Razão, Emoção e Tradução

Parece título de novela mexicana, eu sei. E às vezes a sensação é essa!

O que faz o tradutor literário quando a obra que ele tem que traduzir aborda um assunto que, naquele momento, também está presente em sua vida pessoal? Como separar razão, emoção, experiência pessoal e profissional? É possível conter os sentimentos, se concentrar no texto e manter o foco descrevendo situações que o tradutor está vivendo, e que podem ser incômodas ou dolorosas?

Aconteceu comigo. Quando meu pai sofreu o primeiro infarto, há vinte anos, eu estava começando a traduzir um romance em que o pai da mocinha também enfartava e passava semanas entre a vida e a morte, isolado em uma UTI. Era exatamente o que eu estava vivendo. No começo foi terrível, mais chorava que traduzia, não conseguia ler o relato da angústia da personagem, cheguei a pensar em devolver o livro, desistir daquela tradução. Mas essa era uma história secundária, não era o foco do romance, e eu decidi continuar. Disse a mim mesma que tentaria durante uma semana. Se percebesse prejuízo na produção ou na qualidade, eu devolveria o livro, deixaria um colega fazer melhor que eu (e faria, sem dúvida).

Para minha sorte, o enfartado do livro começou a reagir. A personagem foi se animando, e eu fui absorvendo a esperança e o ânimo daquela “nova amiga” que eu nunca vi. Meu pai também melhorou (teve mais dois infartos nos anos seguintes, escapou de todos sem sequelas e hoje vive muito bem, felizmente!).

Fiz aquela tradução com um envolvimento diferente, como se contasse uma história que também era minha. Não posso dizer que separei razão e emoção. Pelo contrário, afirmo sem medo de errar que a emoção contribuiu muito para a conclusão daquele trabalho naquele momento, como aquele livro em especial me ajudou a enfrentar uma experiência muito difícil.

Mas e quando a conclusão é outra? O que teria acontecido se, por exemplo, meu pai piorasse, se a animação da personagem e o desenrolar daquela história fossem diferentes dos fatos reais da minha vida? Não sei. Acho que eu teria devolvido aquele livro.

Como saber quando um projeto é maior do que você naquele momento? É preciso ter humildade e bom senso para reconhecer que “não rola”. Acho que o bom profissional desenvolve bem seu trabalho, cumpre prazos e se compromete com a qualidade, mas também reconhece seus limites. Antes de ser profissional, é humano. Razão, emoção e tradução andam juntas. E quando uma tropeça nas outras, é hora de parar e pensar se não é necessário tirar de cena uma das três. É isso… ou cair.

Anúncios

Vamos conversar? Deixe seus comentários!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s