Quando largar o osso?

Outro dia a Natasha Malara, iniciante na atividade tradutória, expôs suas dúvidas e aflições no grupo Tradutores/Intérpretes do Facebook. Com autorização dela, editei a pergunta para destacar o ponto a ser abordado e, quem sabe, poder colaborar na discussão de um assunto que atormenta muitos tradutores, entre os quais me incluo. Trata-se de uma questão com que nós aqui do Ponte de Letras sempre nos deparamos e para a qual, já vou avisando, não temos resposta definitiva. A ideia aqui, por sinal, não é dar respostas – não temos essa pretensão – e sim promover a discussão e estimular a reflexão.

Natasha Malara: Adoro disciplinas absolutamente teóricas, mas o que mais acho incrível é a habilidade que os escritores (e não só eles) têm de transmitir tudo o que transmitem através da língua. Até muito recentemente, na faculdade, eu me dedicava quase totalmente à tradução de uma obra literária. E você meio que vira o livro: cada palavra é uma palavra, você revê, relê, marca encontro com seu orientador pra falar sobre uma passagem… e aí eu me realizo.
Às vezes fico relutante em seguir o caminho da tradução como profissão por medo de deixar de priorizar a qualidade. Ou a gente otimiza o tempo? Ou não dorme? Ou ganha prática e vira um mestre? Isso me frustra um pouco, não consigo largar o osso. Queria muito saber a opinião dos veteranos!

 Bem, para começar, estou bem longe de me considerar veterana. Estou chegando aos cinquenta livros traduzidos, mas ainda tenho muito (muito mesmo) a aprender. Me senti à vontade para discutir essa questão porque também tenho dificuldade para “largar o osso” e ainda assim consigo desempenhar meu trabalho diariamente (às vezes com algum sofrimento, tenho que admitir) e fui aprendendo a lidar com essa eterna frustração no decorrer dos meus (apenas) seis anos traduzindo livros.

Já falamos um pouco por aqui a respeito da subjetividade do ato de traduzir. A tradução não é apenas a substituição de um termo da língua de partida por outro na língua de chegada (embora muita gente ainda tenha essa concepção), e sim uma representação ou até mesmo uma releitura do original com a intenção de tentar reproduzir da maneira mais fiel possível (e aqui fiel não quer dizer literal) sua forma e conteúdo.

Essa representação nunca será cem por cento equivalente ao original. Tradução sempre implica perda. Nenhuma palavra é neutra, e sim carregada de ideologia. Analisando profundamente, cada escolha implica intenções, valores e significados. A Natasha disse que adora disciplinas teóricas (assim como eu) e acredito que estudar teoria ajude muito na hora de tomarmos decisões e adotarmos estratégias para traduzir.

Como disse Bakhtin (que a Natasha deve conhecer bem): Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial”

Cabe ao tradutor saber o que priorizar naquele trecho específico. E não tem regra, os parâmetros serão decididos a cada momento. O profissional tem a função de encontrar uma forma satisfatória de fazer essa transposição da língua de origem ao português, levando em conta sempre uma série de fatores linguísticos e culturais das duas línguas com as quais estiver trabalhando, fazendo as concessões adequadas e pertinentes. Isso a gente vai aprendendo com a prática, Natasha.

Aos poucos, você vai ganhando segurança, conhecimento e repertório para saber as batalhas que deve escolher. Sou da opinião de que TUDO pode ser melhorado, mas sei que, ao mesmo tempo, temos que entregar a tradução no prazo. Com o tempo, vamos adestrando aquela pulguinha que mora atrás da orelha de todo tradutor (o tal do feeling) e aprendendo que alguns ossos são ocos, que não vale a pena bater o pé para tudo. Guardemos os dentinhos e poupemos nossa sanidade para ossos que realmente valham a pena.

Anúncios

Um comentário sobre “Quando largar o osso?

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s