A tradução como ela é – uma questão de respeito

Ética. Esta é uma palavrinha que corre solta por aí, mas nem sempre se vê seu significado concretizado. Ética vai muito além de não revelar o que está traduzindo, a não ser que a editora permita, ou manter sigilo disso ou daquilo. Ética, no sentido mais geral, anda de mãos dadas com o respeito. E é sobre respeito que quero falar neste post.

Não, não aconteceu nada, antes que alguém imagine que esse pequeno artigo foi motivado por algum quiproquó. Ele se originou de conversas, observações, acontecimentos e outros eventos cotidianos que culminaram na vontade de escrever. Me desculpem se parecer um pouco ranzinza, mas nunca é demais lembrar algumas coisas que parecem óbvias (sempre a mesma coisa, o mesmo blábláblá – entendedores entenderão), mas cada vez mais chego à conclusão de que a obviedade é algo que só existe no dicionário.

Comecemos pela relação com os colegas. Já falamos disso aqui, mas é sempre bom lembrar: o colega não é inimigo. O colega mais novo não é idiota. O colega mais velho não é rei. Somos todos colegas, com mais ou menos experiência, e frente a colegas em dificuldades temos duas opções: a gentileza omissa ou a ajuda de bom grado. Acredito que qualquer coisa a mais ou a menos possa ser (ou passar por) desrespeito. Não adianta negar ajuda e descascar o colega ou ajudar e perguntar: “É tão simples, onde está a dúvida?” Se souber resolver e não quiser ajudar, não se pronuncie. Se quiser ajudar, ajude de coração, não porque parecerá “melhor” que o colega por sua resposta. Não funciona assim.

Agora, vejamos o outro lado: quando for tirar uma dúvida, pesquise primeiro, até o fim. Isso é falado à exaustão em diversas comunidades de tradutores, mas vejo ainda muitas dúvidas que se resolvem em pesquisas de minutos (Google it!). Parta do princípio de que os colegas estão ocupados com as próprias dúvidas e, quando param para ajudar, deixam suas coisas de lado. Tenha a consideração de se esforçar um pouquinho e tentar resolver seu problema antes de usar o tempo do outro. Acredito que qualquer coisa a menos seja considerada pura preguiça. E pega muito mal.

Aliás, pega mal falar de trabalho alheio sem saber em quais circunstâncias foi feito. Pega muito mal. Quer dizer, falar mal do trabalho alheio em qualquer circunstância não pega nada bem.

Vamos para outras bandas: se precisar trabalhar, fale com seus amigos. Procure agências ou editoras pelos meios cabíveis. Gaste um pouco do seu tempo para prospectar clientes, fuçar por aí. Não apele para desconhecidos. Muito menos interpele gente com quem não tem intimidade pedindo serviço, contato ou o que seja. Também pega mal, pois muito provavelmente a pessoa que se esforçou para conseguir e cultivar seus contatos vai querer compartilhar com gente próxima, de quem conhece o trabalho, a postura etc. Indicação também estabelece relação de confiança, não é?

E, para encerrar (apesar de ter muitos outros temas que mereceriam lugar aqui), puxar tapete de colega não pega bem. Usar de uma posição privilegiada ou de uma falha do colega, por exemplo, numa revisão, para queimá-lo muitas vezes é um tiro fadado a sair pela culatra. Já vi muitos casos desses e me arrepia pensar que as pessoas façam esse tipo de coisa. E fazem. Não estou aqui dizendo para passar a mão na cabeça de incompetentes, nada disso. Porém, o incompetente não precisa de ajuda para se queimar, ele faz isso sozinho. Se o colega é bom, mas você faz com que ele pareça um péssimo tradutor (isso pode acontecer quando o cliente não tem como avaliar o trabalho a contento – seja por falta de tempo e confiança depositada, seja por desconhecimento do idioma), é mau-caratismo. E, em algum momento, as coisas se esclarecem.

No mais, a ética não vale de nada se for apenas uma palavra usada com peito estufado para tentar provar isso ou aquilo. Ética é quando suas decisões imparciais conduzem a bons resultados para todos. E, mais uma obviedade: juntos conseguimos crescer mais que sozinhos.

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