As primeiras letras do ano

Sim, estamos de volta. 2014 será um ano de muito agito aqui no Ponte de Letras. Todos já começamos a rufar tambores, esquentar tamborins, botar água no feijão e a bola para rolar. Carnaval, Copa, feriados. Ai, os feriados.

Como seria bom tê-los…

Bem, mas o primeiro post do ano não precisa começar com lamentações infundadas, pois não há tristeza em ver que o feriado vai ficar meio prejudicado pela quantidade de trabalho. Muito pelo contrário, na verdade significa que há trabalho (e muito trabalho), então, por que reclamar? Assim, continuamos a pensar nos desafios que nos aguardam quando entregamos um livro e já engatamos outro na fila quase interminável de páginas com as quais nos vemos às voltas. Muito aprendizado, não apenas com os livros que traduzimos, mas também com as traduções que lemos. Sim, é importante ler traduções (mesmo que você, tradutor(a), saiba o idioma original), pois se aprende muito – tanto o que fazer como o que não fazer.

Por isso, neste primeiro post do ano, resolvi dar uma dica de livro para falar de tradução. Nos meus antigos blogs eu costumava (e no Facebook ainda costumo) comentar sobre livros que leio e gosto não apenas pela história, enredo, personagens, mas também pelo empenho do tradutor. E o livro da vez são três (só para rimar): a trilogia 1Q84, de Haruki Murakami (Alfaguara, trad. de Lica Hashimoto – uma entrevista muito bacana com a tradutora pode ser conferida aqui). Peguei o Livro 1 por conta de uma tradução que fiz sobre o Murakami e me apaixonei. Não farei uma resenha do livro aqui, mas comentarei brevemente a tradução, que é muito boa.

O livro é traduzido direto do japonês, o que traz um elemento maior de atração: hoje em dia esse fator concede ao livro um status que o destaca, pois ainda são feitas muitas traduções indiretas (idioma original exótico → inglês, francês ou outro idioma mais próximo → português), o que confere velocidade, mas também traz perdas grandes de sentido, precisão etc. Por ser uma língua muito complexa e distante do português, a chance da tradução ficar um pouco travada é muito grande. O que não aconteceu com 1Q84 em momento algum até agora (estou no início do Livro 3, que foi lançado em dezembro de 2013). A leitura é fluida, mas sem perder a beleza e a poesia da língua japonesa e do próprio autor. Não há notas de rodapé, o que me leva a crer que todas as referências muito distantes foram explicitadas de alguma forma dentro do próprio texto, o que conta mais um ponto para a tradutora, pois isso foi feito com destreza. O ritmo do texto é delicioso e, em alguns momentos, esquecemos que a história de Aomame, Tengo, Fukaeri e A crisálida do ar se passa na Tóquio do ano 1984. Algumas vertentes da tradução refutam essa tentativa de “apagamento da estrangeiridade” no texto, mas isso é tema para outro post. Essa suposta transparência, além de ser mérito da tradutora, também se deve a uma acusação que Murakami sempre sofre dentro dos círculos literários japoneses: de ele ser “ocidentalizado” demais. Ao que Murakami responde: “Sou japonês que escreve em japonês literatura japonesa”. Provavelmente essa característica não facilitou a tradução, mas talvez tenha tornado muitas das decisões menos complexas.

Por isso, recomendo 1Q84 para suas leituras de 2014, pela história, que é fascinante e muito bem contada, pela poesia que Murakami imprime em sua literatura e pela tradução, que merece aplausos.

E, em nome da equipe Ponte de Letras, desejo a todos muitas excelentes leituras neste Ano-novo e que nosso blog esteja entre elas. 😉

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4 comentários sobre “As primeiras letras do ano

    • Oi, Roney,

      Obrigado pela visita. Estou alucinado com o livro. Apesar de muita gente não ter gostado ou ter olhado com ressalvas este livro do Murakami (inclusive muita gente diz para não começar pela trilogia, ir para outros livros dele), eu estou gostando muito mesmo. É embarcar na viagem dele e navegar… Abração!

  1. Olá, gostaria de ajuda para encontrar Perfect Macth in April. Um amigo japonês me recomendou, mas não me deu nenhuma orientação mais. Vejo que não é um livro do autor, mas uma história desse autor. Estou muito curiosa por ler?

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