vai dar tempo, ufa! No intervalo, pego um bloquinho e começo a fazer a lista de tudo o que preciso fazer: mercado, dentista…

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19 comentários sobre “Minha vida é um livro (eternamente) aberto

    • Noooooo. Sem abandonar, né? Eu dou um jeito!! Só não pode ser em época de fim de livro. 😀 😀 😀

  1. Ótimo texto!!!!!! Perfeito!!!!! Acabei de terminar um livro e, para relaxar, vim aqui ler o post novo e parece que narrou tudo o que houve comigo. rs
    Muito bom!! Parabéns!!! Adorei… 😀

  2. Tirando a manicure e o excesso de café (chá aqui), sou eu! Adorei, Flávia, parabéns por mais este texto!

    • Fico feliz em saber que não estou sozinha nessa vida!
      Obrigada pela visita, Alessandra. Volte sempre. 🙂

  3. Nossa… eu aqui na Academia ainda me formando em tradução e a minha vida já esta assim / kkkk

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