Sobre cursos de tradução

O Ponte de Letras costuma receber muitas perguntas de iniciantes a respeito da formação acadêmica para a carreira de tradução. Decidimos falar um pouco sobre isso no post de hoje.

O candidato a tradutor pretende fazer uma faculdade de Tradução ou Letras, mas pode ser que viva em uma cidade pequena, longe de uma universidade com bom curso presencial. A pessoa se vê em dúvida a respeito do rumo a tomar: curso à distância? Curso presencial? Curso de idiomas e estudar o resto por conta própria? Intercâmbio? São muitas as opções, mas devem ser consideradas com cuidado, pois cada passo é importante quando se toma a decisão de ser um profissional, seja lá qual for. Nós, por motivos bem diversos, optamos por cursar Letras com habilitação em tradução. Na nossa opinião, uma escolha muito acertada. E daqui a pouco contaremos o porquê.

O estudo de idiomas, principalmente do português, é algo que não termina. Ao longo de sua carreira, você vai precisar consultar dicionários, gramáticas, sites de gírias, adaptar-se às mudanças da língua, como o controverso acordo ortográfico da língua portuguesa, por exemplo. Vai construir repertório com leituras, que nunca serão demais ou suficientes, terá contato com diversas tipologias textuais, encontrará aquelas que agradam mais ou menos. Terá maior ou menor contato com as teorias de tradução, que de uma forma ou outra, amparam muitas das decisões que tomamos e explicam muitas atitudes perante os textos (inclusive os técnicos). Para traduzir, é preciso ter excelente domínio da língua de partida, ainda que a pesquisa seja companheira constante, imprescindível. É preciso ter intimidade com o idioma para que as expressões, os trocadilhos, as nuances da língua não atrapalhem o tradutor a ponto de ele traduzir algo ao pé da letra ou simplesmente não entender o que está lendo. Assim, para o futuro tradutor, o intercâmbio, que normalmente tem como objetivo habilitar a pessoa apenas a se comunicar no idioma estrangeiro do país escolhido, muitas vezes não funciona tão bem se visto como único artifício para aqueles que buscam se aprofundar no ofício da tradução. O modo pelo qual você chegará à proficiência em um idioma ou a um nível a partir do qual consiga traduzir é uma escolha sua. Mas dependerá muito mais do seu esforço e dos estudos do que do período que passar no exterior.

Outro ponto importante é que o tradutor não precisa conhecer vários idiomas e traduzir a partir de todos eles. Normalmente, quem aprende um idioma com facilidade busca aprender outros, mas é preciso ser racional e autocrítico para saber qual idioma você, de fato, tem capacidade para traduzir. Você pode adorar quinze idiomas, mas só se sentir totalmente à vontade com um deles. Tudo bem. Escolha o seu caminho, não há problema nenhum em ser tradutor apenas do inglês, por exemplo. No entanto, caso se proponha a traduzir outros idiomas, o tradutor precisa se aprofundar neles da mesma forma que fez com o primeiro e lidar com a mesma seriedade e empenho.

Vamos às faculdades:

Por sermos “filhos” da Faculdade Ibero-americana/Unibero em seus tempos áureos, sabemos muito bem o que é ir para a faculdade com a cabeça cheia de perguntas e sair das aulas com informações saindo pelo ladrão. Foi um curso que deixou marcas em nosso trabalho, em nossa postura como profissionais, em nossa bagagem cultural, acadêmica e técnica. Felizmente, tivemos a oportunidade de ter aulas com doutores, mestres e profissionais talentosos da área de tradução, que incentivavam a troca de experiências, que fizeram com que nos sentíssemos dentro do mercado desde sempre, que tinham muito o que compartilhar, e certamente aproveitamos isso.

No entanto, sabemos que uma universidade, por melhor que seja, não faz milagre se o aluno não se esforçar, ou se faltar muito por qualquer motivo que impossibilite uma boa participação nas aulas.

É possível ser bem-sucedido na profissão fazendo um curso de tradução à distância? Sim.

Porque você não precisa ser graduado para ser tradutor.

Você não precisa de curso nenhum para ser tradutor, na verdade.

Mas talvez seja um tradutor mais bem aparelhado se tiver noções que são adquiridas mais rapidamente por meio desses cursos.

Você não precisa de um documento para exercer a profissão, mas só tem a ganhar com todos os cursos que puder fazer. Como tradutores literários, julgamos fundamental o contato com poesia, linguística, até com a história da tradução, com textos diversos, com a análise de como as palavras podem ser combinadas, a estilística e todo o embasamento teórico por trás disso. É possível que se chegue à conclusão, num determinado momento, que toda a teoria em torno da tradução seja mais uma discussão do sexo dos anjos. Porém, todo conhecimento para um tradutor é importante. Como dizia um dos nossos professores, o nosso “HD”, o cérebro, não tem limite.

