Traduzir livros é uma viagem

Traduzir livros é aprender coisas novas o tempo todo, pesquisar assuntos diversos dentro de uma mesma obra, descobrir o nome em português da chavinha da caixa de força do prédio, explorar muitos terrenos, visitar muitas tribos, falar muitas “línguas”, entrar em mundos desconhecidos. Traduzir livros é sempre ter um assunto novo em mente, é experimentar misturas novas de ingredientes, ainda que a “forminha” da história seja a mesma, ou seja, o gênero literário.

Ao longo da minha primeira década como tradutora, tive o prazer de traduzir vários gêneros. Quando me perguntam qual gênero prefiro, meu ímpeto é sempre dizer que prefiro ficção, mas também adoro não ficção, seja uma biografia ou um livro de autoajuda. Cada livro com sua mistura diferente, cada livro com uma surpresa – boa ou não. Livros que me fazem perder a hora de tudo porque o texto é tão interessante que não dá vontade de parar. Livros não tão alucinantes, mas com aquele jogo de palavras que você passou a encarar como uma questão de honra traduzir de modo bem criativo, dedicando horas à construção de um trocadilho ou adaptação decente.

Vou me repetir: cada livro é uma surpresa, boa ou não.

Traduzir livros é nunca sentir tédio?

O que vocês acham?

Claro que, ao receber uma proposta de tradução, você vai analisar o arquivo, ou vai ler as resenhas na Internet ou as descrições nas livrarias, vai checar se o assunto é do seu interesse, além de levar em conta prazo/valor. Você vai observar se, apesar da necessidade de trabalhar, vai conseguir se dar bem com o que o livro vai trazer.

Uma professora minha dizia que tradutor não pode ter pudor. Eu concordo, já traduzi textos bem diversos para saber que não tenho pudores, até me divirto com a possibilidade de testar minha criatividade em textos diferentes, mas conheço pessoas que têm pudor, sim, e isso não chega a ser um problema. Não há nada de errado em recusar um trabalho que não vai lhe fazer bem, por um motivo ou por outro.

Mas o X do post de hoje é: o que fazer quando aquele livro que você aceitou e começou a traduzir, de repente fica maçante, pesado, repetitivo? Como lidar com o fato de ter que consertar os erros na criação de um autor que não fez uma boa pesquisa e começa a trocar as bolas, como por exemplo, dizer que a língua dos tangueros é o português (caso real), achando que está certinho? E o texto pobre, daquele autor que não é escritor coisa nenhuma, que só aproveitou a moda de um determinado tipo de livro que anda vendendo horrores e jogou qualquer coisa lá no papel, repetindo mil vezes as mesmas expressões e errando o nome do próprio protagonista?

É verdade também que o livro pode estar lindo, mas simplesmente não “combinar” com você e o tédio imperar em seu trabalho, o bloqueio “tradutivo” tomar conta. E não dá para devolver um livro no meio do caminho simplesmente porque você não gostou ou porque coisa melhor surgiu de outro lado.

Uma solução ou um modo de amenizar o problema é dividir esse texto ao longo do prazo e fazer a tradução de cada cota diária logo cedo, quando a paciência está maior, quando a mente está mais tranquila, e buscar a “recompensa” com a cota de um trabalho mais legal em seguida. É o que costumo fazer. Tenho colegas que preferem enfrentar logo a tradução toda, até o fim.

Como você faz ou faria?

Traduzir livros é uma viagem, sim, mas nem sempre é uma viagem tranquila num navio confortável ou na primeira classe. Às vezes, é uma viagem de teco-teco chacoalhante ou de metrô na sexta-feira às seis da tarde. O importante para o tradutor é chegar ao destino da melhor maneira possível. 😉

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10 comentários sobre “Traduzir livros é uma viagem

  1. “O importante para o tradutor é chegar ao destino da melhor maneira possível.” E quando chega, dá uma sensação sem igual de dever cumprido. É ou não é?!

  2. Carolina, não é só texto literário. Acontece em outros campos de tradução também. Não traduzo livros (bom, ano passado traduzi 2), mas eu gosto de ter mais de um trabalho, pois quando bate a modorra, o texto fica maçante e não rende, é bom ter outro para desanuviar a mente e engatar a segunda. Eu acho que sempre deveríamos ter 2 textos diferentes. Parece que não, mas dividir o dia em temas diferentes aumenta a produtividade.

    • Concordo totalmente, Ana. Também gosto de ter 2 ou 3 textos diferentes ao mesmo tempo. Beijo!

    • Eu também concordo. Geralmente meu dia é dividido em dois trabalhos diferentes e quando chega um ponto em que já não aguento mais, sei que está chegando a hora de partir para o outro com fôlego renovado.

      • Mesma coisa aqui, Monique. É bem melhor trabalhar assim, né? Um abraço.

  3. Questões interessantíssimas, Carolina!
    Ainda não tenho muito tempo de carreira como tradutora, nesse mundo eu nasci ontem! Então, por alguns desses dilemas ainda não tive que passar. Como este:

    “Como lidar com o fato de ter que consertar os erros na criação de um autor que não fez uma boa pesquisa e começa a trocar as bolas, como por exemplo, dizer que a língua dos tangueros é o português (caso real), achando que está certinho?”
    Peguei algo parecido não em tradução, mas em uma preparação com cotejo. O autor havia afirmado uma coisa esquisita sobre gatos domésticos que eu sabia não ser verdade (e não era questão de religião, ideologia ou semelhante; era DESinformação mesmo, uma opinião esquisita que poderia passar por dado real). Uma coisa boba, mas ainda assim sugeri colocar uma nota de rodapé explicando que aquilo era a opinião do autor para não induzir o leitor a erros. Não sei o que o editor decidiu no final.
    Esse caso dos “tangueros” falando português é mais complicado, pois, para começo de conversa, a gente tem vontade de saber como é que um dado falso pode ter saído assim logo no começo, após passar pelo editor da publicação original e sei lá quantos preparadores e revisores. Pior é se esse dado falso gera toda uma argumentação. Situação hipotética (porque não sei de que livro se trata): é uma crônica, o autor diz que os tangueros são falantes do português e toca a descrever particularidades da língua portuguesa e dos povos que a falam, e nada disso se aplica à espanhola. Rs! Espero que não tenha sido o caso de você ter que adaptar todo um parágrafo ou texto por causa de uma DESinformação.

    “E o texto pobre, daquele autor que não é escritor coisa nenhuma, que só aproveitou a moda de um determinado tipo de livro que anda vendendo horrores e jogou qualquer coisa lá no papel, repetindo mil vezes as mesmas expressões e errando o nome do próprio protagonista?”
    Confesso que não aguento e mudo mesmo. Na língua inglesa boa parte dos autores contemporâneos parece gostar muito de repetir nome de personagem (como se não bastasse a repetição de pronomes, forçada pela própria língua). Em português, fica péssimo, não? Tento sacar quando é que a repetição é proposital (raramente, eu acho) e quando é apenas um vício, um “nem pensei em fazer de outra forma”.

    Ótimo texto, obrigada por tê-lo escrito!

    • Oi, Camila! E eu agradeço pelo comentário! 🙂 Eu também mudo, não dá, né? A repetição raramente é proposital, mesmo. E vamos deixando a leitura mais agradável. Bisous 😉

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