Tradutores & dicionários

— Como? Não conhece essa palavra? Mas você não é tradutor(a)?

Quem nunca ouviu as perguntas acima, acompanhadas de uma expressão incrédula, que atire o primeiro dicionário (na minha estante!).

É a imagem frequente que o público em geral faz dos tradutores, quase um arquétipo mental da categoria, a de que somos “dicionários ambulantes”.

As perguntas podem ser sobre o significado de uma determinada palavra ou expressão, assim mesmo, à queima-roupa, sem contexto, em português ou na(s) língua(s) com as quais trabalhamos, ou sobre sinônimos, sobre antônimos, sobre a etimologia e sobre o que mais a curiosidade do perguntador mandar.

Obviamente nós, tradutores, não somos dicionários ambulantes, não conhecemos todas as palavras que existem em qualquer língua estrangeira, nem mesmo na nossa. Na verdade, nem os dicionários “conhecem” todas as palavras de uma língua, já que são frutos do engenho humano e, como tal, limitados e finitos.

É verdade, porém, que conhecemos uma infinidade de palavras, não apenas os significados delas, mas também informações periféricas, como o registro e o uso, mas… e quando isso não acontece?

Ora, quando os “dicionários ambulantes” têm alguma dúvida, sempre podem pesquisar na internet, que exibirá vários links de… dicionários! Ou então perguntar para os colegas em algum fórum de tradutores, que muitas vezes também vão responder com informações obtidas em… dicionários!

Já ouvi relatos bem opostos sobre a relação dos tradutores com os dicionários: há quem use e quem abuse, quem desdenhe e quem dispense. Os últimos argumentam que a consulta aos dicionários diminui a fluidez no trabalho, consome tempo e que isso compromete o ritmo da tradução. Preferem ir traduzindo sem “interferência” externa, confiando no seu léxico pessoal e na inspiração e informações do próprio texto. Alguns tradutores são francamente contrários aos dicionários, afirmando que há palavras de uso comum que não constam neles, ou ainda que algumas acepções não são corretas.

Há tradutores, porém, que consultam dicionários o tempo todo. Há quem prefira os dicionários monolíngues da língua-alvo, os monolíngues da língua-fonte, os bilíngues, os analógicos… e a lista continua (sim, porque há muitos tipos de dicionários).

O uso desses vários tipos de dicionários, saber como consultá-los e explorá-los ajuda a resolver impasses no processo de tradução, não somente aqueles ligados ao significado de uma determinada palavra ou expressão, mas também outras questões relativas ao uso que podem ser pertinentes ou até vitais numa tradução.

Uma consulta adequada a um dicionário pode elucidar, por exemplo, o mistério da grafia dupla daquela palavra (arrebentar ou rebentar?), se o nome de famílias de plantas se escreve com maiúscula ou minúscula (Leguminosa ou leguminosa?), que uma “gata” pode ser um tipo de mastro de uma embarcação. Pode informar, ainda, que aquela palavra, tão popular e tão corriqueira (pitaco), ainda não foi dicionarizada e pode entrar em uma tradução de um texto mais moderno, que a datação da interjeição “oi” é de 1980 e, portanto, não pode ser usada naquele seu texto mais antigo, que o verbo cogitare em italiano tem um uso mais literário do que cogitar em português.

E que os superpoderes da caixa de pesquisa combinada dos dicionários eletrônicos podem ajudar a descobrir rimas para aquele poema que surgiu no meio do seu texto de… medicina!

Em relação a esses aspectos, o dicionário, se bem consultado, soma informação, riqueza e exatidão ao texto e se torna um ótimo aliado do tradutor, que pode não ser um dicionário ambulante, mas tem que saber ouvir a Pulex irritans que mora atrás do nosso pavilhão auricular e saber como encontrar a informação.

Roseli Dornelles dos Santos, tradutora de italiano

http://tradutoradeitaliano.blogspot.com.br
http://lexicografomania.blogspot.com.br

 

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5 comentários sobre “Tradutores & dicionários

  1. Ótimo texto, Roseli!
    Estou ainda engatinhando no ofício da tradução; no entanto sou revisora de textos em português e também sou fã dos dicionários. Não vivo sem eles!
    Um beijo,
    Danny.

  2. Adorei o post, Roseli. Sou do time dos que usam e abusam dos dicionários e acredito que eles são uma ferramenta indispensável para os tradutores, mas como você ressaltou, devemos saber consultá-los e explorá-los para obtermos os melhores resultados.

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