Pesquisa na Tradução Literária

Muito se ouve falar sobre a necessidade de pesquisa para o bom resultado de uma tradução. Afinal, o que tem que ser pesquisado? Por que é necessário estudar um assunto se, no caso de uma tradução literária, o profissional só precisa reescrever o que já está lá, porém em outro idioma?

Não. Não é isso que faz um tradutor literário. Ou não é só isso, pelo menos.

Vamos imaginar um caso mais comum, um romance histórico. Vamos pensar que essa é uma história de amor entre uma moça e um rapaz que vivem na França do século XVIII. Ela é filha de nobres, ele, um homem do povo com ideias Iluministas. O ano é 1789. A família da moça se opõe ao romance, e logo no primeiro capítulo o autor fala em 1°, 2° e 3° Estados. É claro que o tradutor não tem que ser uma biblioteca viva, um banco de dados com memória infinita. Ele não é obrigado a saber que em 1789 começou a Revolução Francesa.

Mas não é um romance? O que importa não é a história de amor do casal principal? E o tradutor não tem que traduzir o que já está escrito? Mesmo que o livro fale em três estados, Iluminismo e outros temas que o tradutor desconhece, não basta usar um dicionário, ver o que significam aquelas palavras e usá-las no texto?

Não. Não basta. Não é incomum que nos venha à cabeça logo de início a palavra do nosso idioma mais próxima daquela que vamos traduzir, ou sua tradução mais conhecida. Então, no exemplo desse romance histórico, o original poderia falar em três “states”,em inglês, ou “états”, em francês. Nos dois casos, a tradução para o português seria “estados”. Ótimo! Para que pesquisar? Problema resolvido, está certo! Sim, a tradução da palavra está correta. Mas depois dessa etapa vem o sentido da frase. E depois do sentido da frase vem o contexto. Se o tradutor não sabe que os três estados da Revolução Francesa são o Clero, a Nobreza e o Povo, provavelmente vai deduzir que o texto fala em estados geográficos e vai se deixar direcionar por esse sentido, até começar a tropeçar em religiosos, nobres e povo. E a situação pode ficar ainda pior se ele não dedicar um minutinho de seu tempo a dar uma olhada na divisão geográfica da França e insistir em falar nos três estados se deixando direcionar pela imagem mental dos estados como existem no Brasil.

E se não é um romance histórico? E se a história de amor é entre uma geneticista e um engenheiro petroquímico? E se, durante um jantar, eles conversam sobre como foi o dia no trabalho? Como descrever uma cena e construir diálogos falando sobre dois assuntos desconhecidos?

A verdade é que o bom tradutor literário tem que saber SEMPRE o idioma de partida e o de chegada, e a cada livro ele tem que estar disposto a estudar um novo assunto, conhecer novas culturas, novas épocas e sociedades. Traduzir livros não é só reescrever histórias em um idioma diferente do original. É estudar os assuntos que compõem essas histórias para, depois disso, reescrevê-las usando o vocabulário adequado a cada assunto, sem derrapar no jargão e nos termos específicos.

Porque a França nunca foi dividida em três estados geográficos, e a geneticista pode ser romântica, mas a “family tree” nem sempre é uma árvore plantada no quintal da casa onde ela cresceu.

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2 comentários sobre “Pesquisa na Tradução Literária

    • Longe de ser uma aula, Giovanna, mas obrigada. A intenção aqui é dividir experiência. Bom saber que temos alcançado nosso objetivo.

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