O dilema do autônomo

“Nossa! Mas você vai trabalhar hoje (agora/ainda/de novo/mais/tão tarde/tão cedo)?”

Quem trabalha em casa e nunca escutou uma dessas frases na vida?

O autônomo tem um ritmo diferente dos trabalhadores “comuns”. Ele mora com o trabalho, pode trabalhar quando quer ou quando precisa, dependendo do prazo de entrega. Às vezes, ele não aproveita certas datas porque está acostumado a não precisar esperar desesperadamente pelo fim de semana para dormir até mais tarde ou pegar um cinema no meio do dia, por exemplo. E a história do trabalho fora dos horários convencionais pode se repetir em outros dias. Época de festas, férias escolares, férias coletivas, feriados, fins de semana e por aí vai. E vai. E não volta, porque o tempo que passa não volta. Nós, autônomos, sabemos disso, não é só você que entra às 8h e sai às 17h que sabe, OK?

Resolvi falar sobre esse assunto chatinho porque ele faz parte de uma realidade que nem sempre queremos admitir: trabalhar em casa é ótimo, mas se não tomarmos cuidado, acabamos trabalhando muito, muito mais do que os outros mortais que batem cartão, que têm chefe chato, que enfrentam trânsito para chegar ao trabalho, que têm colegas folgados (argh!) e que têm férias remuneradas e 13o (buááá, as únicas coisas das quais sinto falta no CLT way of life).

Não vou nem dizer que as mães “sofrem” mais, porque tenho colegas do sexo masculino cujas esposas saem para trabalhar fora e eles trabalham em casa e cuidam da rotina dos filhos. Tenho colegas que não têm filhos, mas que se desdobram lecionando, cuidando da rotina da família, fazendo cursos, cumprindo mil tarefas. Tenho colegas com filhos, cachorro, papagaio e outras responsabilidades. Tem de tudo por aí.

Tenho refletido muito sobre a questão da disciplina no trabalho. Muitas vezes, se a pessoa que trabalha em casa não estabelece uma rotina fixa com hora certa para cada coisa, pode achar que não tem problema nenhum dar aquela saidinha boa, mas desnecessária no meio da manhã, afinal, ainda tem o resto do dia para cumprir a cota. A verdade é que apesar de ser bom sair de casa e pensar na vida, sair da frente do computador e descansar a mente, passar duas horas ao telefone ou vendo três episódios da sua série preferida de uma vez, é preciso analisar se essa liberdade toda não está causando mais prejuízo do que benefício.

Como está a sua rotina de sono? Como está o seu cronograma de tradução? Como está a organização do dia a dia? Cada um sabe o que precisa fazer, o que deveria fazer e o que poderia fazer, e sei que você deve estar pensando no que está negligenciando porque “trabalha demais”. Eu cheguei à conclusão de que o autônomo não trabalha tanto quanto pensa. Não estou dizendo que deveria trabalhar mais, não é isso. Estou dizendo que por termos liberdade e fazermos nossos horários, acabamos trabalhando à noite, de madrugada, cedo demais, no feriado, no fim de semana, na noite de Natal (alguém?), porque temos a “sorte” de fazer tudo o que é necessário e mais um pouco nas outras horas do dia. Existe flexibilidade, mas quando temos o dia todo só para o trabalho, perdemos um pouco a noção. Passamos mais horas na frente do computador na amarga ilusão de que estamos trabalhando, mas quem usa um programinha do tipo RescueTime pode monitorar bem o tempo que gasta. Experimentem por uma semana e vejam o relatório depois desse período. Vejam quanto tempo gastam em redes sociais, em sites de notícias e quantas horas, de fato, passam com os programas de trabalho abertos. Vejam e analisem. Vejam e mudem, por favor 🙂

Eu não invejo quem trabalha dentro de uma empresa e não pode sair quando quer, não pode faltar quando precisa, não pode enrolar quando a preguiça vem. Mas quero, dentro da liberdade que tenho, ser mais rígida com meus horários para poder aproveitar o melhor que a vida de autônoma me proporciona. Já testei um esquema que chamei de 7773 e funcionou bem. Em 2014, pretendo voltar a usá-lo na maioria dos dias. É simples:

7 horas de sono (corridas, por favor)

7 horas de trabalho (posso trabalhar duas horas pela manhã, três à tarde e duas à noite, dependendo dos meus horários no dia)

7 horas para assuntos familiares (filho, pais idosos, questões domésticas…)

3 horas pra mim (academia, salão, cursos, lazer — incluindo deslocamento — procuro fazer tudo perto de casa!)

Claro que não precisa ser certíssimo, cronometrado (o trabalho é bom cronometrar, fechando todas as janelas desnecessárias, se é que me entendem 😉 ), mas fazer uma divisão justa do seu dia é preciso. Claro também que, em determinadas épocas, você vai trabalhar mais, vai dormir menos, vai dar menos atenção a uma ou outra área da sua vida. Normal. Nós nos culpamos, mas é normal. Mas a desordem não pode ser a regra. Falo por experiência própria, falo porque vejo meus colegas com os horários bagunçados, falo porque sei que dá para melhorar o que está ruim. Organização é o segredo.

E você, trabalhador com horários fixos, pare de criticar os autônomos do seu convívio. Talvez eles trabalhem enquanto você dorme/sai/se diverte porque dormiram/saíram/se divertiram enquanto você trabalhava. 😉 Horário flexível, sabe como é, né?

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2 comentários sobre “O dilema do autônomo

  1. Muito legal, Carolina. Gostei do fato de que o texto desmistifica a ideia de que a vida do “frila” é moleza, mas também dá um puxão de orelha naqueles que andam se entregando demais à moleza. Com perspectivas realistas, a vida do autônomo tem tudo para ser maravilhosa.

    • Tem tudo, sim, Mila. Somos privilegiados, mas se não houver disciplina, não reconhecemos nem aproveitamos direito esse privilégio 🙂 Obrigada pelo comentário. Um beijo!

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