A união faz a força mesmo!

De volta à velha história do tradutor solitário. Sim, trabalhamos em casa, sim, trabalhamos sozinhos na medida em que assumimos a responsabilidade por uma tradução e temos que responder individualmente pelo cumprimento do prazo de entrega, pela qualidade do trabalho e pelo atendimento a todas as exigências e especificações que acatamos quando aceitamos uma proposta. Portanto, há, sim, no ofício do tradutor uma grande dose de estresse. O que acontece se ele adoece? Se há uma emergência na família, um acidente qualquer, um problema com o equipamento? A Flávia já falou em um post anterior sobre a necessidade de um planejamento cuidadoso para cobrir todas essas possibilidades. Mas e se, mesmo com o planejamento cuidadoso, acontece alguma coisa que ameaça o cumprimento de uma dessas cláusulas do contrato?

Então… Nós do Ponte de Letras temos nossos pontos de encontro, locais onde trocamos ideias e discutimos aspectos da nossa vida profissional e até pessoal. Em uma dessas conversas, falávamos justamente sobre como seria poder contar com o respaldo de uma espécie de salva-vidas, alguém que pudesse dar cobertura em caso de emergência. Foi nessa conversa que percebemos que somos uma equipe, e que podemos funcionar como um grupo também traduzindo.

Eu não acredito em coincidências. Prefiro chamar de “sincronicidade”, como definiu C. G. Jung. O fato é que, logo depois dessa nossa conversa, recebemos pelo formulário de contato do blog um e-mail de uma editora propondo um trabalho de tradução para a equipe do Ponte de Letras. Era um trabalho grande, com prazo curto, e o fato de sermos quatro para dar conta do recado interessava à editora. Conversamos sobre a proposta, fizemos o inevitável cálculo de laudas/dia/tradutor, porque cada um tinha que dar conta também de suas traduções individuais, e decidimos aceitar, certos de que seria tranquilo.

Um dia de trabalho e veio o pânico. O texto não era tão simples, o vocabulário era específico, a necessidade de pesquisa era grande e constante… e a conclusão era óbvia: nosso normal não seria suficiente. Entramos em modo turbo.

O que aconteceu em seguida foi bárbaro. Cada um de nós mostrou, finalmente e com toda transparência, suas características pessoais para pôr em prática os recursos que produziriam os resultados necessários. Petê foi a nossa locomotiva. Trabalhando com ele, consegui terminar um trabalho alguns dias antes do prazo, o que não acontecia há nem sei quanto tempo. O cara é de uma energia inesgotável, de um ânimo invejável, e esteve disponível o tempo todo para discutir vocabulário, soluções, métodos, e para dar ânimo, fazer a gente dar risada e não deixar ninguém esmorecer. Flávia é a detalhista, a pesquisadora por excelência, a que nunca se contenta e está sempre questionando todas as soluções. Em alguns momentos pensamos em bater nela (mentira!), mas sem essa faceta do nosso quarteto, o trabalho não teria saído tão redondinho, uniforme, não uma colcha de retalhos de textos, mas UM texto. Carol e eu temos um jeito meio parecido de trabalhar: desaparecemos! Estávamos sempre disponíveis por algum canal de comunicação, mas nunca o suficiente para nos deixar distrair ou interromper. Aparecíamos no “ponto de encontro virtual” no final do expediente para o resumo do dia, participávamos das discussões nessa hora, nem sempre ao mesmo tempo, e voltávamos para a toca.

Não vou mentir: tive meus momentos de pânico. Tive também momentos em que pensei coisas como “onde eu estava com a cabeça, isso não vai dar certo, traduzir é trabalho individual, como a gente vai juntar os pedaços, cada um pensa de um jeito e ufa…” Mas deu certo. E foi lindo. Aprendemos muito nessas poucas semanas. É claro que, se surgirem outras propostas, vamos nos organizar de maneira diferente, vamos corrigir alguns erros e aprimorar os muitos acertos, mas o que ficou de importante dessa experiência é que traduzir não é necessariamente uma atividade solitária. E por mais difícil que seja assumir o compromisso de lidar com as diferenças e respeitar opiniões diferentes das nossas, é muito reconfortante saber que não são só dois remos e duas mãos. O barco sacudiu, mas chegou ao porto. E nós desembarcamos dessa viagem mais unidos, mais fortes, mais experientes. E, sim, mais amigos.

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16 comentários sobre “A união faz a força mesmo!

  1. Que texto bacana, que equipe linda! Para usar uma palavra muito em voga, tenho certeza que a sinergia entre vocês garantiu o sucesso deste serviço. Parabéns, e que venham outros!
    Beijos!

    • Érika, sua linda. Tô pra escrever desde ontem, mas não consegui. Muito obrigada e concordo: Esmorecer jamais 😀

  2. Que relato sensacional! Não é nada fácil trabalhar em equipe, sempre há um desconforto. Mas, se dá certo, acho que cada um aprende e progride muito, além do grupo formar uma identidade. Parabéns!

    • Não foi fácil, Carol, mas não houve desconforto, e essa foi a melhor surpresa. Até na hora de bater de frente a gente conseguiu se entender. Não tenho nenhuma dúvida de que o grupo se fortaleceu muito com isso.

      • Ah, eu quis dizer um certo desconforto individual, no sentido de sair da nossa zona de conforto — aquele frio na barriga maior do que o habitual por ser um projeto que depende da colaboração dar certo.

      • Mas acho que quando uma equipe se afina, esse desconforto pela dependência da colaboração alheia diminui por que não se tem dúvida quanto à competência, ao fato de o outro dar conta do recado ou não.
        Quando é assim, é uma delícia.
        Mas eu não tenho do que reclamar. Já passei pela boa experiência algumas vezes.

      • Ah, sem dúvida! É claro que vocês já tinham confiança um no outro há muito tempo. É questão de saber dividir as tarefas, como eles fizeram. Acho que não sou a única tradutora com tendências controladoras (quando se trabalha e administra tudo sozinho, é natural), daí o friozinho na barriga na hora de dividir tarefas. Mas cada um aprende muito mais com essa interação.

      • Olha, vou dizer que sofri um pouco por ser muito controladora, chata, pentelha, cismada e detalhista (como a Débora disse no texto), mas no fim deu tudo certo. \o/

  3. Que sagaz essa editora! Viu que tinha uma equipe porreta ali, prontinha, e não pensou duas vezes. Demais. Nem imagino como deve ter sido enriquecedor. O legal é que visualizo exatamente o que você descreveu do Petê e da Flavia pelo pouco tempo em que dividimos um ambiente de trabalho. Parabéns, seus lindos.

  4. Foi ótimo dividir esse projeto com vocês. Aprendi muito sobre mim também, sobre o meu jeito de trabalhar em grupo, coisa que não precisava fazer há dez anos, mais ou menos. Que venham os próximos e, com eles, um modo de trabalhar em grupo cada vez mais eficaz. ❤

  5. Adorei a história! Sem dúvida que foi uma experiência muito interessante e que vocês aprenderam bastante com ela. Achei legal a possibilidade de um trabalho com mecânica diferente justamente nesse nosso meio em que tudo acaba sendo tão parecido. Parabéns aos quatro!

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