Então, sim, um curso de EAD tem seu valor, se for a única opção no momento. Talvez não propicie a troca que ocorre em um curso presencial, o aprendizado que adquirimos observando erros e acertos alheios, a interação com colegas nos intervalos, as oportunidades de conversas com professores, mas vai oferecer uma base, trazer outros meios de pescar. E, no fim, nenhum curso dá o peixe, mesmo. Depende de você prestar atenção para ver como construir as ferramentas com as quais buscará o que quer.

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7 comentários sobre “Sobre cursos de tradução

  1. “O estudo de idiomas, principalmente do português, é algo que não termina…” Aproveito pra dar uma passadinha e reforçar que a tradução exige (sim!!!) muito estudo do idioma de chegada, e não apenas do idioma de partida. Ou seja, independentemente de você traduzir de XXX, YYY ou ZZZ para português, não deixe de dar o devido valor ao estudo do português.

  2. Este é o texto que eu gostaria de ter lido uns dez anos atrás. Mas (quase) nunca é tarde. Obrigada por terem-no escrito! 😉

  3. Estou cursando o 4º semestre do curso de Tradutor e Intérprete na Universidade Nove de Julho (Uninove) em São Paulo. Na minha opinião, como é citado no texto acima e em vários outros que li, tudo depende de você mesmo. Eu particularmente estou aproveitando muito o curso, mas não porque ele me dá toda a base que eu preciso para ser um tradutor profissional, e sim porque é mais um lugar onde eu posso respirar a profissão que eu aspiro. Tudo depende do quanto você se dedica à algo que lhe interessa. Assim que eu terminar o curso, por exemplo, farei um intercâmbio. Se eu quero ser tradutor do inglês, então penso que é óbvio aprender uma língua diretamente da fonte, além do fato de que traduzir não é apenas substituir uma palavra por outra, mas entender a cultura, os hábitos, crenças, tudo que você puder absorver.

    Tenho absoluta consciência de que se eu quiser ser um ótimo tradutor, não será a faculdade que irá me ensinar, mas a quantidade de livros que eu puder ler, a prática quase obsessiva da língua-forte e da língua-alvo, escrita, ouvida ou falada, experiência internacional, cursos de especialização, conversas com amigos, tudo que você puder e estiver disposto a fazer para se tornar um profissional de verdade. E isso eu sei que poucos conseguem porque o maior entrave não é o tempo, o dinheiro ou a família, mas você mesmo. E não pensem que sou um exemplo de dedicação e disciplina, na verdade sou bem preguiçoso e cursos me ajudam a não ficar em casa sem fazer nada após um dia cansado de trabalho.

    Meu curso, na realidade, está servindo para provar um fato que eu não sabia: traduzir é muito mais difícil do que imaginava. Vejo muitas pessoas deslumbradas e super empolgadas afim de se iniciarem logo nas artes da tradução, mas poucos realmente são, muitos desistem já no começo do curso. Alguns chegam até mesmo a pensar que estão se matriculando em um curso de inglês com nível superior. Assim que se deparam com as primeiras dificuldades (ex: saber tudo de português), vejo a cada mês a classe diminuindo de tamanho 🙂

    Então acho que é isso. Tudo depende de dedicação e empenho. Não importa se você tem esse ou aquele curso, tantos anos de vivência no exterior – nada impede que você domine muito bem uma língua estrangeira sem nunca ter pisado os pés neste país. Mas ao mesmo tempo tudo isso ajuda e é essencial também para quem quer ser profissionalizar. E olha quem nem estou falando em conquistar o primeiro cliente. Há muitos espinhos antes disso, mas é como tatuagem.. é uma dor boa 🙂

    Eu estudo por prazer e aprendo por prazer, assim é muito melhor aprender. Espero ter contribuído com a discussão e desculpe pelo comentário tão grande.

  4. Fiz o curso de Tradutor/Intérprete na Universidade São Judas Tadeu há 10 anos. Infelizmente, quando acabou a facul não tive interesse em procurar nada na área e continuei na empresa onde estava. Hoje, minha vontade de trabalhar com isso é enorme mas não acho mercado para mim. Simplesmente não consigo, graças a minha falta de experiência. Fico muito triste e desanimada. Consigo alguma coisa com revisão, mas de tradução mesmo, nada. Amo essa área mas só isso não basta.

  5. No Rio de Janeiro, vcs indicam algum curso além da pós em tradução da PUC ou só esse vale a pena fazer?

    • Olá, Maria,

      Como falamos no texto, não há necessidade de estudos formais para ser tradutor. Claro que fazer cursos relacionados à área – como uma pós – ajuda bastante a entender de forma mais rápida como funciona a profissão. Porém, o profissional de tradução vai apenas crescer, se desenvolver, quando estiver em contato com o mercado, com outros colegas, participar de congressos, seminários e outro eventos voltados à área e estudar, estudar muito.

      Boa sorte!

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