Quem Tem Medo do Apagão?

Pode ser mau humor. Pode ser cansaço. Pode ser preocupação. Prazo. Problemas pessoais. Família. Barulho. Vontade de tomar sorvete. Dor nas costas.

Posso continuar relacionando e criar dezenas de linhas de motivos, mas o fato é que tem dia que… não dá!

O que fazer quando o prazo de entrega está próximo, o texto pede atenção e a cabeça resolve que não vai rolar?

Acho que todo mundo tem um ou outro truque para recuperar o foco perdido. Uma volta no quarteirão, cinco minutos longe do escritório, um café forte. Tudo isso ajuda quando a distração é uma ocorrência isolada.

Mas e quando a falta de foco persiste e cresce a ponto de, na revisão, o tradutor pegar erros que normalmente não cometeria nem com uma banda marcial tocando na porta do escritório? Acho que aí é preciso pensar se o problema é só falta de foco, ou se é hora de mudar a rotina.

Sim, estou falando de mim. Sim, enfrentei o problema recentemente. Eu, que fazia uma média de X páginas por hora em condições normais de temperatura e pressão (ops), de repente não rendia mais que um terço do habitual. Pior, quando revisava o texto, quase sempre descobria que das três páginas dava para salvar uma, porque as outras duas teriam que ser refeitas.

Era hora de parar e pensar no que estava acontecendo. Parei, pensei, e descobri que condições normais de pressão não existiam há anos, desde que enfrentei uma fase de muito trabalho, prazos curtos e títulos que atraíram muita atenção de público e crítica. Sim, reagi muito bem à pressão naquele momento. Porém, sem perceber, continuei no mesmo ritmo como se aquilo fosse normal. Toda semana surgia uma proposta, um livro novo, um elogio, um leitor querendo me adicionar no Facebook. Vaidade, arrogância, ganância, uma mistura de tudo isso. Não sei. O fato é que acelerei até o pé encostar no chão, e continuei acelerando por anos seguidos.

Há três semanas, depois de muito pensar e procurar soluções imediatas, retomei uma prática de consciência corporal abandonada há anos. Quinze minutos no começo do dia, nada muito complicado, nem perto do ideal. Nos primeiros dias recuperei algumas páginas por hora. E o foco, a concentração, a vontade de trabalhar. Tive que continuar pisando fundo para cumprir compromissos que já havia assumido, cumpri todos eles. Agora é hora de desacelerar. Sim, e o que a gente tem com isso, vocês devem estar pensando.

Talvez nada, mas como meu dia de escrever para o Ponte coincidiu exatamente com o primeiro dia da minha nova vida de tradutora, decidi contar essa experiência meio dolorida para lembrar, mais uma vez, que somos autônomos. Autonomia é, segundo o Aurélio, a faculdade de se governar por suas próprias leis, dirigir-se por sua própria vontade. E se a gente bobear, autonomia vira escravidão.

Sucesso é bom, dinheiro é ótimo, reconhecimento enche a gente de orgulho, mas trabalho é meio, não fim. E quando perdemos isso de vista, nem todo sucesso profissional compensa o fracasso de não viver.

Olho aberto, colegas!

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10 comentários sobre “Quem Tem Medo do Apagão?

  1. Ótimo texto!
    E realmente não é vida trabalhar de domingo a domingo por termos nos comprometido com milhões de coisas ao mesmo tempo. Nenhuma sai direito. Boa sorte na nova fase.

  2. Débora, estou tentando fazer isso. Consegui 2 dias sem fazer nada essa semana antes de voltar pra casa, porque, na volta, já estou com a agenda lotada. E a minha pilha anda fraca mesmo. Eu seim logo eu volto pra rotina doida, mas não quero. Dessa vez eu vou tentar não cair na tentação de aceitar tudo o que aparece. A saúde que a gente perde não volta.

  3. Acredito que pelo fato de trabalharmos geralmente em casa, sem horários estabelecidos, e também os prazos apertados impostos por clientes fazem com que entremos nesse ritmo acelerado, trabalhando por longos períodos sem pausas e, consequentemente descuidamos de nossa saúde. Só que uma hora o corpo dá seus sinais de desgastes e é nessa hora que o apagão ocorre. Trabalhar como freelancer exige muita disciplina e organização, e os cuidados com a saúde devem fazer parte da nossa rotina.

  4. A liberdade de escolher horários e criar o próprio ritmo engana a gente. Atenção, gente! E continuem com o Ponte, essa troca com vocês é muito legal! 😉

  5. Nossa, um momento muito oportuno pra ler este texto, Débora. Estava exatamente assim desde o ano passado, até que tive um primeiro período de desaceleração no mês passado. Acho que o que estou precisando é de férias de um mês, mas, por enquanto, uma semaninha já fez um efeito enorme. Vamos ver se consigo me policiar também! Boa sorte pra todos nós!

  6. Concordo 100%. Já passei muito por essa de não tirar o pé do acelerador, e há anos entrei em outro ritmo muito mais “viver a vida” e não querer fazer tudo. Afinal, vamos viver a vida, e deixar um pouco mais de trabalho para os colegas.

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