Cada livro é um livro

Por mais que o tradutor se empenhe, por mais experiência que tenha, ele nunca produzirá uma tradução totalmente equivalente ao texto original. A perda existe, é inevitável. Mas como lidar com ela e ainda assim fazer uma tradução fiel? Quais critérios adotar para chegar a um resultado satisfatório? Depende.

A própria noção de fidelidade em tradução é um tanto quanto flexível. Em meu trabalho como tradutora de prosa literária, estou, o tempo todo, alternando entre diferentes processos de raciocínio e critérios de escolha a fim de seguir o que considero meu parâmetro principal: chegar o mais perto possível de um texto traduzido capaz de reproduzir, no leitor da tradução, a mesma experiência de leitura que teria o leitor do original. A verdade é que fidelidade pouco tem a ver com literalidade.

Veja bem, a intenção primordial não é apenas reproduzir o texto, e sim transmitir a mensagem. E essa mensagem é desdobrada em forma e conteúdo, em língua e cultura. Cabe ao tradutor, a cada trecho do trabalho, avaliar e se posicionar, decidindo os aspectos que merecem maior aproximação ou afastamento. Devemos ser capazes de julgar quando devemos nos aproximar mais da forma ou do conteúdo (quando não for possível manter ambos), quando domesticar uma referência cultural, (talvez tentando explicá-la ou usando uma equivalência) e quando deixar o texto mais ligado à cultura de origem, sempre tendo em mente o tipo de narrativa, o estilo do autor, o público ao qual o livro se destina, a proposta da publicação.

Depois de um tempo, o processo acaba ficando intuitivo, teoria e prática se mesclam, deixando de ser um processo fragmentado onde primeiro se compreende o texto na língua de origem, depois é feita uma espécie de racionalização para, por fim, ser transformado na língua de chegada. Tudo é feito simultaneamente, mas não de modo automático, com base no domínio que precisamos ter da estrutura das duas línguas, tanto escrita quanto falada, além do conhecimento de aspectos culturais e outros elementos que compõem uma obra literária.

Em resumo, não existe uma fórmula. A solução para uma questão tradutória utilizada em um livro policial pode não ser a mais adequada para um infantojuvenil. Mesmo que o problema apresentado seja, em termos tradutórios, idêntico, cada livro é um livro.

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2 comentários sobre “Cada livro é um livro

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