Tradutor também faz laboratório

Quando recebi a primeira proposta para traduzir livros para o público jovem (infantojuvenis, young-adult literature – YA, ou crossover fiction), não sabia muito bem o que esperar. Na minha cabeça, as dificuldades não seriam grandes, o texto seria mais leve, mais “fácil”. Topei.

Mas não foi bem assim. Comecei a ler o original e logo me dei conta de que há tempos não tinha contato algum com adolescentes, nem o hábito de ler blogs ou publicações voltados para essa faixa etária. O que fazer com todas aquelas gírias? Se eu usasse as que conhecia, estaria entregando a idade.

Descobrir o que significavam não foi tão difícil, já que para traduzir temos que ser ótimos pesquisadores. Nesse caso específico, dicionários formais não ajudam muito. Mas o contexto aliado a leiturinhas aqui e ali já resolveriam o meu problema. No entanto, como diria aquilo em português? Se a personagem tem dezesseis anos, não pode falar como uma menina mulher de trinta e poucos.

Eu sempre tive mania de ficar escutando conversas alheias. Sei que não é muito educado, mas para mim é o modo mais rico de ter contato com registros linguísticos diferentes do meu em sua forma mais pura, sem interferências. Fico de ouvido ligado em restaurantes, filas, cafés. Uma vez, no ônibus, deixei de descer no meu ponto para saber se, afinal, a recepcionista de um hospital conseguiria convencer o namorado a deixá-la viajar sozinha com uma amiga do trabalho. (E eu praticamente não ando de ônibus – fui lá só para xeretar!) Reparo em tudo, principalmente nas escolhas lexicais. Vou anotando na cabeça, às vezes em um caderninho.

Pois foi assim que resolvi fazer uma laboratório intensivo de bisbilhotamento de conversas teens. Em cafés e restaurantes, em vez de fugir daquela mesinha barulhenta como sempre costumava fazer, lá ia eu sentar bem perto. Fila de cinema, lá estava eu com meu saquinho de pipoca. Pensei em passar em uma escola no horário da saída dos alunos, mas achei que talvez os pais pudessem estranhar uma pessoa rondando seus filhos.

Também fiquei mais atenta à forma como os adolescentes se comunicavam por escrito. Aí foi a hora de correr para os blogs, Twitter e Facebook. Comecei a seguir primos, amigos de primos, filhos de amigos…

Em pouco tempo, construí meu repertório. Os diálogos dos livros, que antes pareciam tão travados em português, foram fluindo, ficando mais autênticos. Aparentemente, o resultado foi aprovado, pois continuo traduzindo livros desse gênero.

Então fica a dica: quando precisar traduzir um registro que não domina, em vez de apelar para G-zuiz e gritar #oremos, basta prestar mais atenção à sua volta.

Esse texto foi publicado originalmente no blog Janela Tradutória (janelatradutoria.wordpress.com) em abril de 2012.

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6 comentários sobre “Tradutor também faz laboratório

  1. Adorei o texto, Flávia! Engraçado, eu tenho a mesma mania de ouvir conversas. Tenho uma genial, sobre duas senhoras, visivelmente humildes, discutindo sobre “poblema” e “pobrema”.

    Qual não foi a minha surpresa quando uma delas explicou, com toda a eloquência que tinha, que “poblema é quando é seu” e “pobrema” é quando é dos outros.

    Enquanto isso, lá ficam os dicionaristas quebrando a cabeça pra entender a lógica do povo! =D

    • Obrigada, Thiago.

      Acredita que já ouvi essa mesma discussão? Tinha o “poblema” (dos outros), o “pobrema” (próprio) e, finalmente, o PROBLEMA (da matemática, claro – hehe)

      Espero que esteja gostando dos textos aqui do Ponte de Letras. Volte sempre e deixe seus comentários. 😉

      Abraços,
      Flávia

  2. Olá, Flávia. Eu soube que o Quentin Tarantino frequenta lanchonetes com um gravador, grava as conversas e usas frases inteiras nos filmes… 😉

    • Olá, Maria Carolina.

      Obrigada por seu comentário.
      Puxa, que legal. Eu não sabia!
      Então acho que estou indo no caminho certo, né? 😉

      Um abraço, volte sempre.

  3. Pingback: O caminho batido de sempre ou várias aventuras? | Ponte de Letras – Ano 2

  4. Ótimo texto! Adorei a ideia de fazer esse “trabalho de campo”, indo em busca da linguagem do povo, ali onde ele está. Só que, para isso, é preciso ter um prazo “decente”, né? Agências, por exemplo, não costumam dar bons prazos… Pelo menos eu tenho observado isso.
    Um abraço!

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