Orgulho de quê?

 

Todo tradutor gosta de entrar em uma livraria e reconhecer uma capa logo de cara, bem no meio dos títulos em destaque. É uma delícia abrir o livro e ver seu nome lá. Enche a gente de orgulho.

Mas do que é que o tradutor se orgulha?

E se ele se orgulha, também se envergonha? Como o tradutor reage quando alguém o aborda e pergunta, por exemplo, como é que ele aguentou traduzir “aquele livro”? E continua dizendo que “nossa, que dó de você, aquilo é horrível, muito ruim, muito chato”, e vai empilhando adjetivos que ninguém quer ver associado ao seu trabalho?

Francamente? Nem ligo. Sim, confesso que gosto de traduzir coisas boas, não só porque, nesse caso, os adjetivos são outros, mas, principalmente, porque o trabalho flui com mais facilidade, e porque sempre aprendemos alguma coisa traduzindo um material interessante e de qualidade, tanto na forma quanto no conteúdo.

Mas se o livro é ruim? Paciência. Respiro fundo, recorro a técnicas de meditação, ioga, ouço música, foco a luz no fim do túnel, qualquer coisa! Mas traduzo, e não é porque o original é chato, ruim, ou vai provocar uma reação negativa (o que nunca é garantido, como também já sabemos) que vou relaxar na tradução.

E é esse o ponto. O tradutor tem que fazer seu trabalho com o mesmo capricho e a mesma precisão, seja qual for o material que está traduzindo. Se é um autor conceituado, um título “estourado lá fora”, um conteúdo de grande valor informativo, ou uma série que vai virar filme e atrair a atenção da mídia, ou um texto mal escrito, de conteúdo pobre, ritmo arrastado e personagens chatos, não faz diferença. Ou não deve fazer.

Não sou religiosa, mas costumo comparar o tradutor ao médium que psicografa. O ideal é que, ao traduzir, ele procure se abrir para a intenção do autor, para o propósito do texto. É mais ou menos como “incorporar” o autor da obra, servir de instrumento para ele e para o leitor. Ser um elo entre autor e público. Nem sempre é possível, não é fácil, mas é para isso que eu me esforço. Para deixar transparecer na tradução o caráter que o autor deu à sua criação.

E quando esse esforço dá certo, quando a tradução carrega nela a marca do autor, acho que tradutor deve se orgulhar, seja o original um livro aclamado por público e crítica ou um folhetim de qualidade duvidosa. Deve se orgulhar por ter feito um bom trabalho, atingido seu objetivo para aquele projeto. Porque o original é problema do autor. E vergonha alheia é perda de tempo.

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4 comentários sobre “Orgulho de quê?

  1. Já tive momentos de não querer mencionar os primeiros (muitos) livros que traduzi (umas séries de banca que sei que a Débora traduziu também). Mas, gente, vergonha por que, se fiz meu trabalho como deveria ser feito? Gostei muito do texto.

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