A tradução como ela é – música, maestro!

Todo idioma tem um ritmo. O saudoso professor Fernando Dantas, de quem eu sempre falo em textos, palestras, aulas e afins, foi uma das pessoas que me apoiaram quando mergulhei nos estudos de alemão. Ele, que foi um tradutor excelente do idioma inglês, era formado em Letras – Alemão pela Universidade de São Paulo. Por algum motivo que desconheço não se dedicou ao idioma de Goethe, mas bandeou-se para o lado shakespeariano da profissão. E, quando comentei que aprenderia alemão logo depois da faculdade, me indicou livros para estudos individuais [depois eu veria minha incapacidade de aprendê-la sozinho e iria para uma escola] e disse algo que nunca esqueço: “Cada idioma tem uma música, é importante ouvi-la, acostumar-se com ela. Mesmo que não entenda muito, ou quase nada. Assim fica mais fácil aprendê-lo e, mais tarde, traduzi-lo”.

Generoso, ele me deu uma ferramenta poderosa na hora de escolher as palavras. Algo que fazemos o tempo todo, escolher as palavras que melhor se encaixam em muitos níveis: semântico, sintático, rítmico, temporal. Já trabalhava com revisões do inglês na época, inclusive de livros, mas nunca havia pensado nesse aspecto da língua: o som. Como se ele estivesse à parte. Como se fosse apenas uma “perfumaria”. E, muito pelo contrário, é um elemento fundamental quando se traduz.

Encadear as palavras numa frase para que façam sentido não é tarefa tão árdua. Tem gente que se enrosca, mas é algo que fazemos naturalmente quando falamos: em nosso idioma nativo, sabemos o lugar das palavras sem pensar muito nelas. E é importante sabermos como isso se dá no idioma de origem, na língua-fonte. E também qual é a melhor palavra para ir naquele lugarzinho só dela. Quando percebemos essa disposição, fica mais fácil perceber quando algo está fora do lugar e quando esse “desajeito” é proposital ou não. Quando a estranheza precisa ser reproduzida no texto de chegada. Para não passarmos um rolo compressor sobre as intenções do autor.

Desde a dica do professor Fernando, sempre tento ouvir muitas coisas nos idiomas dos quais traduzo. Mesmo que não entenda cem por cento, mesmo que me escapem algumas coisas, aquela música fica nos meus ouvidos. Não faz muito tempo tive a oportunidade de traduzir uma autora alemã e ouvi muitas entrevistas com ela. Senti sua respiração, a altura de sua voz, suas hesitações, como articulava as palavras e respondia às perguntas dos entrevistadores. Consegui assim imprimir um ritmo ao texto em português, imaginando como ela falaria isso ou aquilo na minha tradução. Acho que ficou legal. Em breve vocês poderão conferir (aviso quando sair).

Por isso, ouçam a tradução. Muitos leem em voz alta, outros repassam mentalmente as palavras para sentir como elas se conectam. Não importa como, a tradução tem uma voz, um ritmo. Uma música. E ela deve soar verdadeira aos ouvidos do leitor.

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8 comentários sobre “A tradução como ela é – música, maestro!

  1. Lindo. Ótima lição do grande Fernando. Obrigada por ajudar a espalhar as lições dele, Petê. ❤

    • Fernando deixa uma saudade imensa mesmo, Cristina. Ele era Professor, com essa letrinha maiúscula que caracterizam as pessoas realmente generosas do nosso meio. Obrigado pelo comentário.

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